Sozinho? Sim, obrigado.

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Chegar a casa, cozinhar, jantar, ver um filme, passear ou, simplesmente, aterrar no sofá… Tudo por conta própria. Num mês em que te habituaste a ver o mundo aos pares, fomos tentar perceber a beleza de viver só. E garantimos-te que a porta está sempre aberta, menos para a solidão.

A tendência é clara: segundo dados provisórios dos Censos de 2011, o número de pessoas a viver sozinhas em Portugal aumentou 37,3% na última década. E se em 1960, em cada 100 famílias, 11 eram de uma só pessoa, hoje essa estatística sobe para as 21 em 100.

Fabiana Andrade, psicóloga clínica da Oficina de Psicologia (clínica de psicoterapia espalhada um pouco por todo o país), aponta uma das possíveis explicações: “o que capto na minha realidade diária e no consultório é que está a ser difícil para as pessoas, de modo geral, relacionarem-se umas com as outras em moldes saudáveis, contribuindo para a solidão, divórcios, depressão, entre outras questões”.

A crise não está a ajudar, mas Fabiana Andrade deixa claro que viver sozinho não significa passar uma má fase. Por isso, distingue as decisões que são ponderadas e desejadas – uma pessoa que quer estar por conta própria por um tempo “poderá estar a fazer o luto de uma relação anterior, poderá estar numa fase em que pretende dedicar o seu tempo a um projeto específico, poderá querer estar mais em contacto consigo mesma, cortar o cordão umbilical com os pais, conhecer-se melhor, entrar em contacto com os seus conflitos e necessidades de forma a resolvê-los”. “Esse tipo de decisão é saudável na medida em que a pessoa está a cuidar de si”, defende a psicóloga.

Fabiana Andrade
Fabiana Andrade é psicóloga clínica na Oficina de Psicologia.

 

O meu projeto sou eu

Maria (nome fictício, a pedido da entrevistada) tem 26 anos e vive sozinha há dois. Pertence a uma geração que não sai de casa dos pais no dia do casamento. Sai antes (e muitos nem chegam a casar) por vontade de ter a própria independência. Às vezes, falta só um empurrão.
“Já tinha vontade de viver sozinha. No entanto (ponderada como sou), não tinha forma de alterar o resultado dos meus ensaios em Excel com o budget que tinha disponível… Basicamente, havia alento para dar o passo, mas não havia condições”, lembra. Afinal foi um casamento, o do irmão, que fez com que Maria pudesse adotar uma casa como sua e o passo deu-se.

Hoje sabe que tem autonomia a sério, “de horários, de vontades, de costumes”. Tem um espaço em que é “verdadeiramente livre”. Mas também olha para esta fase como transitória e, por isso, quer aproveitá-la, porque, lembra, este tipo de independência “é uma vantagem que nunca mais na vida se pode vir a ter, ou, pelo menos, não tão óbvia”.

Diz quem sabe que esta é a fórmula certa. “A vida é cíclica, por vezes a nossa vida está mais povoada de pessoas, família, amigos, por outras, estamos menos acompanhados”, explica Fabiana Andrade. Daí que a solução seja “saber olhar para estes ciclos e retirar deles o que é mais proveitoso”.

Para a especialista da Oficina de Psicologia “estar num ciclo desejando o que é essencialmente do outro só nos faz sentir como na música, ‘só estou bem aonde eu não estou’ [“Estou Além” de António Variações], ou seja, nunca estou bem”. Usar o que de melhor existe em cada momento “depende de nós”, conclui.

Escolha “foi fazendo sentido”

O caso de Aurélio Martins é diferente. Não ficou sozinho, não foi obrigado a sair de casa, mas também não viu grandes alternativas: “tendo nascido e estudado na ilha de São Miguel, nos Açores, a reduzida oferta de cursos aliada à fraca notoriedade fizeram-me vir fazer o ensino superior para Lisboa, onde quase sempre vivi sozinho”. Passaram nove anos.

“Foi algo que foi fazendo sentido na minha vida”, até porque “é confortável sabermos que existe um espaço só nosso, em que não precisamos de justificar, explicar ou dividir”. Não se trata de egoísmo, garante, “mas quem não tem vontade de, por vezes, ter o comando da TV só para si?”.

