Samuel Úria, O “Grande Medo” do regresso

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Dizem que a música dele é tão ligeira quanto profunda. Se calhar, é por essa complexa simplicidade que, em poucos anos, Samuel Úria passou de promessa a cantautor reconhecido no mundo da música portuguesa.

Agora, está de regresso aos discos e neste cabem canções descomprometidas, participações de “amigos” e a música a que já nos habituou. Pegámos no seu “Grande Medo do Pequeno Mundo”, puxámos conversa e deixámo-nos ir na cantiga dele.

Lançaste agora o teu novo CD, sentes que o público já estava a desesperar outro trabalho?

Conheço as pessoas que são fiéis e atentas ao meu trabalho, posso falar por esses que, sim, estavam a desesperar por um disco novo. Ainda assim, esse núcleo é diminuto para explicar tão bom início deste álbum. Mais do que ouvintes, o que tenho sentido é que tenho cada vez mais pares, gente da música com sucesso muito superior ao meu, que têm demonstrado interesse e divulgado o meu trabalho. Nesse sentido, sinto que a boa partida do “Grande Medo do Pequeno Mundo” está também ligada à curiosidade de um público que não era o meu.

O que é que o “Grande Medo do Pequeno Mundo” traz de novo?

As maiores novidades são as próprias canções, sobretudo porque não tinham ainda grande historial de palco antes de chegarem ao disco, o que contraria um bocado os trabalhos anteriores, onde as canções gravadas eram já rotineiras nos meus concertos. De resto, não posso arrogar novidade como característica do disco, do som ou da maneira de fazer canções. Nunca me preocupou que fosse um disco atual, ou impregnado de soluções pouco costumeiras. As canções são ditadoras, elas é que mandam na estética e não o inverso. Como não falo de coisas novas, era natural que as canções não espelhassem essa preocupação de jovialidade.

Neste trabalho tens convidados como António Zambujo, Manel Cruz, dos Ornatos Violeta, Miguel Araújo, Márcia Santos ou João Só que, assim à partida, parecem tão distantes musicalmente…

Estarmos a esbarrar constantemente com gente da música é meio caminho andado para fazermos amigos na música. E fazer amigos músicos é meio caminho andado para surgirem convites informais para gravar, que depois se formalizam nos discos. Sempre dependi da generosidade dos amigos para ir construindo a maior parte dos meus discos, coisa tão natural que, pela recorrência, se tornou quase política na editora FlorCaveira. A grande novidade agora é que os amigos participantes não são do tradicional ‘cast’ da FlorCaveira [editora independente, da qual saem muitos discos fora do circuito comercial ]. Logo isso os torna distantes, o que pode jogar a favor pela surpresa.

Recordando o teu último CD, cuja fase de composição foi transmitida em direto na internet… És, provavelmente, o artista que mais comunica o processo criativo com teu público e o convida a participar nele. É importante esta relação?

Isso aconteceu, sobretudo, num disco que eu gravei em 2009, todo num dia. O ‘input’ do público era importante pela necessidade de demonstrar que o disco estava mesmo a ser escrito na hora. Para provar que não tinha levado as coisas já na cabeça, pedi às pessoas para me mandarem e-mails com sugestões, coisas que eu ia adaptando em canções aos olhos de todos. Fora essa vez, eu até sou muito pouco de partilhar a escrita das canções. Sou mãe galinha, não as deixo sair do meu aprisco até terem maioridade. Quando estão formadas, educadas, delineadas, deixo-as sair; mostro-as primeiro a quem toca comigo, depois ao público. Há demasiados pormenores em que sou picuinhas na minha criação, não consigo partilhar essa parte. Nunca foi uma questão de avareza, não quero é que as pessoas se apercebam o quão ‘cromo’ eu consigo ser em torno das coisas que escrevo.

A apresentação do trabalho foi no início de fevereiro… Qual tem sido a reação do público às músicas deste novo trabalho?

Foi, e tem sido, surpreendente. Quando estava a escrever as canções, quer pela duração, quer pela temática, quer até por alguma toada mais arrastada, desconfiava que o disco ia ser pouco fácil de engolir. Daí a surpresa com tanto entusiasmo. É verdade que, ao vivo, mesmo as canções mais compridas e penosas ganham uma intensidade diferente, mas a receção extraordinária não se tem cingido aos concertos. É sempre bom quando as pessoas nos querem ouvir e entender, mesmo que as estejamos a expor às nossas palavras mais duras.

 

“O Grande Medo do Pequeno Mundo”
Lançou-se “Em Bruto” e com “Nem Lhe Tocava” conseguiu virar para para ele os olhos da crítica e do público. Depois de “A Descondecoração de Samuel Úria”, chega agora “O Grande Medo do Pequeno Mundo”.

 

[Fotos: Cedidas pelo entrevistado]

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