A história de um sonho

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Era uma vez… Uma jovem que, como qualquer outra jovem-adulta, depois da universidade procura ansiosamente por uma oportunidade de dar o seu melhor no que quer que seja. Que, na dura luta de se envolver no socialmente aceite, deixa um pouco de lado velhos sonhos e vontades. Era eu! Com o passar do tempo, os objetivos iam sendo atingidos, estudos, trabalho, uma vida de responsabilidades a começar, os sonhos iam ficando para trás, viajar, conhecer novas culturas, dedicar-se a ajudar quem mais precisa.

Abraçar o incerto era cada vez mais uma loucura adolescente. Mas o pequeno rasgo dessa mesma loucura, que sempre permaneceu latente no mais profundo do ser, ia surgindo e cada vez com mais força na voz. A curiosidade em saber o que o mundo tinha para oferecer, levou a que a busca nunca parasse. Websites, blogs, artigos, tudo era lido com interesse, tudo era levado, aconchegado no sonho já existente de partir em busca de algo.

A coragem veio quando a estabilidade ameaçava tomar conta de um dia a dia certo.

Um e-mail enviado na procura de saber um pouco mais, o contacto vai-se mantendo, a informação vai chegando cada vez mais concreta, e o que parecia loucura era já uma possibilidade palpável.
CICD era o nome do colégio que me poderia levar a África ou Índia, que me abria a porta para ir dar tudo o que tinha, junto com o que me seria ensinado, àqueles que eu julgava nada, ou muito pouco, saberem acerca de civilização e desenvolvimento.

Dia 30 de dezembro de 2010, era o dia de partir. Uma sensação igual à de fazer bungee jumping, “não vou saltar, não vou saltar, não vou saltar…” e lá saltei para o avião, de mochila nas costas, muitas dúvidas no pensamento e apenas a certeza de que na pior das hipóteses podia sempre regressar com o sentimento de pelo menos ter tentado. CICD é uma escola diferente, gente um pouco de todo o lado, todos diferentes, mas todos com o mesmo motivo expressado das mais variadas formas, “estava a precisar de algo diferente na minha vida”, “sempre senti que podia fazer mais para mudar o mundo”, “queria ajudar o próximo”… Todos juntos num só objetivo, num só sonho!

A realidade sempre bem presente, assim como em qualquer outro local é preciso dinheiro, é preciso trabalhar para angariar esse dinheiro; é preciso aprender, e muito, sobre as diferentes realidades que vamos encontrar em África ou na Índia. Estudar sobre doenças, sistemas políticos e económicos, história mundial, aprender a tirar partido de tudo o que a natureza nos dá. Reciclar é mais que uma moda, é saber viver com muito pouco e usar todo o potencial daquilo que temos. Latrinas, sistemas de composto, tip-tap, moringa, reaproveitamento de água… Tudo novas palavras no meu dicionário, novos conhecimentos no meu portfólio pessoal.

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Ser um Instrutor de Desenvolvimento (vulgo, mas um pouco mais que, voluntário) é ser flexível, ter realmente uma mente aberta ao mundo e às gentes que o habitam. É acordar cedo para estudar, limpar, cozinhar, angariar fundos, trocar experiências com todos, porque todos são mais experientes que nós em alguma coisa. É aprender, aprender, aprender. Por vezes também é engolir o orgulho, desanimar, sentir vontade de voltar ao expectável e sempre previsível mundo do viver só para nós, correndo risco muito pouco arriscados. Afinal ser voluntário é aprender a dar sem pedir nada em troca. Foram 10 meses de CICD, que se arrastaram, mas onde ainda tinha tanto para aprender.

Chegou a altura de partir, Moçambique foi o país eleito. Era o sonho africano a tornar-se realidade.

Dia 19 de novembro de 2011, vejo a Europa a ficar para trás, desfocada pela distância e pelas nuvens. O meu “Era uma vez…” estava a começar, com tanto entusiasmo que já o “feliz para sempre” surgia na segunda linha. Maputo, era a noite do dia 21 de novembro de 2011, chovia torrencialmente. O avião que me levou de Johanesburg a Maputo tremia no meio da turbulência, mais do que eu no meio do meu receio pelo desconhecido.

Não há imagens, documentários, livros… Que nos preparem para o que realmente é a realidade em Moçambique. O calor e humidade normais na época de chuva, os cheiros e o lixo, as crianças pelas ruas, os olhares que reconhecem só num esgar que não sou dali! As crianças gritam e apontam o dedo “Mulungo, mulungo. Compra mulungo.” (Mulungo significa branco no dialeto local).
Eu sorrio, com um sorriso de admiração, de espanto, sinto-me uma criança que pela primeira vez vê o mundo, tudo é novo! Quanto mais o meu sorriso se abre, mais se abrem também os sorrisos com que me cruzo, “Bom dia” digo eu, “Lexilê” respondem de volta. E com o passar do tempo, a mulungo não deixa de ser mulungo, mas a estranha passa a fazer parte do lugar.

