Pitt Broken sopra ventos de mudança

0
948
Pitt Rita Carmo surf
Nuestros hermanos receberam o projeto melhor do que Diogo podia esperar.

Pitt Broken é o pseudónimo de Diogo Lima, jovem natural de Braga que pegou em “Bad Romance” de Lady Gaga, despiu-a (à música) e pô-la a rodar em tudo quanto era rádio. O álbum de estreia, “Change”, é um hino à autenticidade e ao fazer sentir. Entre Espanha e Portugal, Diogo encontrou tempo para falar à Mais Superior e apelou a que o ser humano volte a ser colocado no lugar que lhe pertence.

És de Braga e foi lá que viveste. Que importância teve a cidade?

Pitt Broken – Braga influenciou-me, mas não da forma mais óbvia. Lá há um certo misticismo à volta de uma banda chamada Mão Morta, e uma série de discípulos também. Isso influenciou-me porque tentei contrariar a tendência, não porque não goste ou não me identifique, mas porque acho que haver diversidade é um bom contributo para a cultura.

Eu venho um bocado daquela geração ‘no bullshit’, que está preocupada com outras coisas, mais do que com a estética ou com a ciência. Não me interessa muito a intelectualização na música, para mim ela tem de ser mais sensorial do que qualquer coisa que tu possas intelectualizar.

Como é que te definirias musicalmente? A capacidade vocal é a tua principal arma?

PB – Para mim, a música tem que fazer sentir. Há música com uma componente estética muito forte, que joga com o fashion, o élan, agora é assim porque tem um grande hype e depois já não é assim. E há o outro lado, o lado das coisas eternas. E eu estou mais nesse lado. Não estou a dizer que a minha música é eterna, nada disso, é música, é o que me faz sentir, é harmonia, é ritmo e melodia.

É difícil autoavaliar-me, mas tem de ser uma junção de tudo. A junção da mensagem com a forma como ela é transmitida, e a base melódica que apoia essa mensagem.

Os artistas fazem basicamente a mesma coisa, o que os define são as pessoas que os ouvem. O foco é a forma como o artista se liga com as pessoas. Para mim, a discussão se isto é rock ou pop-rock passa-me um bocado ao lado.

Então também tu foste influenciado pela forma como te relacionavas com os artistas que ouvias?

PB – Sim, com todos. Desde Frank Sinatra, Michael Jackson, Rufus Wainwright, Jeff Buckley … São todos diferentes, em contextos diferentes, mas têm todos power na mensagem e na performance.

E de onde surgiu o nome Pitt Broken?

PB – Pitt surge na escola, era uma alcunha, não gosto muito de o dizer, mas se calhar porque era parecido com outro Pitt. E Broken surge como a falência da ideia de Pitt ou do motivo pelo qual me chamavam Pitt.

Como é que te definem por aquilo que tu pareces? Nós vivemos num mundo complicado e, se queremos mudar isto, temos de fazer algo. Eu começo por não deixar que a forma se sobreponha à substância. Quero esse caminho inverso. Também por isso é que o álbum se chama “Change”.

Pitt Broken
Diogo Lima diz que a música “tem de fazer sentir”.

Quando é que o projeto se tornou sério?

PB – Quando assumi mesmo Pitt Broken estava a entrar para a faculdade. Na altura, procurei pessoas para formar a banda, que hoje já não estão. Agora estão outras que eu não procurei, como o André Santos, o teclista, que é meu amigo de infância. A maior parte das coisas neste projeto não foram pensadas ou planeadas.

A cover que fizeste da “Bad Romance”, de Lady Gaga, foi um dos maiores impulsos para a tua exposição? Porquê uma versão dessa música?

PB – Peguei na “Bad Romance” pela magia que a música tem de aqui te parecer uma coisa e ali te parecer outra. Quando ouves uma música, se estás feliz ela bate-te de uma maneira, se não estás feliz ela bate-te de outra maneira. Quem mudou não foi a música, foste tu.

E quando tu fazes uma música, tu direcionas, lá está, já há uma estética, já há uma roupagem. Se pegares naquilo e começares a tirar, aquilo já é outra coisa. Eu fiz esse desafio comigo próprio.

