Cada vez mais Orelha Negra

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O novo disco tem o mesmo nome do primeiro e do segundo, e à medida que se insiste no nome mais ele se sedimenta. Orelha Negra é mais Orelha Negra, um conjunto que continua a aprender a desfrutar do talento de cada um dos seus membros, e que com isso ganha capacidade de se desafiar cada vez mais. Fred Ferreira, DJ Cruzfader e Sam The Kid falaram à Mais Superior sobre o álbum que acaba de sair e o momento atual da banda.

Seiscentos dias depois, o que é que sobra neste disco dos concertos de apresentação de janeiro de 2016?
Samuel – A estrutura das canções que estão no disco é muito semelhante àquilo que apresentámos nesses concertos. O que fizemos foi acrescentar certas ferramentas, mudar alguns ritmos, pequenas coisas. Mas a essência da cena do CCB [Centro Cultural de Belém] está lá, um pouco mais crua, diria.

Para quem escutou os dois discos anteriores, o que pode esperar deste?
Fred – É um disco diferente, num universo que até aqui não tínhamos explorado muito. Mas isso também já tinha acontecido no segundo disco, portanto essa acaba por ser uma evolução natural da nossa parte, a cada álbum. Ao mesmo tempo, dificultámos um pouco a tarefa a cada um de nós na composição e na feitura deste disco, e desafiámo-nos muito mais uns aos outros.

“O que notamos é uma capacidade cada vez maior de extrair o que cada um de nós tem para trazer. É principalmente essa a diferença que encontro neste disco.”
Sam The Kid

E isso foi consciente?
Fred – Foi consciente e natural. No primeiro álbum ainda estávamos a descobrir o caminho a seguir e a forma de o fazer soar como queríamos, no segundo já tínhamos uma noção melhor e agora no terceiro ainda mais. Conhecemos melhor o espaço de cada um no seio da banda e na própria composição das músicas, e tentámos não repetir o que fizemos nos outros dois discos. Por isso, sendo um disco de Orelha Negra e mantendo a essência do hip-hop, do soul e do funk, acaba por ir por um caminho algo distinto dos outros.
Samuel – Se bem que, na minha opinião, a palavra “evolução” na arte seja sempre subjetiva. A menos que sejas um músico que está a começar e que se note essa evolução de um primeiro disco para um segundo… No nosso caso, com a experiência que já temos, essa evolução é muito menos notória, ainda que exista sempre uma aprendizagem. O que notamos mesmo é uma capacidade cada vez maior de extrair o que cada um de nós tem para trazer, e é principalmente essa diferença que encontro neste disco.
Cruzfader – E as músicas têm um registo mais de canção, com princípio, meio e fim melhor definidos.

Vocês são um grupo de músicos com pergaminhos que criaram um projeto essencialmente instrumental e que contraria aquilo que normalmente alcança as grandes massas. No entanto, a vossa dimensão não é a de um projeto de nicho. A que atribuem esse facto?
Samuel – Nós queremos acreditar que este era o plano inicial que tínhamos, ou seja, criarmos boa música e deixar que ela fale mais alto. Por isso é que ao início tentámos não revelar quem éramos… Apesar disso, não vou negar que se fôssemos cinco pessoas totalmente estranhas à música nacional talvez tivesse demorado um pouco mais a furar, até porque nós não vivemos propriamente de hits

Em vez dos hits, vocês vivem da notoriedade que cada um de vocês tem…
Cruzfader – Sim, isso ajuda imenso.
Samuel – E há pessoal que pode gostar de cada um de nós individualmente, e depois ganhar curiosidade pelos Orelha Negra. Isso e porque o projeto tem qualidade! Por isso é que já vamos no terceiro disco e na segunda mixtape

Como é que cinco músicos tão diferentes uns dos outros e que têm pontos de vista tão próprios conseguem produzir e fazer funcionar discos tão complexos musicalmente?
Samuel – Encontramos o que temos em comum, que é a paixão pela música. Depois há as influências que cada um de nós traz, e que usamos para nos encontrarmos todos a meio caminho.

A base da vossa música é o que têm em comum, e as várias camadas são a individualidade de cada um?
Samuel – É exatamente isso. E é dessa mistura que fazemos esta coisa única que mais ninguém faz.

Orelha Negra, Dead Combo, PAUS, The Legendary Tigerman… As pessoas até podem não conhecer bem a música mas há a noção de que é bom e tem qualidade. Vocês têm essa noção?
Samuel – Temos. Nós não nos esforçamos a cem por cento para isso, queremos é fazer boa música para nos divertirmos e para nos surpreendermos a nós próprios em primeiro lugar, e depois ao público. São duas camadas distintas: primeiro, as pessoas gostarem, e depois os músicos ouvirem a nossa música e perceberem que tem qualidade. E isso também define os bons músicos: fazer algo que soe agradável a quem não está por dentro da música, sem parecer uma jam ou que nos estejamos a masturbar musicalmente, mas que transmita uma mensagem subtil aos nossos pares.

Por último, vocês convidam as pessoas a ouvir-vos ao vivo para depois escutarem o disco. É assim que devemos ouvir os Orelha Negra?
Fred – Não. Essa começou por ser a nossa forma de criar repertório para tocar ao vivo, e para depois fazer o disco. Sempre marcámos um primeiro concerto com alguma distância para nos obrigar a trabalhar juntos para termos o que tocar. E por isso é que, quando demos o nosso primeiro concerto, tocámos o primeiro disco praticamente todo. No segundo álbum foi exatamente a mesma coisa, e neste também. É só uma maneira de trabalhar, que até podemos alterar no futuro.
Samuel – E é muito fixe porque fazer um concerto sem que o público conheça as músicas origina reações completamente diferentes de um concerto onde as pessoas já sabem o que vais tocar. Assim estás a beber algo de novo e a abrir a tua mente, enquanto que o mais convencional é celebrar algo que já conheces. São duas experiências diferentes de um espetáculo.

[Entrevista: Tiago Belim]
[Fotos: Sara Does PR]

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