Universitários que odiavam Salazar

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Houve tempos em que nas traseiras das faculdades de Ciências e Economia do Porto (hoje Reitoria da Universidade do Porto), carrinhas da polícia levavam alunos presos para o Aljube. Foram precisamente estudantes universitários como estes que contribuíram para a queda do salazarismo, recusando-se a combater na Guerra Colonial e precipitando a criação do Movimento das Forças Armadas (MFA), explica José Lopes Cordeiro, professor de História da Universidade do Minho (UMinho).

Manifestações e publicações clandestinas também fizeram parte desta luta contra o Estado Novo, numa altura em que o movimento estudantil era sobretudo maoísta e incluía nomes como Durão Barroso, Nuno Crato, Pacheco Pereira e Maria José Morgado, refere José Lopes Cordeiro, também  investigador do Centro Interdisciplinar Cultura Espaço e Memória (CITCEM).

No estudo “A Oposição Estudantil nos Últimos Anos do Fascismo (1969-74)”, editado pelo Município de Famalicão, Lopes Cordeiro realça que as organizações marxistas-leninistas estudantis superaram pela primeira vez a influência do PCP nos estudantes, embaladas pelo Maio de 68 e pela Revolução Cultural na China. A sua investigação centrou-se na imprensa clandestina da época, que tinha nomes como “Servir o Povo”, “Guarda Vermelha”, “Viva a Revolução”, “A Luta dos Povos” e “12 de Outubro”, o dia de 1972 em que a PIDE assassinou o aluno Ribeiro dos Santos.

“Traduzia a radicalização que o movimento adquirira em Lisboa, Coimbra e Porto. Ao ver a polícia de choque entrar à bastonada na universidade, prender alunos a torto e direito, castigá-los para combaterem como soldados ou fechar as instalações, o mais apático estudante ficava afetado e isso gerava uma onda de solidariedade”, explica Lopes Cordeiro. Em 1972-74 o atual ISEG e o IST, em Lisboa, estavam constantemente fechados e a taxa de reprovações era alta. As associações estudantis eram encerradas, consideradas ilegais e “propícias à conspiração”. Em 1973, a propósito da atuação de um coro racista no Porto foram presos mais de 300 alunos, inclusive os que só tinham ido às aulas. “O regime agia de forma contraproducente, gerando ainda mais oposição”.

José Lopes Cordeiro
“A guerra colonial era muito impopular. Cada família tinha (in)diretamente alguém a combater. Metade do Orçamento financiava a guerra e o salazarismo exigia as colónias, ‘do Minho a Timor’. Era, sobretudo, uma guerra sem sentido. Portugal foi o último país europeu a descolonizar, o nosso embaixador Rui Patrício ia falar à ONU e a sala esvaziava-se”, diz o investigador do CITCEM.

Os universitários reivindicavam ainda melhores condições de ensino. Havia atuação arbitrária na avaliação de conhecimentos, desatualização pedagógica e científica, salas sobrelotadas, ausência de equipamentos laboratoriais e de bibliografia, apoio social insuficiente nas residências, cantinas e bolsas. “Os universitários triplicaram entre os anos 50 e 70 e as organizações estudantis tiveram uma forte adesão e popularidade do povo, dificultando Marcelo Caetano, que procurou isolá-las da opinião pública, recorrendo muito à TV e à imprensa do regime para confundir o povo”, explica Lopes Cordeiro. O historiador admite que a geração estudantil mais radicalizada e politizada da História de Portugal terá provavelmente sido a que viveu no final do Estado Novo: “Era muito informada, discutia imenso sobre política, era extremamente ativa e as suas iniciativas tinham acolhimento na grande massa estudantil”. A entrada no ensino superior era “um curso acelerado de formação política”, com a imprensa clandestina deixada na carteira da aula, nas instalações dos WC ou no canto do corredor.

[Foto: Universidade do Minho]

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