Viver sozinho tem vantagens, diz por experiência própria, mas “requer um exercício de equilíbrio emocional e social muito grande”. É preciso afastar essa inimiga chamada solidão: “a mim acontece-me algumas vezes sentir falta de alguém com quem desabafar quando chego a casa…”.

Maria tem a solução: “aquilo que mais gosto de partilhar são as minhas alegrias. E nesses dias não fico sozinha em casa”. Ter um espaço só seu é uma oportunidade “para programas imprevisíveis” e para “um dia-a-dia sem planeamentos a prazo”.

Aurélio também o sabe, habituou-se a que “sempre que se organiza um jantar de grupo ou um convívio para ver o clássico de futebol seja na casa que está disponível”. “O problema é sempre o dia a seguir…”, recorda, mesmo sabendo que o conforto de uma sala cheia vale o esforço.

O mundo foi feito para casais?

É certo que estamos em pleno século XXI e que, pelo menos por cá, as formas de vida alternativas ao tradicional ‘casar e ter filhos’ são mais facilmente aceites. Mas também é verdade que ainda há barreiras por quebrar.

Maria diz já ter sentido na pele o estigma de uma vida a solo: uma certa pressão “implícita quando, sem razão aparente, me sinto ‘descompensada’ por começar a ver amigas e família a fazerem os seus ‘caminhos esperados’. Explícita porque, na realidade, a vida está pensada para ser vivida a dois”, até nas pequenas coisas. “É a manteiga que se estraga porque não existem embalagens ‘individuais’, as despesas correntes que pesam numa só conta, ou mesmo colocar uma capa de édredon… São coisas que ficam bem mais fáceis a dois”.

A experiência de Fabiana Andrade não desmente o “sentimento de pressão familiar e social”, que pode aparecer subtilmente ou de forma “violenta, com depreciação da pessoa”, explica a psicóloga. “’Nunca mais arranjas ninguém, o que se passa contigo, não desencalhas?’” são comentários possíveis. Fabiana Andrade pede o caminho inverso, novas perguntas – “o que tens feito?; O que te dá prazer hoje em dia?; De que coisas gostas mais?”.

Cá como lá…

Não é só em Portugal que este fenómeno ganha terreno.

  • Um estudo apoiado pela Joseph Rowntree Foundation, uma organização britânica de luta pela erradicação da pobreza e da desigualdade, mostra que o aumento das famílias de uma só pessoa tem sido a grande mudança demográfica das últimas décadas. E aponta uma vantagem para as comunidades: quem está por conta própria tem maior predisposição para fazer voluntariado e para se envolver civicamente.
  • Um outro estudo, “Going Solo”, de Eric Klinenberg, professor de Sociologia na New York University, mostra que é nos países mais desenvolvidos que esta tendência de crescimento das famílias unipessoais mais se nota. Na Suécia, um exemplo comum sempre que se fala de contemporaneidade, estão a ser criadas facilidades para quem quer viver sozinho, como blocos de pequenos apartamentos com zonas de convívio comuns.
  • Onde o número deste tipo de famílias aumenta mais rapidamente é nos países em grande crescimento económico – China, Brasil e Índia.
  • Nos EUA, são frequentes os grupos que lutam pela causa. Um dos mais emblemáticos é o “Alternatives To Marriage Project”, que procura mostrar as vantagens de viver sozinho e defender os direitos de quem o decide fazer.
  • No Canadá, na cidade de Montreal, província do Quebec, dá-se o “Célibataires en Fête” (“Festival de Solteiros”), que promove encontros de gastronomia e dança, sempre com enorme sucesso.
  • A ideia de uma pessoa enrolada em pelo de gato, incapaz de usar uma máquina de lavar roupa sem deixar marcas e alimentada à base de lasanha congelada é coisa do passado. Viver sozinho não é sinónimo de incapacidade ou falhanço social. Hoje, pode, pelo contrário, ser uma demonstração de independência e sucesso.

[Fotos: @ Ângela Miguel (topo) e Fabiana Andrade]

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