O despertar de Cris

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A Mais Superior continua a acompanhar o IndieLisboa, mais especificamente a Competição Internacional de Longas Metragens.Desta vez, o filme eleito foi o do realizador Marcelo Lordello: “Eles Voltam”.

É um filme simples mas bonito. Que vive muito do argumento e da envolvência do espetador na história de Cris, uma pré-adolescente de 12 anos que mora em Recife. É ainda um filme com uma certa componente política, dada a forma como certas temáticas importantes da realidade social brasileira são muito bem retratadas.

O filme começa de uma forma irreverente, pois a introdução tem mais de 10 minutos! Algo que, de facto, não é muito comum e que prima, desde o início, pela diferenciação.

A introdução do filme mostra-nos que Cris e seu irmão, após uma discussão, são expulsos do carro pelo pai, enquanto viajavam para o norte do estado de Pernambuco. O seu irmão decide então ir à procura de ajuda e não retorna mais, abandonando Cris à beira de uma estrada no meio do nada, entregue ao seu próprio destino. É a partir daqui que o filme começa, acompanhando a aventura desta menina de classe média-alta – mimada, indefesa e superprotegida – tentando encontrar o seu caminho de regresso a casa.

À medida que Cris é ajudada por pessoas mais pobres e humildes, vemos o seu medo, a sua perplexidade e o seu estado algo catatónico perante a dificuldade em lidar pela primeira vez com uma realidade tão díspar da sua. O trabalho de câmara é aqui fundamental, pois capta e  transmite-nos todas estas sensações, através de planos fechados e muito intimistas em cima da protagonista e dos atores secundários e também em todos os pequenos detalhes que ajudam a construir a história. E é através desta minudência presente nestes planos que vemos revelada a enorme discrepância existente entre dois mundos e duas classes sociais tão distantes.

Outra questão aprofundada é a enorme diferença que existe no Nordeste Brasileiro entre as grandes cidades e o interior profundo. É fácil perceber o atraso civilizacional, o ritmo lento e a pacatez existente em todos os lugares distantes de uma grande cidade como Recife. A realização aqui também tem um papel muito importante, pois esta realidade é-nos apresentada com planos longos e contemplativos, que são típicos do cinema que se diz independente.

Podemos dizer que esta experiência marca profundamente e de forma positiva a vida de Cris , pois faz abalar todas as suas convicções e ideais provenientes da sua ambiência familiar e sócioeconómica. Com o avançar do enredo, Cris sofre uma metamorfose que está expressa na sua mudança de postura e de opiniões, quando ela volta à sua rotina.
Isto é muito visível em outra questão social que é abordada no filme: o problema das favelas e dos “Sem Terra” (sem abrigo), onde Cris toma uma posição crítica e corajosa perante um comentário depreciativo de seu avô.

Apesar de Maria Luiza Tavares (Cris) ser uma atriz amadora, e os outros personagens serem representados por pessoas comuns, isto torna o filme mais genuíno e dá-lhe aquele toque alternativo e ‘Indie’ que em nada prejudica o filme.

“Eles Voltam” recebe da nossa parte nota 3.

[Foto: programacinemafalado.blogspot.com]

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