A emancipação do automóvel

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Mais de 100 anos após o seu surgimento, enquanto nós seres humanos comemoramos o Dia da Mãe, os automóveis comemoram a sua emancipação. Dependem cada vez menos de nós, tal como nós dependemos cada vez menos das nossas mães. É lei da vida aplicada às quatro rodas.

Num mês em que se celebra a figura materna, nós aqui pelo RazãoAutomóvel assistimos à emancipação do automóvel. Depois de tantas décadas a cuidar deles, é vê-los precisar cada vez menos de nós, em todos os campos.
Estabelecemos um paralelismo entre a vida humana e a evolução de automóvel. As semelhanças são impressionantes…

Fase bebé
Tal como os bebés, os primeiros automóveis eram inúteis. Pouco mais faziam para além de avariarem, darem trabalho e dores de cabeça. Exatamente como os bebés, que só comem e choram… Utilidade de ambos? Nenhuma. Em comum, tiveram a sorte da humanidade continuar a apostar neles, até porque tal como as nossas mães, também a humanidade teve esperança de que um dia o cenário ia mudar. Os bebés crescem e tornam-se homens e os carros cresceram e tornaram-se úteis.

Fase infância
Depois da fase natal, vem a infância. E tal como nos seres humanos, nos carros esta fase manifestou-se da mesma forma. Por volta de 1910, já podíamos sair de casa de carro e ter mais ou menos a certeza de que chegávamos a cavalo nele, e não em cima de um cavalo (…). Nesta fase, tal como as crianças, os carros também ainda não faziam exatamente o que nós queríamos nem da forma que queríamos. Faziam ‘birras’ por tudo e por nada, e a solução só chegava à martelada (no caso das crianças, dispensa-se este utensílio por motivos óbvios…). Os comandos de direção eram rudimentares, os travões inexistentes e os restantes controlos tinham a complexidade de uma aeronave.

Fase adolescência
Superada a infância, chega a idade mais interessante… A irreverente ‘idade do armário’, Ou no caso dos automóveis a ‘idade da garagem’ – também conhecida por adolescência. Podemos situar esta fase lá para o início da década de 60 e com final no fim da década de 90.
Os carros neste período de vida começam a ser verdadeiramente ‘dirigíveis’, as potências começam a subir, e dão-se as primeiras grandes descobertas… Afinal de contas, estamos na adolescência, não é verdade? E isso reflete-se ao volante. Alguns carros são ‘irresponsavelmente’ potentes, autênticos loucos por fortes atravessadelas e grandes velocidades. Não interessa se o ‘corpo’ acompanha o ímpeto da ‘alma’… O que é preciso são emoções fortes! Sem filtros…
A segurança – esse parente pobre da indústria automóvel durante muitos anos – era uma coisa praticamente acessória.

Fase adulta
Chegamos então à fase adulta e, sem mais nem menos, chegam também as responsabilidades. E as semelhanças entre nós, seres bípedes, e os nossos semelhantes de quatro rodas continuam.
Aquele escape direto sem catalizador, equivalente ao piercing na língua? Esqueçam! Tem de dar lugar a um escape menos audível, porque agora somos responsáveis e estamos verdadeiramente preocupados com o ciclo reprodutor das cigarras. Olhem só…!
Os litros e litros de cerveja?! Perdão, de gasolina. Esses também têm os dias contados. A palavra de ordem é poupança e preocupação com a sustentabilidade do dia de amanhã. Os motores grandes começam a dar espaço aos pequenos.
A diversão também deixa de ser o tópico número um. A eletrónica invade o nosso automóvel, tal como as nossas noitadas são invadidas pela companhia da televisão. As atravessadelas passam a pequenos deslizes e as travagens queimadas são substituídas pelo soluçar de um sistema de ABS teimoso.
E é aqui que se dá a ‘parcial’ emancipação do automóvel. Ele deixa de fazer aquilo que nós queremos para passar a fazer apenas aquilo que quer. São controlos de tração, de viragem, de travagem e de sei lá mais o quê! Podemos dizer que a fase adulta do automóvel, aqui descrita, corresponde aos tempos atuais.

O que se segue?
Até aqui, homem e máquina comportaram-se da mesma forma. Foram bebés, crianças, adolescentes e adultos. Felizmente para os automóveis, é aqui que se separam as águas. Nunca vão ser velhos, ao contrário de nós.
Então para onde vai a nossa amada máquina? O caminho, creio eu, é o da ‘desumanização’ do automóvel. Mais cedo do que tarde, a borracha queimada numa estrada de montanha vai dar lugar a um computador que conduzirá por nós. Em plena segurança mas sem apelo nenhum. O objeto que tanto amávamos caminha no sentido de tornar-se num ‘eletrodoméstico’. Cada vez mais elétrico, limpo e seguro.
Não façam como os automóveis, estimem quem cuidou de vós durante todos estes anos… Feliz Dia da mãe!

Vamos sempre ser uns apaixonados do volante. Quais adolescentes!
O automóvel vai emancipar-se e tornar-se completamente independente. O ser humano vai deixar de ser ‘guia’ para passar a ser ‘guiado’. Os sistemas que agora apenas nos corrigem, no futuro vão mesmo substituir-nos. Se isso é uma coisa má? Talvez não.
Muitas vidas serão poupadas nas estradas. E no final de contas, vamos poder sempre contar com os putos irreverentes dos anos 90 e 80, que hão de ter sempre lugar cativo nas nossas garagens. E já agora… Sonho que no futuro os autódromos e estradas privadas deste nosso país tornar-se-ão uma espécie de reservas protegidas para automobilistas onde as velhas glórias vão sempre poder ‘esticar as pernas’. E nós também.
Porque os automóveis, afinal de contas, não envelhecem não é verdade? E quanto a nós não há volta a dar… Vamos sempre ser uns apaixonados do volante. Quais adolescentes!

SOBRE O AUTOR DESTE TEXTO

Guilherme Ferreira da Costa é estudante de Mestrado no Instituto Superior de Gestão e editor do site Razão Automóvel. Também colabora mensalmente com a revista Mais Superior, dando-te dicas práticas sobre como seres um condutor mais feliz… E poupado.

[Foto: Stew Dean@ Flickr]

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