Um viva à canoagem!

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Poder deslizar nas águas muitas vezes vedadas à maioria dos comuns mortais é um privilégio de poucos. Mas Fernando Pimenta e Emanuel Silva usufruem desse contacto quase divino com a natureza a bordo duma canoa. E por falar em Deuses… Foi a dupla composta por estes rapazes que arrebatou os louros da medalha de prata nestes Jogos Olímpicos de Londres 2012. Ah, sim, falamos de canoagem, essa modalidade que também existe – e brilha lá fora – num país bordado a futebol.

Fernando Pimenta, ainda adolescente de 11 anos, decidiu, “aos poucos”, usar o Rio Lima para dar as primeiras remadelas no mundo da canoagem. “Comecei para me divertir com os meus amigos da altura, que ainda hoje conservo, e fui continuando e conseguindo os meus primeiros resultados e as minhas primeiras medalhas – mas o início foi um bocado atribulado, porque não conseguia ter as medalhas que queria ter, virava muitas vezes a embarcação e chegava a acabar provas em último… Mas nunca desisti!”. Conta Fernando, recordando, com humildade, que foi o seu atual treinador (Hélio Lucas) que descobriu o talento que trazia dentro: “ele achou que eu tinha algum potencial que merecia ser aproveitado. Eu fui-me adaptando, criando um estilo e uma rotina de treino, até que comecei a ter os meus primeiros títulos… E consegui a minha primeira medalha de ouro no Festival da Juventude Europeia, em K4 500 metros. Tinha 15 anos”.

Vitoria
Os dois canoístas não escondem o prazer que lhes dá o contacto com a natureza durante os treinos.

Também Emanuel Silva lembra que, com 15 anos, participou no primeiro Campeonato de Juniores. “Foi nessa altura que eu e o meu treinador começámos a perceber que podia nascer daqui alguma coisa interessante… Mais a nível profissional”. E a partir daí, já nada foi capaz de afastar esta atração pela canoagem – uma modalidade em contacto privilegiado com a natureza, elogia Emanuel: “É o que mais gosto na canoagem, o facto de ser praticada ao ar livre e em contacto com a natureza. Não estamos dependentes de ninguém, pegamos no barco e vamos para o rio, podendo beneficiar duma paisagem absolutamente fascinante, ao contrário do que acontece com outros desportos, como a natação, por exemplo, praticada num recinto mais fechado”. Obviamente isso tem o seu senão, que é o clima… Mas também Fernando se mostra agradecido pelas belas vistas que presencia enquanto treina: “passamos por sítios lindíssimos onde, por vezes, até é proibido andar com barcos a motor, ou seja: pouca gente consegue andar lá. Eu sinto-me privilegiado, pois durante os treinos vejo sítios fantásticos: rios, lagoas… E isso de trabalhar com a natureza, em função de como ela se encontra aquele dia, é bastante atrativo para mim, até porque nós não faço só canoagem, nos treinos há sempre um ou outro complemento como corrida, ciclismo, BTT…”.

Jogos Olímpicos bem suados

É o sonho de qualquer atleta e o tipo de memória que vale a pena ter vivido para um dia contar aos netos: ganhar uma medalha olímpica. Para Fernando Pimenta estes foram os primeiros Jogos Olímpicos, por isso houve ainda uma pitada de nervosismo: “é claro que estava um pouco nervoso, mas estava mais nervoso no dia das eliminatórias do que no dia das finais – nessa altura, estava mais tranquilo e mais descansado, pois tinha a consciência de que íamos lutar pelas medalhas e conseguir o melhor resultado possível”. Atendendo às especificidades de competir em dupla, Fernando acrescenta que o facto de conhecer o Emanuel há já algum tempo e ter competido contra ele e com ele na mesma embarcação facilitou as coisas, até porque “bastava que um estivesse mais inclinado para um lado e outro para o outro… Que não ia dar certo”. Já Emanuel enfatiza o talento individual de cada um: “Tanto eu como o Fernando temos objetivos muito bem traçados e individualmente somos muito bons. E uma vez colocados no K2, o barco passou a andar da melhor maneira, porque nem sempre os melhores resultados nacionais fazem o melhor barco…. Mas, neste caso, houve a felicidade de poder juntar os dois melhores atletas nacionais e o barco ficou a andar muito bem”. A juntar a este facto, Emanuel acredita que a medalha foi muito bem merecida, dizendo, orgulhosamente, que houve “imenso trabalho por detrás desta vitória” e que “o barco chegou o mais rápido possível à meta”.

