“Sou um betinho nalguns aspetos”

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Não acredita no sucesso fácil, confessa que nunca usou drogas e reconhece que num mercado onde milhões tentam vender discos, é a maneira genuína de ser e de escrever canções que mais pode marcar a diferença junto dos ouvintes. Depois dum interregno de quatro anos, João Pedro Pais regressa aos palcos com “Desassossego”: ao todo são 10 belíssimas canções que contam com a produção de João Martins Sela e a mistura de Adam Kasper (nome que dispensa apresentações por já ter trabalhado com Eddie Vedder, Pearl Jam ou Foo Fighters).

O que te deixa, afinal, desassossegado neste teu novo disco?

O “Desassossego” reflete todo o espaço e o tempo que demorei a compor estas canções. Os textos são de caráter autobiográfico, mas não só, porque falam de mim, mas também acabam por falar de toda a gente, pois toda a gente já passou, alguma vez na vida, pelas circunstâncias que canto. Quanto ao desassossego… A minha própria forma de escrita é muito desassossegada, muito própria, assim como o é o meu estilo de viver – até porque para se criar é preciso muito desassossego, mas um desassossego controlado. E o meu desassossego é um desassossego calmo e sossegado. Posso até dizer que sou um betinho nalguns aspetos, já que nunca experimentei drogas na minha vida. Sempre estive ligado ao desporto, então a música para mim é Sexo e Rock & Roll, vai até aí só.

-Este é um disco com alguns convidados muito especiais para ti, verdade?

Sim, os convidados são pessoas com as quais me identifico bastante: o Pacman dos Da Weasel escreve desalmadamente, é um geniozinho da literatura moderna e a maneira como ele diz as coisas é fora do vulgar… Tanto que é ele que canta a a música mais desassossegada do disco, a que fala da história verdadeira duma família (que não a minha) onde os filhos são absorvidos pelos pais e o amor dá origem a ciúme e até a inveja. Quanto à Mónica Ferraz, ex-Mesa, esta tem uma maneira muito peculiar de cantar, possuindo ainda uma enorme sensualidade – é um verdadeiro manequim, mas não um manequim de passerelle, antes um exemplo em cima do palco, tanto pela postura como pelo saber estar e pela a maneira de interpretar… Daí ter convidado estes dois artistas.

És uma pessoa persistente, pelo menos a julgar pelo teu percurso. Sempre quiseste ser artista?

Todas as crianças gostam de música. Mas se me perguntares se eu sonhei isto, não estou a ser demagogo nem ingénuo: eu nunca sonhei isto. Toda a gente dizia que eu tinha muito jeito para cantar e para a música, verdade, mas eu como autodidata aprendi a tocar a ver os outros tocar e aprendi muito com muita gente, gente que anda aí e que sabe mais do que eu, que não sou poeta e nem intelectual. É por isso que estou rodeado de pessoas como o José Luís Peixoto e o José Eduardo Agualusa, já escrevi para a Ana Moura, já fiz parcerias com o Lenine, que é um dos maiores cantautores do Brasil, e cantei com nomes como Nando Rei, dos Titãs, Fausto, Zé Mário Branco, Mafalda, Jorge Palma… Entre outros.

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Onde entra o “Chuva de estrelas”?

Foi um programa de televisão em que eu apareço três vezes a interpretar o tema de alguém, numa espécie de karaoke televisionado… E julgo que quem levar esse tipo de programas a sério pode dar-se muito mal, pois morre à nascença. As coisas começaram a sério para mim quando gravei o meu primeiro álbum. Quando tu tens um primeiro álbum e as tuas músicas começam a tocar nas rádios, as pessoas percebem finalmente o que é que o artista tem para dar. E o meu primeiro disco era um disco ingénuo, sem maldade e feito das minhas histórias, sem nunca ter lido aquilo que eu hoje li e me dá outro nível de conhecimento literário e de vocábulos. O José Luís Peixoto, por exemplo, foi-me aconselhado por um professor de Português, no Externato Fernando Pessoa, que me disse: “João, você tem jeito para a música, mas cuidado, você se não ler está lixado! Nós também somos aquilo que lemos”, disse-me ele.

