Música com a maciez das nuvens

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São um puzzle com nome de livro que começou com Salvador Menezes, Afonso Cabral e Luís Costa. Juntaram-se David Santos (Noiserv), João Gil e Tomás Sousa e agora são seis os rapazes em palco a fazer música com a maciez das nuvens. A Mais Superior aproveitou a companhia dos patos do lago do Jardim da Estrela e foi conhecer melhor os You Can’t Win, Charlie Brown (YCWCB): descobrimos o que andam a fazer, como correu a viagem ao Texas para o Festival South by Southwest e que acontecimentos bizarros ainda os fazem corar quando relembrados.

 

 

 

Como é que de três rapazes que faziam música em casa passámos para seis artistas em palco?

Salvador Menezes (SM): Éramos amigos. O Luís, o Afonso e eu éramos os três que fazíamos coisas em casa. O Tomás é nosso primo (eu, o Afonso e Tomás somos primos). O João já o conhecemos desde crianças. O Luís tinha o projeto dele e nós os três tínhamos o nosso e chegámos a tocar juntos algumas vezes. Com essa banda que tínhamos antes, na altura estávamos a pensar em usar loops, porque tínhamos muitas camadas, mas depois falamos com o David e ele juntou-se a nós – e o facto é que nunca chegámos a usar loops ou usámos muito poucos. Depois, achámos que precisávamos de mais mãos para tocar e pensámos no Tomás e no João, obviamente, e começámos a trabalhar, já os seis, no disco.

E agora? Pensam vir a ser mais do que seis em palco?

Tomás Sousa (TS): Para já seis é suficiente (risos).

Como é ser artista/músico em Portugal, tendo também em conta o vosso percurso desde o Novos Talentos da FNAC (2008), o Optimus Discos (2009) até ao vosso primeiro álbum “Chromatic” (2010)?

SM: Para sobreviver nunca dá… Pelo menos só tendo um projeto é impossível sobreviver só da música. Ou se tem mais do que um projeto musical e se faz mais qualquer coisa ligada à música ou então já se é grande no meio…. Mas nós ainda estamos no princípio.

Afonso Cabral (AC): Nós fazemos isto pelo amor à camisola e pelo amor à música. Não podemos pensar, neste momento, em fazer disto a nossa vida. Seria muito bom que isso acontecesse, mas é muito complicado…. Acho que só faz música quem quer mesmo e quem tem vontade para passar os tempos livres e os dias de férias que tem a tocar e a dar concertos.

SM: Mas em termos de promoção, fomos sempre evoluindo e fomos ficando mais conhecidos – primeiro pelo Festival Termómetro, depois pelo Optimus Discos… A nossa banda sempre teve uma grande ajuda em termos promocionais de projetos e de pessoas que estão interessadas na música portuguesa. Nesses aspeto, sempre tivemos sorte.

A nível desse vosso crescimento: qual a importância dos fãs e de todas as pessoas que admiram o vosso trabalho em momentos tão particulares como a vossa ida ao South by Southwest (SBSW)? Viram a vossa vida a andar para trás quando foram convidados para um festival super importante, mas as despesas de deslocação até ao Texas não estavam incluídas?

TS: Vimos a vida a andar para trás durante alguns meses, mas depois quando avançámos com o concerto de angariação de dinheiro para a viagem que demos no São Jorge, em Lisboa, vimos uma quantidade de gente para nós absurda, quase. Eram pessoas que estavam dispostas a ajudar-nos a ir ao concerto, a comprarem cartazes… E esse gesto surpreendeu-nos a todos – no princípio, até pensávamos que fazer um concerto no São Jorge ia ser muito arriscado, não íamos ter muita gente e não ia correr bem, mas felizmente correu da melhor maneira possível.

SM: Sim, era difícil ter corrido melhor. As pessoas quiserem mesmo ajudar a ter um projeto nacional lá fora.

Em relação ao feedback nas redes sociais, como é poder ler as reações das pessoas no momento?

TS: Sabe bem, primeiro porque dá para associar uma cara a cada pessoa que está do outro lado. Isso é engraçado e dá para ter um discurso mais direto. Hoje em dia o Facebook acaba por ser a melhor forma de lidar com os fãs (não gosto desta palavra, mas pronto) – já foi o Myspace, mas agora já não.

Quem é, afinal, o maior fã de Charles M. Schulz? Isto para percebermos donde vem o nome da banda…

SM: O Afonso tinha um projeto a solo com um nome. Eu também tinha outro projeto a solo que nunca chegou a e existir com outro nome, mas o do Afonso era o melhor. O David não gostava, porque lhe fazia lembrar o nome doutra banda muito má (risos). Como tínhamos que ter um nome para o Novos Talentos FNAC, no dia antes do limite, estávamos na casa dele [aponta para o Afonso] a ensaiar e ele tinha uma data de livros, que até são da mãe dele e nem sequer estavam arrumados, e pegámos no “You can´t win, Charlie Brown”. E pronto, ficou esse o nome.

