O que sabes sobre a Inquisição?

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Não te tortures mais e descobre tudo sobre um dos lados mais negros do nosso passado, através do livro “História Geral da Inquisição Portuguesa”, 1536-1821, de Giuseppe Marcocci e José Pedro Paiva e com edição da Esfera dos Livros.

Esta obra única e original permite perceber a história, a vida institucional e judiciária do Tribunal da Fé, a sua evolução, com os seus períodos de crise e de maior perseguição.
Sem nunca esquecer as histórias dos homens que formavam este órgão e as suas vítimas – cristãos-novos, feiticeiros, bruxas e outros hereges – que questionavam os dogmas ou a ordem social instituída e, por isso, sofreram duras perseguições e torturas, tendo muitos comparecido em autos da fé celebrados em praças públicas.

A Mais Superior esteve ainda à conversa com os autores e conta-te algumas das razões para não deixares de ler este livro. A tua cultura geral vai agradecer!

Em traços gerais, em que se distingue a Inquisição portuguesa das demais que existiram?

Apesar de ter existido uma Inquisição medieval, a portuguesa deve ser comparada com as que atuaram na época da sua existência (1536-1821) em Espanha e em Itália, como já tentou fazer, em 1994, o nosso colega Francisco Bethencourt. Do ponto de vista institucional, a Inquisição portuguesa teve menos tribunais (quatro entre o reino e o império) e menos agentes, mas operou num espaço geográfico muito maior, entre Europa, África, América e Ásia. No modo de proceder, ou ‘estilo’, como costumam dizer as fontes, não havia grandes diferenças, salvo alguns aspetos na vigilância dos presos e no uso das testemunhas. Contudo, na opinião dos seus contemporâneos, ela foi a mais violenta, como observava o francês Charles Dellon, processado em Goa nos finas do século XVII: “O rigor da Inquisição não é uniforme em todos os países onde ela existe, porque a Inquisição da Espanha é mais severa que a da Itália e menos que a de Portugal e suas possessões”.

De que forma é este livro uma boa aposta para quem procura saber mais sobre este tema?

Este livro é a primeira síntese geral da história de uma instituição que marcou em profundidade a história portuguesa. Aqui se encontrará uma informação rigorosa, baseada em pesquisa de arquivo e leitura dos estudos existentes. Numa linguagem clara e acessível, apresenta-se uma rica narrativa, repartindo a história da Inquisição em quatro grandes períodos e analisando o seu funcionamento institucional, os seus agentes, as principais vítimas e a expansão do raio de ação do Tribunal. São referidos os maiores protagonistas e descritas as lógicas de processos e autos da fé. Esta leitura de conjunto é completada por uma cuidadosa cronologia e a bibliografia mais completa que haja sobre a Inquisição em Portugal e no império.

Como ajudam a ver e a compreender a História atual épocas desta natureza mais negras, como o período inquisitório?

É sempre perigoso estabelecer ligações entre o presente e o passado, porque o historiador pode sempre cair no seu erro imperdoável: o anacronismo. Procurámos atentamente evitar isto no nosso livro, deixando claro, contudo, a nossa posição de firme condenação de um tribunal como a Inquisição. Tudo isto não significa que não haja elementos da História que ajudem a compreender o presente, desde o problema do conformismo e do espírito de remissão que ainda se encontra vivo nas democracias de países com um passado inquisitorial, até a questões mais gerais como a discriminação das minorias e as atitudes racistas, o uso da tortura ou das execuções capitais, que ainda se praticam em muitas partes do mundo de hoje. Sem dúvida, o estudo do passado permite ver mais as diferenças do que as continuidades, mas cria também um olhar sensível para entender alguns caminhos possíveis da nossa época. Conhecer a história da Inquisição que atuou no seu país pode tornar, sem dúvida, o leitor português um cidadão mais tolerante e consciente.

Sinopse do livro
Em 1536 começava a funcionar, em Évora, onde a corte residia, a Inquisição. O seu objetivo principal era defender a fé e a Igreja. A bula papal da fundação explicitava a natureza dos crimes sob a sua alçada. Apelava-se a todos que denunciassem qualquer pessoa suspeita de ter aderido às crenças luteranas, observado cerimónias e costumes judaicos ou islâmicos, negado a existência da vida eterna, acreditado na transmigração das almas até ao dia do Juízo, contestado a virgindade de Nossa Senhora ou que Cristo fosse o Messias prometido no Antigo Testamento, praticado a bigamia, bruxaria ou feitiçaria, possuído livros para celebrar sabats noturnos ou outros defesos pela Igreja, incluindo bíblias escritas em línguas vernáculas. Iniciava-se uma perseguição que levou milhares de vítimas, homens e mulheres, que pelas suas ideias e comportamentos foram presos, acusadas e, no limite, mortas nas fogueiras por condenação do Santo Ofício.
Nascia, deste modo, no coração do Renascimento, a Inquisição, que marcou de forma vincada a História de Portugal e do seu império durante 285 anos. A sua influência continua-se a sentir ainda hoje, em certas dimensões da vida institucional e até nos costumes e modos de ser e pensar.
Numa pesquisa rigorosa e baseada em consulta exaustiva de arquivos e documentação, Giuseppe Marcocci e José Pedro Paiva apresentam a primeira história da Inquisição portuguesa, desde a sua fundação à extinção, em 1821.

Sobre os autores:
José Pedro Paiva é professor na Universidade de Coimbra, investigador no Centro de História da Sociedade e da Cultura e no Centro de Estudos de História Religiosa. A sua área de pesquisa central é a história religiosa e cultural em Portugal, séculos XVI-XVIII. Entre outros livros é autor de Bruxaria e superstição num país sem “caça às bruxas”(Lisboa, 1997), Os bispos de Portugal e do império (1495-1777) (Coimbra, 2006), Baluartes da fé e da disciplina.

Giuseppe Marcocci é professor de História Moderna na Università degli Studi della Tuscia, em Viterbo (Itália) e coordenador do projeto de investigação Beyond the Holly War, na Scuola Normale Superior, em Pisa (Itália) . A sua área de pesquisa central é a história política, cultural e religiosa do mundo ibérico, com especial atenção sobre o caso português entre os séculos XV e XVIII. Entre outros estudos, é autor de A consciência de um império: Portugal e o seu mundo, sécs. XV a XVII (Coimbra 2012).

[Foto: Esfera dos Livros]

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