Agora, eu já estava a fazer o álbum, portanto ele já seria uma realidade. Mas se calhar a música ajudou, não sei.

Qual é a tua relação com o público universitário, tendo em conta que vais promover o álbum com concertos em universidades?

PB – O meu primeiro concerto, com tudo aquilo a que um concerto tem direito, foi em Lisboa exatamente nesse contexto universitário. É um público muito especial porque transformou um desejo num caminho e isso é algo que eu não posso esquecer.

E o palco é a tua casa?

PB – Eu gosto de duas coisas: ou estar sozinho a tocar, comigo próprio, ou então estar com muita gente. Não gosto de estar a ensaiar, de repetições. Gosto de coisas orgânicas, de partilha verdadeira, de algo que faça sentir. O palco é o meu sítio preferido.

Abres espaço para o improviso durante os concertos?

PB – Claro, completamente. Há coisas de que eu nem quero ouvir falar nos ensaios, do género ‘isto vai ser assim ou assim’. Isso não vai ser nada assim, vai ser como tiver de ser na hora. Há coisas que não ensaias.

Há uma coisa que eu gosto que é de nunca fazer a setlist no dia anterior. Em todos os concertos mudo a setliste decido-a para aí 10 minutos antes do começo.

Pitt Rita Carmo estudio
Nuestros hermanos receberam Pitt Broken melhor do que a banda podia esperar.

Como se deu a tua ida para Espanha?

PB – Surgiu uma proposta, um produtor pediu-me uma música para apresentar e quando cheguei para um concerto tinha 400 pessoas a cantar as minhas músicas. E aquilo foi uma cena tremenda. Era uma sala mais intimista, tipo um Santiago Alquimista, talvez um bocadinho maior.

Em Espanha tenho muito trabalho e, por isso, divido-me entre lá e cá.

Estudaste Ciências da Comunicação em Braga. Por que decidiste deixar o curso de lado? Era difícil conciliar?

PB – Não acabei porque não me sentia realizado. O curso foi uma escolha consciente e é uma coisa que eu adoro, mas a comunicação através da música é mais importante que o lado académico.

No início, até tinha tempo para as duas coisas, confesso, agora é que não teria. Mas era uma questão de foco, queria concentrar-me na música. Deixei muitas coisas, não foi só a faculdade.

Já fazes planos para o que virá a seguir a este álbum?

PB – Isto até agora correu bem sem planos, por isso o melhor é continuar sem mexer muito. Está a correr melhor do que eu esperava.

Mas não tens medo de que te faltem ideias ou inspiração, por exemplo, no momento da composição?

PB – Tenho um bocado de medo que a preocupação se sobreponha à alegria. Para fazermos bem o nosso trabalho, temos de estar bem. Se eu estou a fazer uma música e oiço uma senhora dizer que foi despedida e que vai assaltar para dar de comer ao filho, como é que eu consigo acabá-la?

Os problemas do país são os teus problemas enquanto músico?

PB – Repara, o cidadão deve estar em segundo lugar e o ser humano em primeiro. A forma de viver em sociedade é uma opção nossa, deve haver outras formas com certeza. No outro dia, ouvi uma criança dizer ‘então mas se o problema é o dinheiro, por que é que não se faz mais?’. Apesar de eu saber que é uma pergunta naive , por que não? Quem decide que não?

O que não se pode dizer é que, em nome da economia, vamos deixar as pessoas morrer. Temos de voltar a pôr o ser humano em primeiro lugar. Claro que se alguém está com fome, não quer saber de música para nada. O panorama geral depois afeta todas as outras áreas.

Não faço música de intervenção dos cartazes e de mandar o governo para a rua, mas a música por si só é intervenção. Causas sentimentos nas pessoas, por isso intervéns.

O teu objetivo passa por ficar em Portugal?

PB – Não conheço nenhum país – e eu conheço alguns – mais bonito que Portugal e mais seguro que Portugal. A minha intenção é viver aqui, tenho família e amigos, a não ser que Portugal se torne um lugar impossível. Até lá, estou aqui para lutar.

[Fotos: Rita Carmo e facebook.com/Pitt-Broken]

Partilhar

Comente este artigo

Please enter your comment!
Please enter your name here

*