Com porquinho ou sem ele…

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O importante é saber como poupar para viver ainda melhor. As dicas para uma lista de compras mais económica, algumas receitas apologistas do barato, alternativas para tempos livres grátis, sites amigos dos descontos…

e outras questões práticas do dia-a-dia capazes de fazer durar as moedas na carteira estão todas no livro “1 ano a encher o mealheiro”, das autoras Fátima Caetano e Rita rebelo, com quem estivemos à conversa.

A poupança é um assunto a que estamos condenados em tempos de Troika… Foi por isso que surgiu este livro?

Fátima Caetano (FC): Infelizmente é… A poupança é um assunto a que estamos condenados em tempos de Troika mesmo. A poupança possível e para quem o conseguir fazer, pois temos de ter em conta que há milhares de pessoas que não têm sequer rendimentos para fazer face às suas despesas e essas já não conseguem sobreviver quanto mais poupar. A realidade é esta infelizmente. Mas para outras pessoas, a poupança é um assunto para o qual apenas agora acordaram… E agora porque é uma altura em que vivemos afundados na austeridade. Não deveria ser assim. Todos devíamos ter hábitos de poupança desde sempre. Mas nas últimas décadas foram-se perdendo esses hábitos. Todos achávamos e tínhamos a expetativa de que a vida ia melhorar e a crise que vivemos veio acabar com essa expetativa. A ideia deste livro surgiu obviamente da necessidade de poupar e surgiu precisamente no meio de um conversa de amigas em que cada uma de nós falava na necessidade de fazer alguns ajustes para viver da melhor forma possível nos tempos que ai vinham. Se já no final do ano passado sentíamos a crise e os efeitos das medidas de austeridade, este ano tudo se agravou ainda mais. Os salários diminuíram com os cortes nos ordenados, a subida das taxas de IRS e a sobretaxa de IRS e, por outro lado, as despesas mantém-se… Podemos dizer, por isso, que este livro surgiu de uma forma natural e para o escrever inspiramo-nos em histórias de pessoas que entrevistamos ao longo dos anos e que viveram de uma forma poupada, mas acima de tudo de uma forma regrada. Depois, também fizemos a nossa pesquisa e o resultado foi este livro com conselhos, dicas e sugestões para diminuir os gastos e viver de uma forma menos dispendiosa mas sem comprometer a qualidade de vida.

Rita Rebelo (RR): Já que a crise é o ‘bicho papão’ da atualidade e que não há como fugir dela, então que saibamos viver com a melhor qualidade possível, apesar dos cortes a que não conseguimos escapar no orçamento pessoal.
A crise toca-nos a todos, diretamente e de forma prática, com consequências na nossa vida, na nossa rotina. Não é um tema a que consigamos fugir e é normal que se fale de poupança. A poupança pode ser a chave para conseguirmos ‘trocar as voltas’ às restrições a que estamos sujeitos. Quer vivamos com um orçamento que chega à risca para pagar as despesas mensais, quer tenhamos até com uma pequena folga em termos de orçamento, só temos a ganhar se ganharmos hábitos de poupança.
A ideia deste livro não é dizer “vamos deixar de consumir, de fazer aquilo de que gostamos, fechar-nos em casa e poupar em tudo e mais alguma coisa”. A ideia é partilhar histórias, experiências e conselhos sobre poupança… Pequenos gestos diários que podem ser incutidos na rotina, adaptados à nossa realidade, de forma a que não fique comprometida a qualidade de vida. Gestos que se traduzam, no final do mês, em poupança. No fundo, ideias que nos permitam ‘ir enchendo o mealheiro’. Depois, cada um fará aquilo que bem entender com esse dinheiro posto de lado, seja um pé-de-meia para uma eventualidade ou umas pequenas férias.

Fatima 2
A autora Fátima Caetano.

Em que é que este livro é diferente dos outros sobre o mesmo tema?