AC: Portanto, à pergunta “Quem é o maior fã do Schulz” a resposta é: a minha mãe (risos).

O que é que vos inspira na hora de fazer música?

AC: É sempre difícil de responder, porque são sempre várias coisas e várias influências de cada pessoa.

SM: As cores até são um bocado isso: se cada cada um tem uma cor diferente, cada um de nós está a dar o seu contributo, está a pôr a sua cor (é um bocado foleira esta resposta, mas é verdade… (risos). Isto vem na sequência do título “Chromatic”, cujo nome tentámos definir em apenas uma palavra…

Desta vez não tiveram que recorrer a um livro…

Todos: Não (gargalhadas gerais).

Vários elementos da banda têm outros projetos em paralelo. Entre concertos, ensaios, vida pessoal… Como é que fazem para conciliar tudo isto?

TS: É complicado nalgumas alturas, mas como para compor nós mandamos a músicas uns para os outros e cada um vai dando o seu feedback, pondo camadas e tirando camadas, acaba por funcionar bem. Mas estar juntos, acabamos por não estar muito… A não ser em altura de concertos.

SM: Nós os três estamos muitas vezes juntos, porque somos primos (risos)… No jantar de Natal e assim… Mas com os seis já é mais difícil.

Contem lá algumas situações caricatas ou bizzarras pelas quais já passaram…

SM: Fizemos três concertos na rua e num deles, no Chiado, houve um casal com uma criança que veio falar comigo, sendo que a criança se virou para mim e disse: “Ah, que giro, tens barba!”, ao que eu respondi: “Ah, não te preocupes que tu também vais ter!”. (Gargalhadas gerais) Passados uns momentos (apontando para o Afonso e o Tomás) alguém me disse: “Salvador, era uma rapariga!”.

TS: Outra peripécia foi no SBSW: nós fomos para o Texas só com o básico, mas era preciso uma bateria para dar o concerto. Nós não levámos nenhuma, mas tínhamos combinado com a banda que ia tocar no nosso sítio que íamos tocar com a deles. Entretanto, eles telefonam-nos a dizer que não iam conseguir chegar a tempo do nosso concerto e que, se calhar, não iam chegar a tempo do deles. Nós, em desespero, andámos a correr tudo o que era sítio para aluguer de equipamento e já não havia baterias em lado nenhum…

SM:… Porque as bandas nunca levam baterias, sai mais caro, porque são muito grandes e o costume é alugar. Tinha desaparecido tudo.

TS: No próprio dia do concerto, a única solução foi andar a correr todas as lojas de penhores e encontrámos lá uma bateria que custava 200 dólares. No final do concerto, vendemos a bateria por metade do preço, ou seja, a bateria ficou-nos por 100 dólares. Nunca estive tão nervoso na vida e gastei quase 160 euros de roaming só a tentar telefonar para os taxis…

Então os telefonemas ainda conseguiram ficar mais caros do que a bateria…

TS e SM: Sim, foi mais um bocado.

A nível de projetos, o que andam já a matutar?

AC: Já estamos a começar a pensar mais a sério num segundo disco para o próximo anos, em que altura do ano ainda vamos ver, porque isso depende de muita coisa… Mas já está encaminhado.

Para os que nunca assistiram a um concerto dos WCWCB, o que podem esperar?

AC: Depende muito do estado de espírito de cada um de nós nesse dia, mas acho que é uma boa experiência: são seis amigos que se divertem em palco a tocar a música deles. Quando isso corre bem e estamos todos no mesmo barco, acho que isso passa para o outro lado.

E falando em estarem em cima do palco: quando estão a atuar, notam a diferença das vibrações do público que está à vossa frente, conforme o país, a sala de espetáculo…

SM: Até em Portugal se nota a diferença – os do norte são muito mais entusiastas…

AC: No nosso concerto do Optimus Primavera Sound, por exemplo, notou-se isso, se bem que ali estavam pessoas de todo o mundo… Conseguimos sentir a energia das pessoas. Isso nem sempre acontece, mas quando assim é, sabe melhor.

E lá fora?

SM: Os ingleses são um povo muito habituado a ter música, mas curiosamente não se estão a borrifar para a música nova, são muito atentos e veem o concerto com atenção – pelo menos a julgar pelos concertos que demos. Nota-se que gostam de música… E com isto lembrei-me de mais uma história: um casal inglês viajou mais de 100 km para ir ver um concerto nosso a Londres. Depois do concerto, fomos jantar com eles e estivemos com eles…. Eles tinham feito 100 km… (risos).

Já não tenho mais perguntas – querem dizer mais alguma coisa?

AC: Acho que não… Mas já agora posso contar que o David (Noiserv) cortou as rastas!! (risos)

[Fotos: YCWCB]

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