Penso, logo ganho prémios

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O Prémio de Ensaio Filosófico promovido pela Sociedade Portuguesa de Filosofia (SPF) já tem vencedor. 

José Gusmão Rodrigues, estudante de Filosofia na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL), foi quem melhor respondeu à questão “O relativismo acerca da verdade refuta-se a si mesmo?”, levando consigo 3 mil e 500 euros de prémio e a certeza de que vai ver publicado o seu ensaio na prestigiada revista Portuguesa de Filosofia.

O que te faz gostar tanto de Filosofia?

Há, fundamentalmente, quatro razões que me levam a gostar de Filosofia. A primeira, e mais importante, é que as questões são simplesmente e terrivelmente interessantes pelo seu grau de abstração e generalidade – para quem quer que tenha curiosidade intelectual pela natureza da realidade em termos fundamentais. Para dar alguns exemplos de questões: Se uma partícula atómica não tem liberdade, como é que um monte delas pode ter? O que é que faz com que seja a mesma pessoa aos 7 e 70 anos? Existem objetos abstratos, fora do espaço e do tempo, como números e conjuntos? Se há como podemos obter conhecimento deles?
A segunda é que há questões de natureza ética e política (como a questão de saber se, e em que condições, se está justificado a mentir; se deve haver limites à liberdade de expressão; ou se o aborto deve ser legalizado… Sobre as quais, como agentes morais e cidadãos responsáveis, todos devemos ter uma opinião. E o debate e estudo filosófico é a melhor maneira de vermos se as nossas opiniões estão devidamente fundamentadas ou não.
A terceira é que a dialética e a troca de argumentos entre os filósofos chega a níveis bastante complexos e seguir e participar da discussão, para além de dar prazer, ajuda a manter a inteligência flexível e aguda.
Por fim, a última é que há questões existenciais sobre a morte, o sentido da vida, a amizade e o amor sobre as quais todos nos interessamos – e os filósofos também escreveram sobre esses tópicos.

Quando sentiste que era isso que gostavas de estudar no Ensino Superior?

Nunca pensei na Filosofia como uma área académica entre outras, sendo sempre mais um conjunto de perguntas que me fascinam, embora não tenha objeções a quem pense nela assim, como grande parte dos filósofos profissionais hoje em dia, pelo que até ao fim me mostrei indeciso entre vários cursos (Física e Psicologia, para dar dois exemplos), mas acabei por me decidir por Filosofia, porque achei que seria mais feliz e seria mais fácil conjugar os meus interesses pessoais com os profissionais.

O concurso promovido pela SPF desafiava os concorrentes à seguinte pergunta: “O relativismo acerca da verdade refuta-se a si mesmo?”. Podes dar algumas luzes do que foi a tua resposta, vencedora no certame?

Em contextos do dia-a-dia ou em certos meios intelectuais, é habitual ouvir-se a opinião de que tudo é relativo, de que não há verdades absolutas, de que tudo depende da perspetiva. A maioria dos filósofos pensa que este relativismo é um sintoma de confusão intelectual e, para mostrar que é falso, mostram que este se refuta a si mesmo. Pensemos um pouco na tese relativista de que ‘Não há verdades absolutas’… Não parece haver algo estranho nela? Das duas, uma: ou esta tese é ela própria uma verdade absoluta, no caso em que se contradiz a si mesma, ou é uma mera verdade relativa que não há verdades absolutas. Mas se é só relativo que não há verdades absolutas, então admitimos a possibilidade de que haja verdades absolutas, refutando novamente a tese inicial.
Eu defendi que os filósofos estão errados nessa acusação ao relativismo global. Aceitei a segunda opção do dilema, que o relativista propõe a sua tese apenas relativamente e, consequentemente, aceita que haja verdades absolutas – mas apenas relativamente. Isto é: ele aceita que pode haver perspetivas tais que, relativamente a estas perspetivas haja verdades absolutas, mas acontece apenas que a dele não é essa. Isso é mostrado à conta de um sistema de lógica formal que não tenho tempo de explicar aqui.

O prémio que venceste tinha como valor 3 e 500 euros. Já pensaste o que vais fazer com este dinheiro?

Tenho alguns livros que quero comprar com ele mas devo guardar a maior parte para o futuro, já que penso ir estudar para o estrangeiro.

O que significou para ti esta vitória, tendo em conta o painel de jurados que te avaliou, o prestígio do próprio prémio e o facto de que o teu ensaio vai, inclusivamente, ser publicado num dos próximos números da revista Portuguesa de Filosofia?

É sempre agradável ser o vencedor de qualquer competição, principalmente a compensação monetária referida há pouco. No entanto, não obstante a elevada competência dos jurados, não atribuo nenhuma importância de maior a este prémio. Teria muito mais significado para mim ter um artigo publicado num tópico filosófico que me seja querido, como a relação entre estados cerebrais e estados mentais, ou ter escrito uma introdução à Filosofia que suscitasse o interesse de uma quantidade significativa de pessoas.

Há algum livro de Filosofia que queiras deixar como sugestão de leitura aos leitores da Mais Superior, por até ter sido de especial leitura para ti, por exemplo?

“Os Problemas da Filosofia” de Bertrand Russell é a obra que está na origem da minha paixão por Filosofia e é minha convicção de que se trata da melhor introdução à Filosofia alguma vez escrita. Para além disso, para os leitores que não estejam interessados em Filosofia hardcore, mas que estejam interessados em como a Filosofia pode contribuir para refletir sobre a cultura contemporânea ou tópicos existenciais como o sentido da vida recomendo, respetivamente, o ensaio de Harry Frankfurt “On Bullshit” e o livro de Susan Wolf que foi traduzido com o título “O Sentido na Vida”.

Com a Filosofia nas entranhas
José Gusmão Rodrigues tem 19 anos, está matriculado no segundo ano do curso de Filosofia, na Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL), e a Filosofia não é uma paixão recente. O jovem foi já medalha de prata nas Olimpíadas Internacionais de Filosofia realizadas em Viena, em maio de 2011, sendo ainda, desde fevereiro de 2013, membro do grupo de investigação LanCog (pois tem intenções de se especializar em Filosofia da Mente). Em 2012, José Gusmão fez apresentações no 10º Encontro Nacional de Professores de Filosofia, na Universidade Nova de Lisboa, com o título “A mente ultrapassa o crânio? O debate sobre os limites da cognição”; e no 5º Encontro Nacional de Filosofia Analítica, na Universidade do Minho, com o título “Kripke’s argument against materialism: A reply to some objections”. Nesse mesmo ano, participou na OFA8: 8th Graduate Workshop in Analytic Philosophy, na Universidade de Lisboa, comentando um trabalho de Robin McKenna sobre o contextualismo.

Entrega do prémio em setembro!
Os trabalhos submetidos ao Prémio de Ensaio Filosófico, promovido pela Sociedade Portuguesa de Filosofia (SPF), foram avaliados (sem conhecimento da identidade dos seus autores) por um júri composto por Álvaro Balsas (Universidade Católica Portuguesa), António Zilhão (Universidade de Lisboa), Ricardo Santos (Universidade de Évora), Sofia Miguens (Universidade do Porto) e Teresa Marques (Universidade de Lisboa).
A entrega do prémio terá lugar no decurso do 11º Encontro Nacional de Professores de Filosofia, que deverá ocorrer na Universidade de Coimbra (UC), nos próximos dias 6 e 7 de setembro.

[Foto: Cedida pelo entrevistado]

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