Ana, a mulher coragem

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Ana Maltez, autora do livro

A dor de perder um ser querido é horrível. Cruel. Indizível. Mas Ana Maltez, jornalista da SIC e autora do livro “Para ti, campeão!”, conseguiu expressar um bocadinho do luto que foi (e está a ser) ter ficado sem o namorado de sete anos através de palavras. Com as receitas dos direitos de autor do livro a reverterem para o IPO de Lisboa, Ana quer que “a coragem e a força do Rafa sejam tomadas como exemplo” e que “as pessoas compreendam que o amor, não vencendo o cancro, pode funcionar como uma verdadeira terapia para o suportar de forma mais tranquila”.

 Ana, é preciso ter muita coragem para conseguir escrever um livro assim. Quando decidiste que esta era uma lindíssima forma de homenagear o Rafael?

É preciso coragem sim. Muita. A escrita saiu torrencial mas confesso que há palavras que custam mais a escrever que outras. Há momentos que custam mais a recordar. Escrever esta homenagem foi reviver tudo, e isso custa. Comecei a escrever um dia depois do funeral, creio – se é que não foi no próprio dia do funeral à noite. Lidar com a perda é de uma dor inexplicável. E eu não estava a conseguir gerir-me. Não estava. Não que agora, quase quatro meses depois, seja diferente. Só que os dias 14 e 15 de outubro foram demasiado intensos, demasiado dolorosos. O receber a notícia, o velório, o funeral…são momentos que não esquecemos e que nos marcam profundamente, que nos deixam cicatrizes muito grandes no coração.

Comecei a escrever para o Rafa por necessidade. Porque sempre falámos muito. Porque, quando de repente não o tenho comigo em casa, parece que nada faz sentido. Comecei a escrever para ele e isso fez-me bem. Ajudou-me e ainda hoje me ajuda. Entretanto, em conversa com uma amiga, surgiu a ideia de contactar a Chiado Editora. A partir daí, foi tudo muito rápido e passei a encarar o livro como uma forma de homenagem ao Rafa, uma forma de perpetuar a memória dele e a memória do nosso amor. Ao mesmo tempo, achei, muito sinceramente, que o meu testemunho poderia, de alguma maneira, ajudar outros casais, outras famílias a lidar com o dia-a-dia duro do cancro. Quero que a coragem e a força do Rafa sejam tomadas como exemplo. Quero que as pessoas compreendam que o amor, não vencendo o cancro, pode funcionar como uma verdadeira terapia para o suportar de forma mais tranquila.

Esta foi uma forma de dar a volta à revolta de sentir que te roubaram uma pessoa muito querida?

Foi uma forma de dar a volta à revolta sim. De certa maneira. Mas foi mais do que isso. Foi também a minha forma – a que consegui encontrar – de começar a fazer o meu luto pelo Rafael. Não chega, claro que não chega. Mas escrever foi a minha maneira de “reagir”. Eu praticamente não falei durante uns dias. Não conseguia. As palavras não saíam. Os meus pais estavam realmente preocupados. Lembro-me do meu pai no funeral me abraçar e me dizer “Chora, filha. Grita, chora. Mas faz qualquer coisa, reage”. Nunca vou esquecer essas palavras do meu pai. Mas o que sentia, o que sinto, é mais do que revolta. Não encontro a palavra certa. Se calhar não há palavra que dê para descrever. É uma dor imensa. E repara, eu sempre tentei preparar-me. Mas, na verdade, é impossível. E hoje sei que é impossível. Por mais que tentemos.

Quando recebi a notícia, estava na SIC. Tinha acordado às cinco da manhã para ir trabalhar. Sentei-me no chão e só consegui levantar-me com ajuda. Deixei de sentir as pernas. Tremia por todo o lado e perdi o controlo sobre o meu corpo. É impressionante isto e, de facto, mostra que nunca estamos preparados.
Se dá para imaginar o que é viver com uma pessoa numa espécie de corrida contra o tempo? Não. Não dá mesmo. É assustador. A cada dia que passa, mais.

Campeão a todos os níveis, o Rafael é um exemplo de perseverança e uma lição de vida para muitas pessoas. Amar e conviver de perto com uma pessoa assim muda-nos a vida: há alguma frase ou situação durante esse tempo todo que te tivesse marcado mais do que muito e que muitas vezes recordes?