FC: Este livro não é um manual de Economia. Não é um livro dado a teorias. É um livro inspirado em casos reais, de pessoas que entrevistámos ao longo da nossa vida profissional. Nisso reside a grande diferença. Nós somos jornalistas, não somos economistas e depois também vimos as nossas vidas afetadas com a carga fiscal, a diminuição dos rendimentos e também nos tivemos de adaptar. Por isso, pensamos que este acaba por ser um manual prático e não um livro teórico. Tudo o que está neste livro é real, é prático e já funcionou nas vidas de algumas pessoas que conseguiram poupar. E é nesses casos que o leitor pode inspirar-se. Pode beber alguns ensinamentos nessas histórias, nesses exemplos e, adaptar algumas dicas e conselhos à sua realidade económica e familiar. Talvez assim, se o leitor se identificar com alguns desses casos, aceite o desafio de tentar poupar um pouco. Eu desde que trabalhei neste projeto adotei o truque de colocar moedas de 50 cêntimos no mealheiro. Há dias fui ver a quantia que já lá tinha e tive uma agradável surpresa… Este é um pequeno exemplo. Depois também tivemos o cuidado de dividir este livro por estações do ano, na medida em que em determinadas alturas os gastos são maiores, porque é sabido que isso acontece. Por exemplo, em setembro é a altura do regresso às aulas e isso acarreta inúmeros gastos em livros e material escolar. Neste livro lembramo-nos de contemplar algumas ideias para reduzir ou minimizar esses gastos – quer seja através da troca de manuais ou da compra de livros em segunda mão em inúmeros sites, etc… São algumas formas de aliviar um pouco os orçamentos das famílias. Depois há outros gastos que os estudantes também têm, tais como as refeições, e muitos jovens também já estão a aderir à marmita – o que reduz os gastos em alimentação. Este livro contém uma série de conselhos/ideias destinadas aos jovens estudantes que têm orçamentos muito reduzidos e que têm de viver com pouco dinheiro e com ele comer, pagar transportes e, muitas vezes, alojamentos. Isto tudo numa altura em que muitos têm os pais a viver situações difíceis. Infelizmente, as bolsas diminuíram, muitas foram até canceladas por causa de dívidas dos pais à Segurança Social, o que é dramático e muitos jovens estão mesmo a abandonar o ensino, porque não têm como fazer face às despesas e continuar a estudar. Isso é dramático. Por isso, tudo o que possam reduzir é uma grande ajuda. E se daqui conseguirem tirar algumas ideias para diminuir gastos… É bom.

RR: Tal como disse a Fátima, a forma como o livro está estruturado foi pensada para que possa tornar mais fácil a sua leitura e consulta. Estando num determinado mês, podemos ir diretamente à estação do ano tirar ideias sobre as áreas em que podemos poupar e ainda ficar mais alerta sobre os eventos ou situações que geralmente naquela altura do ano acarretam mais despesas. Organizámos os tópicos por estações porque antecipar e organizar também é poupar. Pela mesma razão, decidimos incluir no final do livro listas e tabelas prontas para serem destacadas ou fotocopiadas com o intuito de tornar mais económicas as idas ao supermercado, as compras para o ano escolar das crianças, etc.
Por outro lado, as áreas contempladas no livro são muito abrangentes e dizem respeito a qualquer pessoa, independentemente da sua idade, sexo ou nível social e económico. Qualquer um pode retirar dali ideias para colocar em prática na sua própria vida, adaptando-as facilmente à sua realidade.
Além disso, não se trata de estudos realizados ou de opiniões de especialistas. O que o livro contém são experiências e histórias reais, que efetivamente resultam.

O vosso livro está dividido por estações do ano: há alguma delas em que seja mais difícil de poupar?

FC: Em todas as épocas do ano temos gastos maiores em determinados bens, serviços… Isso é uma realidade. Mas penso que aquela em que é mais complicado poupar é de facto no outono e também no inverno. São épocas em que os gastos com a energia, como a eletricidade e aquecimento disparam. Depois é também a época do Natal, em que todas as pessoas gostam de viver um pouco a quadra e dar uma lembrança àqueles que amam… A divisão deste livro em épocas do ano faz sentido porque assim torna-se mais prático consultá-lo, mediante a época do ano em que nos encontramos. Pensamos que foi uma ideia feliz…

RR: Temos tido um feedback positivo relativamente à divisão do livro em estações. O livro saiu em janeiro, em pleno inverno, uma altura do ano em que as contas da casa invariavelmente sobem… Mas com pequenas dicas é possível evitar surpresas desagradáveis na altura da receção das contas. É importante prevenir, para evitar que depois tenhamos de nos queixar.
Mas é essencial também lembrar que toda a família deve ser envolvida na mudança de comportamentos. Não faz sentido que apenas uma pessoa no seio de uma família com quatro elementos altere pequenos gestos com vista à poupança. No livro existem inclusivamente vários subtemas dedicados às crianças. É importante e até interessante que os mais pequenos sejam, desde cedo, envolvidos e sensibilizados para estas questões. E é engraçado deixar-nos surpreender pela sua compreensão e capacidade de adaptação.

Rita
A autora Rira Rebelo.

Podem exemplificar algumas dicas para estudantes universitários muito úteis no dia-a-dia?