Muitas são as atividades, One World University – OWU (Instituto Superior de Educação e Tecnologia – ISET, nome português) é o local de trabalho. Uma universidade diferente, com um sistema de ensino diferente e alunos dispostos a algo mais que apenas ter um canudo.

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Ser licenciado num país como Moçambique não é algo comum nem atingível a qualquer um, só os melhores e/ou com possibilidades financeiras o conseguem. Essa minoria está consciente da sua dimensão e agarram-se com força a todas as oportunidades que surgem. Lutam para ter uma vida melhor e desenvolver o país em que nasceram. Simultaneamente sonham com outros mundos. Falar na Europa, América, faz brilhar olhares. Quem sou eu para criticar, ou desvalorizar estes sonhos?! O meu era ir para África!!!

Trabalho, vamos ao trabalho. Estando numa universidade seria de esperar que o meu trabalho fosse quase exclusivamente virado para o ensino, errado! Estava lá para ajudar, foi para isso que ingressei no programa do CICD e foi para isso que fui para Moçambique. A OWU está fortemente virada para a vertente social, de desenvolvimento comunitário, como tal integra diversas parcerias que visam o desenvolvimento das comunidades circundantes. Um deles é o EEP – Energy and Envirnment Partnership, que visa estimular o uso de energias renováveis e não só. Entrei no projeto, precisavam urgentemente de ajuda para a sua implementação, e os meus seis meses por lá iam ser uma grande valia. Basicamente o projeto consistia em instalar pequenos painéis solares em 6 comunidades diferentes que iriam permitir carregar lanternas, de forma a fornecer às populações uma fonte de iluminação barata, limpa e segura.

Era tempo de explicar às populações o quanto o uso de fogueiras, candeeiros a petróleo, velas e carvão, são prejudiciais para a saúde, e como pode ser mais barato para eles usarem simples candeeiros recarregáveis com energia solar.

O meu tempo era divido entre o cumprimento das exigências burocráticas dos parceiros que financiavam o projeto, que incluía, escrever relatórios, controlar saídas e entradas de dinheiro e documentar todo o desenvolvimento e implementação. Por outro lado, estava a sensibilização das comunidades, e por fim a implementação propriamente dita, que incluiu, fazer apresentações, dar treinos no uso da energia solar, mais concretamente no uso das lanternas, treinos de contabilidade para os responsáveis pelo aluguer das lanternas, construção de casas para a instalação dos painéis, instalação, manutenção e supervisão de todo o material.

Entretanto, foi sempre possível acompanhar o dia-a-dia dos estudantes da OWU e de diferentes formas contribuir para o seu sucesso, quer fosse através de aulas de apoio de inglês, informática, português; supervisão de relatórios e teses… O meu tempo não era mais só meu, era de todos aqueles que precisavam, e quanto mais útil eu era, mais feliz me sentia. Esses 6 meses em Moçambique voaram. Foi-me pedido e permitido permanecer por mais 6 semanas, de forma a poder transmitir as minhas responsabilidades e acompanhar mais um pouco o projeto EEP.

No dia 4 de Julho de 2012, ainda o país dormia quando disse adeus a Moçambique, entre lágrimas de saudade antecipada, sorrisos por regressar aos braços daqueles que tanto me querem, vi África desaparecer entre nuvens, vi o sol nascer e aquecer meu coração, agradecendo a mim própria ter tido coragem para dar o salto!

De Moçambique muito mais podia contar, as viagens, as gentes quentes e sorridentes, a compreensão, os braços abertos dispostos a me receberem, as comidas, os sons e cheiros… A miséria, mas acima de tudo a boa vontade. Mas isso é só meu, não que o não queria partilhar, apenas não sei, não sou poeta para o saber fazer.
Deixo a cada um, apenas a curiosidade, a vontade. Indico o caminho ao fundo do qual se abre a porta deste outro mundo, que leva a este sonho que não é só meu, mas de todos aqueles que acreditam, que sentem vontade de partir. Porque afinal, ser voluntário é ter saudades, é ter medo de partir mas mesmo assim não querer ficar.
Obrigado a todos os que apoiaram esta busca, todos os que fizeram parte dela, agradeço profundamente todos os sorrisos e abraços.

Até já Moçambique.

SOBRE A AUTORA DO TEXTO

A Beatriz Esteves (btesteves@gmail.com) tem 27 anos, é natural de Vila Flor (Trás-os-Montes) e estudou Psicologia na Universidade de Évora (UE). Recentemente, viveu uma experiência de seis meses como voluntária – no Programa de formação de Instrutores de Desenvolvimento no College for International Co-Operation and Development (CICD), em Inglaterra (durante seis meses), seguidos doutros seis meses em Moçambique (província de Maputo cidade), no projeto One World University em Changalane. Como resultado dessa experiência, Beatriz escreveu este sentido texto, em jeito de testemunho.

[Foto:  Beatriz Esteves]

 

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