Excelentíssimos veteranos, hora de refletir!

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“Vamos caloiro!”, “é isso caloiro”, “mais alto caloiro”. Até que existam, as praxes não vão deixar de ser controversas. Os seus detratores dizem que é humilhação, os seus defensores dizem que é a melhor forma de integrar alunos e há quem diga que as praxes vão muito para além dos primeiros dias de um recém-chegado à universidade. Bruno Moraes Cabral quis passá-las para a tela e lançar o debate. A bem ou a mal, conseguiu.

“Praxis”, curta-metragem do realizador português, percorreu 19 faculdades, desde Coimbra a Lisboa, passando por Aveiro, Évora e Beja. Encontrou jovens num estábulo, a rastejar, enquanto os menos jovens lhes colocavam palha por cima e por dentro da roupa. Viu insetos a subirem-lhes pelas costas, coladas de suor. Filmou alunas vendadas com um saco preto, nervosas por saber o que estava para vir. Viu outras à beira do vómito, à medida que os “senhores veteranos” as obrigavam a mastigar mais alho. E, por isso, “Praxis” é um daqueles filmes que te vão fazer falar, é uma curta que dava para mais do que uma longa conversa.

Praxes

Bruno Moraes Cabral diz que as praxes se generalizaram e são neste momento a principal forma de receber os estudantes, mas que nunca foi sua intenção “fazer juízos de valor” sobre elas. Quis antes mostrá-las da forma mais objetiva possível e sem tabus, “levantar questões e permitir às pessoas vê-las de uma forma mais distanciada”. Por isso, o realizador pôs de parte a hipótese de mostrar apenas uma ou duas situações violentas. Ligou a câmara e filmou o que lhe apareceu pela frente: “o critério foi muito o de ‘ir atrás’ e filmar quando os estudantes nos diziam que se ia passar alguma coisa”.

A realidade por trás da lente

Há já uma verdade incontornável – tudo o que vires em “Praxis” aconteceu mesmo, não é ficção, e seguiu o rumo que os seus intervenientes quiseram. Bruno Moraes Cabral explica esta ideia de realidade: “o filme confronta-nos com coisas que existem e, por isso, não cai no vazio. Não estamos a falar de um momento de abuso específico, mas de um panorama, com exemplos concretos”. Vai daí que os debates suscitem sempre grande discussão e opiniões diversas, “o filme não pode mostrar tudo, há quem diga que isto não é a praxe e há quem diga ‘não, desculpem lá, é exatamente isto que nós fazemos'”.

Bruno Moraes Cabral

Para o realizador é descabido renegar as praxes, mas é preciso pensar se elas são a única forma de integração. Lembra os movimentos contestatários ao regime, antes do 25 de abril, altura em que os próprios estudantes aboliram as praxes “e encontraram outras formas de socialização, como as festas, por exemplo”. Segundo Bruno Moraes Cabral, as brincadeiras devem existir e têm potencial, a ordem de valores é que pode ser outra: “se for sempre à base de uma submissão, de uma hierarquia, uns mandam e outros fazem, há sempre mais riscos de alguém se ofender”.

Três meses de investigação no terreno valeram prémios e satisfação pessoal ao realizador. Valeram também um filme sobre um tema que te é certamente muito próximo. “Praxis” não deve servir para te pôr contra as praxes, mas deve servir para te pôr a pensar sobre elas.

Se não sabes, ficas a saber que…

  • A primeira brincadeira a acabar no tribunal (e não, não foi no tribunal de praxes) deu-se a 8 de Outubro de 2002. Numa faculdade agrária, uma aluna foi barrada com excremento de porco enquanto fazia a posição do elefante pensador (de joelhos, cabeça para baixo e as mãos por baixo das pernas) e, de seguida, obrigada a colocar a cabeça dentro de um bacio. Sete “veteranos” foram condenados.
  • “Praxis” arrecadou o prémio para Melhor Curta-Metragem no DocLisboa 2011 e continua na senda dos festivais, com idas à Suíça e a Madrid. Bruno Moraes Cabral admite que o festival português foi um grande trampolim e mostra-se disponível a sugestões de quem queira receber e apresentar a película, seja em escolas seja em salas de cinema mais convencionais.
  • O filme tem sido apresentado em várias faculdades do país, mas não limita os alunos ao seu visionamento: como a duração é de 30 minutos, há sempre tempo para um debate enriquecedor. Dúvidas e certezas dos que vivem a praxe por dentro. Confere e participa.

[Fotos: Carlos Isaac]

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