Até que o facebook nos separe

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Ler para Crer - Facebook

Criar um perfil no facebook leva menos de cinco minutos. Escrever um comentário no mural de alguém demora menos de um minuto. Clicar no “gosto” da ligação de um dos teus amigos faz-se em poucos segundos. No entanto, há comportamentos virtuais que podem literalmente destruir relações reais com vários anos de existência se não se fizer uma utilização desta rede social com conta, peso e medida.

Sofia Cardoso (nome fictício pedido pela aluna de ensino superior cujo relato se segue) namorava com um rapaz desde os tempos do secundário. “Era uma espécie de príncipe: oferecia-me flores, chocolates, ríamos de coisas parvas, estudávamos juntos para os testes, os meus pais já imaginavam o casamento perfeito, pois ele ia muitas vezes lá para casa e era quase da família. Depois vieram os resultados da entrada no ensino superior e quis o destino que fôssemos para universidades diferentes”, disse Sofia à Mais Superior. Os primeiros meses de separação correram bem, porque ambos estavam deslumbrados com as tradições académicas, a receção ao caloiro, as novas amizades e os companheiros de casa conhecidos de fresco… Mas com a chegada dos primeiros trabalhos de grupo e exames, as visitas de fim de semana de Sofia começaram a espaçar-se mais, o que despoletou comportamentos estranhos no namorado. “Ele ligava-me durante as aulas, deixava-me comentários de hora a hora no facebook, faltava às aulas para vir ter comigo e eu comecei a pôr-lhe uma espécie de travão, porque embora na altura achasse que ele era o homem da minha vida, tinha um curso para tirar e ele não me dava espaço para isso nem queria compreender que íamos ter de fazer sacrifícios para estar menos vezes juntos”. O pior foi quando Sofia soube que o namorado lhe tinha descoberto a password do facebook, lia a correspondência privada, investigava as amizades e tinha ainda inventado um perfil falso para tentar seduzi-la via internet – utilizando o mesmo perfil para falar com as amigas de curso durante a madrugada. “Nem quis acreditar, no início cheguei a pensar que estava a imaginar coisas ou que podiam ser as minhas amigas a inventar… Mas quando caí em mim estava a ser perseguida por uma pessoa doente pelo facebook que não era de todo a pessoa que eu achava que conhecia”. Atualmente e três anos depois do pesadelo virtual que passou, Sofia tem outro namorado, tem outro perfil de facebook e garante que as coisas correm lindamente, porque ambos se respeitam mutuamente e não entram em jogos de intrigas virtuais. “Preferimos dar importância a coisas que realmente importam, como estar juntos sempre que podemos”, diz.

O que dizem os estudos sobre o amor em tempos de internet?

Em 2009, um estudo do Departamento de Psicologia da Universidade de Guelph (Canadá), que envolveu 308 estudantes universitários com idades compreendidas entre os 17 e 24 anos, revelou que o facebook pode ser um “veneno” para as relações entre namorados e casais, criando ciúme e aumentando as tensões entre os participantes. Segundo as autoras do estudo, duas estudantes de doutoramento, o facebook pode provocar situações graves de ciúmes com o seu fluxo contínuo de informação sobre o que cada participante faz, de quem é amigo e em que fotos aparece. Efe Amy Muise, uma das autoras do estudo, garantiu mesmo que “O facebook permite o acesso a informação a que de outra forma não acederíamos e carece muitas vezes de contexto”, fornecendo involuntariamente “detonadores de ciúmes” aos seus utilizadores comprometidos, já que um comentário banal sobre o perfil do seu parceiro feita por um contacto do sexo oposto pode levar um participante à suspeita e a acompanhar de perto a sua página do facebook apenas para encontrar mais informações, fazendo com que se sinta ainda mais desconfiado e ciumento.
Já no Brasil, uma pesquisa feita em seis capitais (São Paulo, Rio de Janeiro, Curitiba, Porto Alegre, Salvador e Recife) mostrou como as redes sociais interferem nos relacionamentos amorosos, sendo cada vez maior o número de brasileiros que procuram parceiros nas redes sociais. Dos 600 inquiridos que participaram no inquérito em 2010, 60% admitiram que usam o computador para conquistar alguém; 62% vigiam constantemente a página do parceiro nas redes sociais e 67% admitiram que visitam o perfil do ex-namorado com frequência para verificar se este já refez a vida e se encontra feliz. Há ainda 35% dos entrevistados que se “vingam” do fim do relacionamento procurando na internet um novo parceiro, enquanto 26% fazem declarações nas redes sociais para todo mundo ver. Uma pesquisa levada a cabo em 2010 pela American Academy of Matrimonial Lawyers chegou ainda à conclusão de que tinham aumentado os casos de divórcios devido à intervenção das redes sociais entre os casais, com o facebook à cabeça.