Vitoria
Emanuel acredita que a medalha foi muito bem merecida, dizendo, orgulhosamente, que houve “imenso trabalho por detrás desta vitória” e que “o barco chegou o mais rápido possível à meta”.

Obrigada pelo apoio!

É assim que os nossos heróis olímpicos manifestam o carinho demonstrado pelos portugueses. Fernando Pimenta confessa que, tal como outros atletas, tinha o sonho de ganhar uma medalha nos Jogos Olímpicos, “o evento máximo do desporto”, e que fez de tudo para merecer o feito: “claro que sonhei, mas também lutei para estar lá”, refere o canoísta, ao mesmo tempo que nos confessa que agora a medalha está num “sítio secreto”, até que chegue o “cofre oferecido pela empresa Chaves do Areeiro”. Por seu turno, Emanuel Silva reconhece que todas as mensagens que recebeu estão guardadas no coração. “Acarinho-as como se fossem palavras dum Presidente da República. Eu admiro todas as pequenas e grandes felicitações que me fazem, porque sei que são feitas com o maior carinho e é sinal de que prestaram atenção às provas e deram valor à nossa modalidade, acompanhando de perto os nossos êxitos”. O canoísta termina dizendo que a sensação chega a roçar quase o sentimento pueril do aluno que é considerado “o melhor da escola” ou, no plano profissional, o funcionário que é eleito “o melhor funcionário da empresa”.

Até aos próximos Jogos Olímpicos (Rio de Janeiro, em 2016), os dois atletas pretendem completar os percursos universitários, mas os objetivos desportivos continuam na linha do horizonte. Fernando Pimenta diz mesmo que se esperam “quatro anos de muito trabalho e de muitos sacrifícios”.

Fernando Fernando Pimenta
Idade: 23 anos
Naturalidade: Ponte de Lima
Curso: Reabilitação Psicomotora, na Universidade Fernando Pessoa (polo de Ponte de Lima)
Perfil: Campeão europeu de juniores em 2007 (K1 1000) e de sub-23 em 2009 (K1 1000) e 2010 (K2 500). Em 2011, venceu três provas da Taça do Mundo, mas o grande resultado obtido no ano passado foi a vitória no Campeonato da Europa em K4 1000, juntamente com Emanuel Silva, João Ribeiro e David Fernandes.
Em dupla com Emanuel Silva no K2 1000, arrebatou a medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Londres 2012.
Curiosidade: Quando Fernando percebeu que tinha uma mancha de gente à espera dele em Ponte de Lima ficou extremamente emocionado. “Foi, como toda a gente viu, uma coisa fantástica! Eu nunca tinha visto tanta a gente a vibrar tanto: sabia que havia muita gente contente com o bom resultado, mas não sabia é que as pessoas viessem assim manifestar-se pra a rua. Senti-me muito acarinhado com aqueles sete autocarros de gente no aeroporto e todas aquelas pessoas na beira da estrada… Foi mesmo fantástico”.

EmanuelEmanuel Silva
Idade: 26 anos
Naturalidade: Braga
Curso: Enfermagem, na Universidade do Minho (UMinho), em Braga
Perfil: Com 18 anos, foi o único representante português na modalidade nos Jogos Olímpicos de Atenas 2004 e obteve a segunda melhor classificação de sempre da canoagem nacional, ao terminar em 7º no K1 1000m. Já foi campeão europeu (K4 1000, em 2011), bicampeão europeu de sub-23 (K1 1000, em 2006 e 2007) e campeão do mundo de juniores (K1 500m, em 2003), além de somar outros lugares no pódio em grandes competições.
Na sua terceira participação olímpica, e em dupla com Fernando Pimenta no K2 1000, trouxe para Portugal a medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Londres 2012.
Curiosidade: Uma espécie de rapaz dos sete instrumentos, Emanuel confessa que está a pensar mudar de curso, já que “Desporto é que seria mesmo a praia ideal”. Além disso, o nosso medalhado olímpico contou-nos que também trabalha, de vez em quando, na Confeitaria e Pizzaria “Viena”, em Braga. “O negócio é da minha esposa e dum tio meu sócio, mas eu sempre que posso vou para lá ajudar no que for preciso”, admite.

[Foto: Federação Portuguesa de Canoagem e Fernando Pimenta]

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