Uma loucura legendada

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Segunda-feira passada, retornámos ao São Jorge para ver um filme diferente. A Mais Superior foi ver a estreia da novíssima secção Altre Visioni, e conta o que achou de “La Leggenda Di Kaspar Hauser”.

Segundo a organização desta 6ª edição da 8 ½ – Festa do Cinema Italiano, esta secção “pretende dar a conhecer um conjunto de trabalhos dedicados aos autores que se destacam no panorama italiano e internacional pela audácia da sua abordagem estética e pelo desenvolvimento de uma poética singular na maneira como fazem e pensam Cinema.”

O filme “La Leggenda Di Kaspar Hauser” cumpre na perfeição estes objetivos da Altre Visioni. É claramente um filme que se enquadra na categoria do cinema de autor. O realizador, Davide Manuli, coloca no seu 4º filme uma visão personalizada, única e bastante louca do mundo da música eletrónica, numa dimensão paralela.

Na primeira cena do filme (presente na foto inicial), antes do genérico de entrada, percebe-se facilmente que vamos ver um filme alternativo, que quebra com todas as habituais convenções cinematográficas.
Do ponto de vista técnico, a realização é brilhante. Tudo é pensado de forma a criar o mood que o realizador pretende transmitir ao espetador.

Podemos começar pela escolha de uma fotografia a preto e branco, fortemente vincada e contrastante, que transmite de forma crua um mundo bipolar, ou seja, a loucura que é obviamente algo complexa, é-nos mostrada da forma mais direta possível.

A escolha da Sardenha como cenário natural, é também essencial para criar a atmosfera de um mundo quase lunático. As paisagens são lindíssimas, mas super simples, presenteando-nos com planos muito limpos e com grande profundidade, o que contribui ainda mais para aumentar o contraste entre o preto e o branco.
A banda sonora do filme também não podia ser mais adequada. Vitalic é um dos nomes mais proeminentes da música eletrónica contemporânea. Este francês de origem italiana, com o seu estilo Eletro-Techno, faz-nos entrar ainda mais no delírio da história, através de uma batida intensa, polifónica e hiperativa.

Cinema
Podemos começar pela escolha de uma fotografia a preto e branco, fortemente vincada e contrastante.

No que diz respeito à escolha dos atores, também é impossível colocar defeitos! Vincent Gallo parece ter nascido para este filme, onde acaba por atuar em dois papéis: dois irmãos gémeos inimigos, que têm personalidades totalmente opostas e mais uma vez contrastantes, com um vestido de preto e outro de branco.
Gallo, através de um dos irmãos – o mais ativo na história – é um xerife completamente louco e hiperativo, que fala sozinho e tem um sotaque americano (bem texano) que faz lembrar os antigos filmes de Western. Através do outro irmão, Gallo surpreende-nos com várias falas em Italiano, e com um sotaque bastante aceitável.

A atriz que faz de Kaspar House, Elisa Sednaoui, está fantástica no seu papel, que é sem dúvida extremamente difícil de representar. Não há qualquer indicação no filme, de qual é o sexo de Kaspar House. Por isso este personagem representa, de alguma forma, um hermafrodita, que é totalmente excêntrico, frenético e esquizofrénico. Está constantemente a dançar e com headfones nos ouvidos, e o que diz são sempre frases curtas, estranhas e codificadas.

Podemos salientar ainda o trabalho da Duquesa, novamente com a atriz Claudia Gerini (presente no outro filme que vimos: “Uma Familia Perfeita”), onde mais uma vez Claudia consegue transmitir a sua classe e elegância.

Quanto ao argumento, não é fácil descascá-lo, dado que é sobretudo aqui que a loucura se expressa. No argumento, que é também de Manuli, fica bem expresso o seu cunho pessoal e intransmissível. Como é uma visão muito pessoal do realizador, pensamos que cabe a cada um fazer a sua interpretação, à semelhança dos filmes de David Lynch. No entanto podemos dar algumas pistas sem desvendar o véu. Pela complexidade em se entender a história e onde o realizador pretende chegar, vemos uma forte influência de Lynch pelo surrealismo presente no filme. Para além disso, vemos também referências de Tim Burton, dado que a história se passa num mundo paralelo, uma espécie de conto de fadas num território inóspito e repleto de personagens esquisitas, como por exemplo um padre eremita armado com um pistola à cintura, e também com aberrações, quando vemos um homem baixo e deformado.

Concluindo, consideramos que é um filme fantástico e bastante completo, com uma grande realização, produção, argumento e banda sonora. O objetivo a que o realizador se propôs, foi na nossa opinião conseguido com enorme êxito. E é por isso que damos pontuação máxima: 5 estrelas!

[Foto: fripp21.blogspot.com e blog.cloudmine.pl]

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