Não acreditas no sucesso fácil, portanto…

Às vezes dizem que dou um ar sério nas entrevistas e que parece que estou sempre chateado, mas o certo é que nunca confiei no sucesso que me foi dado até hoje. Não acredito, porque estou sempre à espera que venha o pior – as coisas correram bem, sou um privilegiado, mas não quero que me batam nas costas e me digam que sou o maior, porque o mundo gira…

Lembro-me de dizerem à minha promotora, quando ela ia mostrar as minhas músicas, “olha outro a querer cantar…”. Mas eu não vivo esfomeado pelo sucesso. Eu sei o meu caminho e sei que não existo só eu a cantar e a querer vender o meu trabalho, existem milhares e milhões doutros artistas e as pessoas podem não estar numa de me quererem acompanhar mais. É bom que as pessoas gostem de me ouvir, mas vamos com calma, “Havemos de lá chegar” (risos).

Tens algum momento emocionante na tua carreira que queiras partilhar?

Lembro-me da Ana Moura me dizer: “Ah, estou aqui com os Rolling Stones numa casa de fados, mas não podes contar a ninguém! Nenhum jornalista pode saber”. Ela desligou o telemóvel e eu liguei para o Zé Pedro dos Xutos (porque o sonho do Zé Pedro era conhecer os Stones): “Zé Pedro, tenho uma grande surpresa para ti! Pá, sei onde é que estão os Stones. Vem ter comigo!”. Lá nos encontrámos e esse momento marcou a vida do Zé Pedro, eu fiz um colega sorrir. Essa ligação ainda perdura, temos fotos deles e o Zé até conta que fiquei petrificado e que saltei para o colo do Mick Jagger e disse: “Eia man, you’re the best!”. São momentos do caraças!
Ah… Também falei com o Eddie Vedder no Festival Sudoeste, disse-lhe: ‘vou trabalhar com o teu produtor’ e ele respondeu ‘Great, Adam is the best!’. Também achei graça ao facto do Eddie ser do meu tamanho… (risos)

Como é que surgiu a oportunidade de abrires a tournée para o Brian Adams?

Eu nunca andei atrás da fama… As coisas foram acontecendo. Alguma vez eu sonhava fazer a tour com o Brian Adams? Nem pouco, mais ou menos. Fiquei surpreso quando soube que ia ser eu a fazer e quando soube da condição: quem fizesse Brian em Lisboa tinha de fazer em Espanha, connosco a investir, o que com toda uma comitiva a andar de avião rondaria os 10 ou 15 mil euros. No entanto, resolvemos tudo alugando um Tour Bus. Em Espanha, tínhamos os fãs do Brian e eu tinha vergonha de dizer o meu nome e de dizer que era o João Pedro Pais, um ‘cantante português’… Então eu dizia que era um ‘plazer muito grande estar com vosotros e gracias por terem venido…’ (risos). Também interpretei uma canção dos Mecano “Hijo de la luna” e cantei alguns refrões meus portugueses em espanhol: “Yo me quedo loco, loco por ti…”. O resultado? À saída de Madrid, tinha cartazes a dizer: ‘Grupo invitado!’.

Em Portugal, também fui muito bem recebido e tinha no Pavilhão Atlântico 18 mil pessoas à espera do Brian Adams e à minha espera também. Acho que foi a partir daí que eu tive um boom musical, em minha opinião. Demorou alguns discos…

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O que há para ouvir em “Desassossego”?
1. Havemos de lá chegar
2. Estás à espera de quê
3. O fim
4. Finalmente prontos
5. Isto do amor
6. Reincidentes
7. Felizes e contentes
8. Posso fugir mas não te posso esconder
9. Fora do vulgar
10. Idade da inocência

[Foto: Valentim de Carvalho]

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