Espelho meu… Há alguém com mais medo da velhice do que eu?

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Ser jovem é estar no máximo das capacidades físicas, intelectuais e de beleza. Mas com o passar do tempo, as primeiras rugas, gorduras, peles descaídas e cabelos brancos vão recordando a todo os mortais que o fim fica cada vez mais próximo.

O único alento é que não há ainda dinheiro nem fórmula mágica capaz de eternizar a nossa existência. Mas a busca e as artimanhas para aprazar o fim, essas, continuam ao longo dos séculos e desde o início dos tempos.

Conta a Bíblia que Adão viveu 930 anos. Os registos dão conta de que a francesa Jeanne-Louise Calment foi a pessoa que viveu mais tempo, até aos 122 anos. A japonesa Kama Chinen é, atualmente, a pessoa mais velha do mundo, com 114 anos. Nós por cá, sabemos que, aos 104 anos de idade, Manoel de Oliveira continua a ter ideias e genica para realizar filmes, numa altura em que os seus contemporâneos morreram há muito… Mas a pergunta que se impõe é: por que é que não vivemos mais tempo? Em 2009, três investigadores americanos ganharam o Prémio Nobel de Medicina por terem começado a entender precisamente por que é que as células humanas envelhecem. Na altura da entrega do prémio, a Fundação Nobel explicou que “o processo de envelhecimento é complexo e depende de vários fatores e os telómeros são um deles”. Os telómeros são fragmentos localizados na ponta dos nossos cromossomas, que servem de proteção. Quando as células se dividem, os telómeros diminuem e as células começam a deteriorar-se… É este processo repetido inúmeras vezes que faz o ser humano envelhecer. Contudo, os vencedores do Nobel concluíram, ainda nos anos 80, que nas células cancerígenas existia uma enzima capaz estimular o fortalecimento do telómero, chamada telomerase. Os cientistas acreditam que a telomerase poderia prolongar a nossa vida, pois deixaria as células saudáveis por mais tempo. O Centro Nacional de Pesquisas Oncológicas de Espanha testou essa hipótese com ratos e a conclusão final foi que os ratos com mais telomerase nas células viveram até 50% mais tempo, efetivamente, mas acabavam por morrer com cancro…

No entanto, sabias que nos próximos 10 anos o mundo terá muitos mais idosos do que crianças? Calcula-se ainda que teremos 1,3 mil milhões de pessoas com mais de 65 anos (eram 506 milhões em 2008) e que a população de centenários deverá chegar aos 2,2 milhões em 2050, quando eram apenas 145 mil em 1999. Mas o sonho não é apenas viver mais. É permanecer com um corpo belo e jovem, tal e qual o sonho de Dorian Gray, o protagonista da novela de Oscar Wilde.

Os milagres não existem… Mas vendem-se
Dos cremes milagrosos capazes de tornar idosas em adolescentes de 15 anos com pele de pêssego, passando pelas cápsulas regenerativas, os implantes capilares, as dietas para um emagrecimento rápido, as operações plásticas e a própria maquilhagem que disfarça os primeiros sinais de envelhecimento, poucas dúvidas restam de que é a um corpo perfeito e para sempre jovem que prestamos o principal culto. Depois do botox e das lipoaspirações, está muito em voga hoje é o conceito de lipoescultura – uma palavra que, artisticamente, transforma a perda de gordura (por vezes em limites próximos da anorexia e bulimia) numa coisa artística… Quando no tempo de Rubens, a verdadeira Arte era pintar mulheres gordas, bem corpulentas e munidas de banhas.

Por conseguinte, um peito diferente do que aparece na capa da revista ou um nariz que não é igual ao da atriz que ganhou um Óscar por ser motivo suficiente para uma jovem viver infeliz, cair em depressão nervosa ou ser vítima de bullying, acreditando que os seus traços naturais são feios e merecem um bisturi. Para Ana Carvalheira, docente do ISPA – Instituto Universitário, “é bem verdade que atualmente se verifica uma enorme pressão social para manter determinados padrões de beleza. Socialmente, são valorizados os corpos muito magros e tonificados e toda esta pressão pode levar a que as pessoas, sobretudo as mulheres se sintam abaixo desses padrões de beleza e, por conseguinte, sentirem-se frustradas e diminuídas”. A professora de Psicologia salienta que “é fundamental reconhecer que não podemos ficar à mercê dessas pressões. Devemos sim cuidar do nosso corpo para nos sentirmos bem, mas sem querer alcançar determinados padrões impostos do exterior” e deixa a seguinte mensagem para todos os que alguma vez já se sentiram feios e velhos: “tu não és aquilo que os outros pensam de ti. Tu és bem mais importante e valioso do que aquilo que os outros pensam de ti”.

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Marta Chaves acredita que “a autoestima não pode centrar-se exclusivamente na imagem corporal”.

Já Marta Chaves, psicóloga clínica e psicoterapeuta, sublinha que “a publicidade e os media são os principais agentes de influência, através da exibição dos padrões de aparência física desejáveis, e também dos meios/fórmulas para alcançá-los”. No entanto, a profissional alerta: “naturalmente, para a construção da identidade, não basta um corpo que se deseja perfeito. A autoestima não pode centrar-se exclusivamente na imagem corporal. Os jovens que não se identificam com estes estereótipos podem, por um lado, sentir-se excluídos por não corresponderem ao que é considerado socialmente desejável, ou podem também cultivar outro tipo de atributos e identificações, construindo uma imagem que será considerada alternativa à vigente, sem que a sua autoestima fique necessariamente comprometida”. E como distinguir um comportamento normal de um comportamento compulsivo? Marta Chaves responde: “quando as pessoas fazem opções para atingir certos objetivos, colocando em causa outras dimensões do seu bem-estar, é evidente que o seu equilíbrio pode estar comprometido. Os psicólogos e psiquiatras estão preparados para lidar com estas situações, no sentido de avaliar as motivações e necessidades específicas a estes casos”.
Por conseguinte, presta atenção e não te deixes ludibriar por nenhuma tendência ‘Maria vai com as outras’ relativas à beleza desmedida, apela ainda a psicoterapeuta Marta Chaves: “é certo que, cada vez mais, a beleza está associada a estatuto e sucesso, mas sabemos bem que estes não se reduzem a esse atributo. Muitas outras caraterísticas, concorrem para a nossa autoestima, daí que quem sinta que não corresponde ao que perceciona ou que é ditado como ideal, deverá explorar outras formas de alcançar o bem-estar pessoal. A realização pessoal, envolve tantas dimensões, quantas as que o indivíduo quiser explorar, e que inequivocamente, ultrapassam o ser ou não bonito”.

[Foto: Alaskan Dude @ Flickr e Cedida pela entrevistada]

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