“Não precisamos de escancarar a nossa vida íntima”

À rede social que conta com mais de um milhão de utilizadores em Portugal e com quase 500 milhões no mundo inteiro a psicóloga clínica Cláudia Morais dedica o seu mais recente livro, “O amor e o facebook”. A trabalhar há 11 anos na área da terapia familiar, esta profissional aproveitou a experiência dos casos que lhe iam aparecendo ultimamente no consultório e decidiu apresentar a sua visão sobre o tema. “Começaram a surgir algumas queixas, sobretudo sobre o tempo, não apenas passado em frente ao computador, mas especificamente no facebook. Naturalmente surgem depois os ciúmes, a insegurança, os contactos com terceiros, nomeadamente com desconhecidos ou desconhecidas, o reatar laços com paixões antigas…”. À pergunta sobre quando se geram equívocos virtuais em torno de uma foto ou de um comentário colocado no mural de outra pessoa se isso pode interferir ou mesmo acabar com uma relação real, Cláudia Morais disse à Mais Superior que “numa relação saudável em que comunicação flua convenientemente, mesmo que haja estes equívocos, de um modo geral, tudo se resolve, porque o casal não espera o pior um do outro. Quando a relação não está tão saudável, ficamos inseguros e, muitas vezes, caímos no erro de esperar o pior do outro e então o que é que acontece? Basta um tal equívoco para que assumamos que o outro está a errar seriamente connosco e a partir daqui dá-se o chamado efeito bola de neve”.

Para que se dê uma utilização saudável do facebook sem cair em comportamentos obsessivos de tentar controlar os amigos que a outra pessoa adiciona ou de ver a que horas ela está online, por exemplo, a psicóloga acredita que “todos precisamos de nos sentir seguros e não precisamos de escancarar a nossa vida íntima sempre todos os dias ao nosso parceiro, o que precisamos é de fomentar a nossa confiança através da transparência e através da honestidade e da clareza, ou seja, através da assertividade, permitindo que a pessoa que está connosco se sinta efetivamente segura – questões como exigir a password do outro, exigir que o outro mostre todos os dias aquilo que anda a fazer no facebook no horário de trabalho não fará muito sentido, até porque isso fomentará talvez não a insegurança no sentido da fidelidade, mas a falta de confiança”.

Utilizadores com “comportamento à detetive”

É muito fácil para uma pessoa comum cair em erros muito sérios, refere Cláudia. “Quando a insegurança começa a crescer e a pessoa que está ao nosso lado não vem ao encontro das nossas necessidades, infelizmente cada um de nós pode assumir aquilo a que eu chamo de “comportamentos à detetive”. Aqui é muito fácil entrar-se no tal circuito obsessivo compulsivo, nomeadamente algumas pessoas com quem eu já tenho trabalhado assumem até a vergonha e o embaraço. Existem até pessoas que passaram por isso e me procuram até depois da relação ter ido por água abaixo, assumindo que a sua autoestima saiu fragilizada ou seja, que há que trabalhar questões individuais porque temem poder não voltar a confiar noutra pessoa”. Todas as mudanças que se prolonguem no tempo e que comprometam o bem-estar da relação devem ter uma espécie de time out, uma paragem para pensar naquilo que está a acontece, continua Cláudia Morais. “as pessoas de repente descobrem ali um incrível mundo novo, porque estão perante uma plataforma que lhes permite reatar laços com pessoas que não viam há 20, 30 ou 40 anos – muitas vezes em continentes diferentes. É de facto muito interessante, muito entusiasmante podermos reatar esses lados, ainda que isso roube tempo às pessoas que supostamente mais amamos e pode acontecer que durante um período limitado sintamos que a nossa relação não está segura, porque o nosso companheiro de repente está deslumbrado com o facebook. A tendência que se espera é que as coisas se normalizem. Se, pelo contrário, nos queixamos do tempo que o nosso companheiro passa no facebook e não vemos as nossas chamadas de atenção atendidas – esses apelos são ignorados ou até são respondidos com alguma agressividade, então importa com serenidade, mas sobretudo com assertividade e com firmeza, reivindicar ali mudanças sérias, sob pena de aquilo ser efetivamente o princípio do fim”, explica a psicóloga sugerindo que o mais provável é que estes casos precisem de acompanhamento de um profissional, pois o mais provável é que estejamos perante o “início do fim” de mais uma relação.

