Ela tem sempre razão

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Crescemos habituados a ela, como se fosse uma presença adquirida com que nos brindaram os céus desde que usamos fraldas: ela engorda e ela vomita quando nos carrega na barriga, ela renuncia ao trabalho, ela amamenta, ela fica sem dormir, ela leva-nos à escola, ela obriga-nos a fazer os trabalhos de casa e a comer ervilhas, ela vai connosco para o hospital quando partimos a cabeça a fazer o que ela nos disse precisamente para não fazer, ela explica que infelizmente o Pai Natal não existe e que afinal não vamos morrer dessangradas, porque é o primeiro período menstrual que chegou.

Depois crescemos e achamos que já fica mal ela nos ir buscar à escola e não queremos opiniões para cortar o cabelo ou comprar roupa nova, porque ela já não percebe nada das conversas que temos com os amigos, quando vamos  beber uns copos pela noite dentro, enquanto ela, em casa e sem conseguirem dormir, conta os ponteiros das horas, dos minutos e dos segundos e inventa chás de camomila e programas de televisão favoritos para que, quando chegues, ela esteja sozinha na cozinha de luz acesa com um “ah, já chegaste?” que confirma que estás são e salvo, sem que tu te apercebas.

Depois há um dia em que chegas com aquele sorriso estúpido estampado na cara e que respondes ao “queres contar-me alguma coisa?” dela com um “Não é nada” e um outro ” Não é nada, já disse” logo a seguir, quando na verdade tu achas que é o melhor que te aconteceu na vida, mas que ao ser um segredo só teu ninguém mais no mundo tem de saber, nem mesmo ela. Quando descobres que te enganaste e a tristeza dum coração partido toma conta de ti, voltas para casa mais cedo e percebes que é dela o melhor ombro para chorar, admitindo, com baba e ranho, que afinal ela é que tem sempre razão.

Do “não espremas borbulhas, que depois fica marca”, ao “vais comer a sopa, vais, que faz muito bem à saúde”, há um sem fim de frases que nos vem à cabeça, sempre que alguma coisa não corre tal como tínhamos previsto. E à medida que a idade avança, basta um início de ruga ou o primeiro cabelo branco para que a frase dela “eu bem que te avisei!” resuma toda a nossa existência.

Por isso, se tens a sorte de ainda ter a tua mãe por perto, vai a correr dar-lhe um abraço. Lembra-te que não há no mundo ninguém que goste tanto de ti como ela.

[Foto: art.com]

 

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