Muda-nos. Muito. Há muitos momentos, muitas frases que recordo. São muitas as lembranças que enchem os meus dias… Boas e menos boas. Há uma menos boa que me custa em particular – o dia em que o Rafa entrou em coma, o dia 6 de Outubro de 2011. Não me sai da cabeça o rosto dele naquele dia, a agonia que ele estava a sentir. Não me sai da cabeça. E eu sem poder fazer nada. Encostei os meus lábios aos dele para tentar que ele tivesse alguma reação, por mínima que fosse. Não teve, claro. E isso dói muito. Essa memória e as que se seguiram nunca serão apagadas, por mais que tente.
Mas claro que depois tenho mil e um momentos dos nossos (quase) sete anos de namoro. Recordo, por exemplo, o sorriso dele, as gargalhadas dele que me fazem sorrir e que me tranquilizam, que me permitem estar como estou hoje – serena. Não imaginas a quantidade de vezes que falamos dele lá em casa…eu estou sempre a falar dele. E sei que é isso que ele quer. Que se continue a falar dele. E ele continua a fazer-nos rir imenso a todos. Ele dava e dá um brilho especial à vida! Sinto-me uma privilegiada pelo facto de o Rafa me ter deixado caminhar sempre com ele… Até ao fim.
A força do Rafa deu-me força. A coragem dele transformou-me. Ao lado dele, sentia que tudo era possível. Ao lado dele, sentia esperança sempre. Sentia-me segura. Éramos um só no fundo. Hoje, tenho a minha estrelinha, sei disso. Mas custa muito quando de repente tens de assumir a tua vida “sozinha”. É uma adaptação dura que tens de ir fazendo… Devagarinho.

Ana Maltez com o namorado, Rafael.
"Recordo, por exemplo, o sorriso dele, as gargalhadas dele que me fazem sorrir e que me tranquilizam, que me permitem estar como estou hoje – serena."

O livro custa 12 euros e a verba referente aos direitos de autor reverte solidariamente para o IPO de Lisboa. Como está a ser a adesão das pessoas?

Os direitos de autor revertem para o departamento de Medicina/Neurologia onde o Rafa esteve internado, onde passou os seus últimos dias e onde foi sempre muito bem recebido. A equipa de enfermagem de C8 é excecional e os médicos são de uma bondade e compreensão que começam a ser raras. Doar os direitos de autor àquela ala em particular tem uma explicação muito simples – era o que o Rafa faria, sei disso, e é o que me faz mais sentido.

O feedback está a ser muito positivo. Estou muito surpreendida. Em menos de duas semanas, a 1ª edição esgotou! É muito bom sinal. Acredito que as pessoas se sintam bem porque sabem que, ao comprar, estão a contribuir para o IPO de Lisboa. Acredito mesmo. Há várias pessoas que me contactam, que me contam as suas histórias, que me dizem que, depois de ler, passaram a encarar um pouco melhor as suas próprias perdas. Os dois objetivos do livro estão a ser cumpridos e isso é muito gratificante.

De certeza que diversas pessoas já te elogiaram pela obra… Quais foram os feed backs mais marcantes que tiveste desde que lançaste o livro?

Foram muitas as pessoas que me contactaram até agora. Todos os testemunhos relacionados com a vivência do cancro são marcantes. Mas há uns que marcam mais que outros. Tenho o caso de uma leitora que me disse que tinha perdido a mãe em dezembro e que também se refugiava muito na escrita, tenho uma outra que me confessou que, depois de perder o pai para o cancro, e passados quatro anos, não consegue ser feliz…e que agora, com o livro, talvez consiga mudar a maneira dela de encarar a vida…e tudo isto me marca, obviamente. Ninguém consegue ser feliz por completo depois de perder alguém que ama. E não há tempos para nada. Eu não posso obrigar-me a sorrir quando não quero, quando não tenho vontade, mas faço sempre um esforço, porque penso que é assim que o Rafa me quer…bem e a sorrir! E pensar nisto ajuda-me a viver o dia-a-dia de uma forma tranquila, ajuda-me a estar em paz. E faço questão de responder às mensagens que me enviam, porque é muito bom ter este feedback.
Tenho também pessoas que me enviam textos lindíssimos. Outras há que elogiam a minha serenidade, a minha paz de espírito. Mal sabem elas que nem eu própria sei como se faz isto, como consigo estar assim. Não há uma fórmula. Quem me dera que houvesse uma fórmula, alguma coisa escrita por onde me pudesse guiar! Mas não há. O truque é seguir caminho, ao meu ritmo, sem acelerações nem travagens bruscas… É ir buscar oxigénio às recordações tão boas que guardo.

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