“O amor e o facebook”

Capa do livro "O Amor e o facebook", de Cláudia Morais.Com mais de um milhão de utilizadores em Portugal e quase 500 milhões no mundo, “o facebook é a plataforma que mais facilmente nos coloca em linha direta com ex-namorados, ex-amantes, ex-paixonetas e amigos de outros tempos e é naturalmente uma via que facilita a aproximação a pessoas que nos dizem alguma coisa do ponto de vista afetivo. Por vezes esta nostalgia é confundida com paixão, tornando-se uma ameaça quando há problemas numa relação, refere a psicóloga Cláudia Morais, autora do livro “O amor e o facebook” (ed. Oficina do livro, 2011). Ao fomentar a beleza, mascarando os defeitos de cada um, o facebook constitui uma ferramenta poderosíssima de aproximação entre pessoas que se sintam insatisfeitas nas suas relações, escreve igualmente a psicóloga, alertando a que, por outro lado, nem todas as pessoas aproveitam o facebook para encontrar parceiros românticos e “Diabolizar esta rede social implica olhar para o amor, como ligações que não se ajustam ao século XXI. E não é solução arredar-se desta rede. É um problema que tem de ser gerido com assertividade, confiança e respeito”.

“O amor e o facebook” é um livro que explora questões muito pertinentes sobre a utilização desta rede social, tais como: devemos ser amigos do nosso namorado no facebook? É importante definir o estado civil no nosso perfil para não dar azo a confusões? Devemos criar regras em relação aos convites de amizades e às páginas ou grupos a que aderimos? É saudável conviver com ex-namorados sem pensar que nada disso nos poderá afetar emocionalmente nem afetar a nossa atual relação? E estaremos preparados para lidar com tudo o que que vem à tona, quando o nosso parceiro volta a ligar-se também, ainda que virtualmente, a antigas paixões? Quais são as consequências de falarmos mal do nosso companheiro via facebook com os nossos amigos?

“As pessoas procuram é momentos picantes”

“Muitas vezes nem ligam a se a pessoa diz que é comprometida ou se aparece abraçada ao namorado na foto de perfil, o que muita gente procura em redes sociais como o facebook é conhecer pessoas e alimentar coisas mais picantes”, diz Alexandra Matos, aluna de Design Gráfico na Escola Superior de Artes e Design de Caldas da Rainha, que prefere encarar o facebbok como uma ferramenta de partilha de coisas interessantes, tais como músicas que não lhe saem da cabeça durante o dia.

“Demasiada exposição torna-se irritante”

Estudantes da Universidade LusófonaRoberto Nascimento, Bruno Rodrigues, Victor Vite e Sérgio Sen são todos alunos do Curso de Engenharia Civil da Universidade Lusófona e todos eles acham muito irritante receber consecutivas notificações sobre pormenores vindos da mesma pessoa. “Às vezes há pessoas que escondem a solidão e desatam a colocar fotos, links e atualizações de perfil no facebook sem parar e a convidar para jogos parvos… Uma pessoa não pára de receber alertas e isso acaba por chatear um bocado”, diz Roberto. Os colegas dão ainda exemplo de pessoas que colocam fotos “demasiado” românticas para mostrar a todo o mundo que têm namorado ou namorada – “coisa que é completamente desnecessária, porque ninguém quer saber”, acrescentam.

“Ela namora? Não sei… No facebook diz que é complicado”

Se há pessoa que não tem paciência para relatos amorosos desinteressantes transmitidos via redes sociais é a Rita Ferreira, aluna da Faculdade de Psicologia da Universidade de Lisboa. “Geralmente, e quando não me interessa nada do que vou lendo, passo à frente. Há informações completamente dispensáveis – eu não preciso de saber quem deixou de ser solteiro ou que está numa relação complicada, por exemplo”.

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