FC: Os estudantes universitários, como já referi anteriormente, têm uma ‘vida’ complicada. Por um lado, nessa faixa etária, os jovens já gostam de ter alguma independência financeira… Mas infelizmente com o desemprego entre os jovens aos níveis que temos, arranjar um part-time e conciliar o trabalho com os estudos é tarefa quase impossível. Por outro lado, há muitos jovens que querem continuar a estudar e não gostam nem querem ver os pais a viver inúmeros sacrifícios para que tal seja possível… É uma situação dramática a que vivemos, de facto… Neste “1 ano a encher o mealheiro”, lembramo-nos obviamente de contemplar dicas destinadas a esta camada da população. Há algumas ideias de como tentar encontra formas alternativas de adquirir os livros, ideias de refeições e até encontrar alojamento… No fundo, neste livro, procuramos contemplar algumas dicas para tentar facilitar um pouco as vidas e os ‘bolsos’ pouco cheios dos jovens.
E depois há que ter em conta que, por vezes, o mais barato pode sair caro. Por exemplo, imaginemos que uma pessoa vem de fora de Lisboa e quer arrendar um quarto. Ao preço a que estão os passes sociais se calhar é mais rentável arrendar um quarto na cidade, em Lisboa, mesmo que mais caro, do que ir para a periferia – por ser mais barato – mas ainda ter de pagar o passe social. Dependendo da zona e da quantidade de transportes a apanhar, o passe social pode facilmente ultrapassar 100 euros/mês. Por isso é preciso que cada um faça as contas e veja bem se vale a pena poupar numa coisa que implica mais um gasto noutra. No caso das refeições, é certo que as cantinas universitárias são baratas. Mas não valerá mais a pena apostar em levar comida de casa??? E as festas e jantares? Todos os estudantes gostam – e devem – divertir-se. Mas se jantarem em casa e forem sair depois gastam menos dinheiro. Por isso, há que procurar formas de viver bem, mas de uma forma menos dispendiosa. E uma coisa é certa e sabida: se desde cedo aprenderam algumas regras tão simples como fazer um orçamento e gerir o dinheiro de uma forma inteligente e eficaz esses ensinamentos ficam para a vida…
Depois, para muitos jovens que estão deslocados de casa e que estão pela primeira vez a viver sozinhos e a gerir a sua vida e casa, neste livro encontram dicas que os podem ajudar a poupar em tudo o que uma casa implica, desde a eletricidade, a água e até mesmo como fazer as compras de uma forma mais eficaz. Como muitos jovens universitários passam a estar por sua conta e risco pela primeira vez e passam a gerir a sua casa, este livro contem inúmeras dicas para o tentarem fazer da forma mais eficiente. No fundo, este é um manual prático de ideias de poupança – com um preço acessível em conformidade com a temática que pode dar ideias para cada um gerir a sua vida financeira da melhor forma. É já agora gostaríamos também de deixar um desafio. Nós temos um e-mail para o qual podem escrever e partilhar algumas ideias e dicas de poupança… Espero que aceitem este desafio. É umanoaencheromealheiro@gmail.com

RR: Se muitas pessoas das gerações mais antigas têm hábitos de poupança que transportaram consigo desde sempre, o mesmo não acontece de uma forma geral com a juventude. É importante ouvir e consultar as mães e as avós sobre limpezas domésticas ou formas de aproveitar restos de comida.
Além disso, hoje, felizmente, já não é uma vergonha admitir-se que se contam os tostões. Falamos abertamente sobre poupança sem que à volta nos ponham o rótulo de ‘forretas’. Poupar é não só necessário como aconselhável e até inteligente. Então, aconselhamos os estudantes universitários a partilharem com os colegas ou companheiros de casa estratégias de poupança. Estas estratégias vão além das despesas com a casa e a universidade. Podem estar relacionadas com programas culturais gratuitos, locais para praticar exercício físico a custo zero, etc. Falem e descubram como reduzir as despesas inevitáveis e ‘viver’ bons momentos fora da universidade sem gastar um tostão.
Deixamos ainda a todos o conselho de procurarem sempre em tudo um lado positivo. E a malfadada crise tem aspetos muito positivos. Dou alguns exemplos: estamos a ganhar alguns hábitos de poupança que levaremos para o resto da vida; graças ao facto de se sair menos à noite, acabamos por conviver mais dentro de casa e passar mais tempo de qualidade com a família e os amigos; o levarmos o almoço para a universidade ou o trabalho faz com que tenhamos uma alimentação mais saudável e equilibrada, já que controlamos a quantidade e qualidade daquilo que comemos. O desafio lançado pelo livro é “1 ano a encher o mealheiro”. Experimentem.

“1 ano a encher o mealheiro”
Fátima Caetano e Rita Rebelo
Edição: 2013
Páginas: 204
Editor: Matéria-Prima Edições
PVP: 14,80 euros

[Foto: Matéria-Prima Edições]

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