Universidades de volta ao trono

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Por que temos tantos jovens superiormente formados que não ajudam as empresas a evoluir? Por que chamamos “geração à rasca” àquela que é a mais qualificada de sempre? Qual o papel das universidades no meio de tantas dúvidas? Professor do Departamento de Engenharia Mecânica da Universidade do Minho (UMinho), Filipe Samuel Silva tenta responder a estas e outras perguntas com a obra “Como colocar a Universidade no centro do progresso de Portugal”.

Dividido em duas partes – a primeira acerca das mudanças no mundo e no Ensino Superior em particular, a segunda uma proposta prática em que a criatividade, a inovação e o empreendedorismo são palavras-chave – o livro está também disponível em wwww.engebook.com.

O livro incide sobre a engenharia, especificamente, ou pode ser entendido por e para todas as áreas?

O livro aponta princípios gerais para a implementação de uma cultura de CIE – criatividade-inovação-empreendedorismo. É proposta uma aplicação num curso de engenharia apenas para se visualizar a sua implementação prática mas os princípios são transversais e podem ser aplicados em qualquer área como por exemplo a sociologia, filosofia, educação, biologia, etc.

Que tipo de medidas daria às universidades um papel mais importante? Ou que reformas é preciso que elas façam?

As universidades, como centros do saber, têm que ter também os mecanismos para tornarem os saberes úteis para a sociedade. Não basta ensinarem os ‘saberes’. É preciso ensinar também como colocá-los em prática de forma que estes se tornem úteis para a sociedade. Isto tornaria as universidades em atores muito mais eficazes da mudança e da prosperidade, quer em termos económicos quer sociais.

Em relação às reformas é preciso primeiro dizer que muito já se tem feito no que podemos denominar do ‘pipeline da valorização do conhecimento’. As universidades já foram dotadas de estruturas de apoio como entidades de interface com as empresas, entidades de apoio à propriedade intelectual, parques para spin-offs, entre outras. O elo que falta, e porventura o elo mais fundamental, é o da criação de uma cultura de CIE – criatividade-inovação-empreendedorismo nos alunos que frequentam os cursos nas universidades. E esta cultura é imprescindível pois é ela que alimentará ou dará sentido às outras estruturas de interface mencionadas, que complementam a primeira. O capital humano é o aspeto mais fundamental neste processo de mudança. Sem que estes absorvam esta cultura é muito difícil que as outras estruturas sejam devidamente aproveitadas.

As reformas fundamentais neste processo de mudança de cultura podem ser variadas, dependendo de cada contexto. Todavia, no livro que escrevi, e no contexto da engenharia, as reformas passam essencialmente pelo ensino introdutório de algumas matérias relacionadas com a CIE, como o pensamento criativo, metodologias de inovação, entre outras, durante o curso superior. Passa também pela introdução de Unidades Curriculares onde se desenvolvam projetos integradores de conhecimentos diversos, onde se apele ao pensamento crítico e de síntese, e não só à memória, e finalmente pela introdução de algumas infra-estruturas simples como o gabinete de CIE, que tornem a mudança visível e percetível por parte dos alunos. Finalmente é necessário que os professores queiram mudar e que as metodologias sejam introduzidas de tal forma que permitam que os ensinos e práticas se transformem numa cultura.

Considera que as Universidades estão muito distantes do mercado de trabalho?

Na verdade as universidades têm procurado aproximar-se do mercado de trabalho. Noto um esforço crescente por parte das universidades em geral em trabalharem mais próximos das empresas ou dos agentes que receberão os seus alunos. A criação de estruturas de interface é disso um exemplo. Todavia isto tem mostrado ser insuficiente. Na maior parte dos casos é necessário que a Universidade entenda as necessidades dos agentes sociais que as procuram e dote os seus alunos de competências que permitam colmatar essas necessidades. E isso não está a acontecer como seria desejável.

Parece-lhe que as universidades têm conseguido acompanhar as mudanças que a globalização trouxe ou estão a perder o comboio e agarradas a um conhecimento já pouco útil na prática?

Esta pergunta é muito pertinente. Na verdade não têm conseguido. Nos tempos que correm e devido à globalização e competitividade crescentes, as empresas, o comércio, os escritórios, e a sociedade em geral, necessitam de gente que não só domine certas matérias mas que seja capaz de aliar a estes saberes a capacidade de usá-los de forma a acrescentar-lhes valor e a torná-los úteis para a sociedade. As universidades têm evoluído mas a velocidade da mudança no mundo tem sido superior à capacidade de adaptação das universidades. É urgente que este fosso diminua. Não é possível que os alunos saídos das universidades não sejam eles próprios os verdadeiros atores da inovação e da evolução da sociedade mas continuem a ter uma atitude passiva, à espera que a sociedade lhes dê valor, os absorva, e lhes encontre um espaço. O paradigma é hoje completamente diverso do que era há uns anos. Numa sociedade do conhecimento como a atual quem detém o saber e o conhecimento é que deve ser o motor da inovação e da mudança. É importante as universidades formarem os alunos com a consciência desta realidade e, com ela, dotá-los também das ferramentas para que eles assumam o seu verdadeiro papel na sociedade atual.

Como vê a fuga de cérebros? Com preocupação ou esse é um ciclo natural que trará mais tarde o devido retorno?

Naturalmente que o ideal seria que fossemos capazes de utilizar a nosso favor as pessoas que vamos formando e, sobretudo as mais dotadas. E tudo devemos fazer para lhes dar as ‘ferramentas’ para que eles possam ser úteis cá em Portugal. Todavia, não sendo isto possível, é saudável que possamos então criar-lhes condições para que elas possam desenvolver as suas competências noutros lugares. De outra forma não somente não tiraríamos proveito delas como ainda estaríamos a impedir essas pessoas de expressarem as suas competências ao mais alto nível. Por outro lado, se as ajudarmos a desenvolver as suas competências, mesmo tendo que as ajudar a sair de Portugal, é mais provável que um dia voltem, reconhecidos ao País pelo que fez por elas, ou ainda ajudem o país mesmo estando fora. De outra forma pode ser que nunca mais voltem nem queiram ajudar quem não se preocupou com eles. É preciso dar asas e ajudar a ‘voar’ os nossos alunos.

A solução da chamada “Geração à Rasca” passa pelas universidades?

É claro que sim, pelo menos em grande parte. É preciso compreender que a globalização está a provocar uma competitividade de tal ordem que só quem tiver uma cultura de inovação constante conseguirá prosperar. Existe uma correlação direta entre países prósperos e países que inovam. E Portugal ainda está aquém da média europeia. Ora, um dos pilares da inovação são os saberes. É muito mais capaz de inovar quem detiver o saber. E as universidades são os mananciais do saber das nossas sociedades. Como consequência, das Universidades deviam sair os atores da inovação e da prosperidade e não uma ‘geração à rasca’. Se não estão a sair das Universidades estes atores é porque ainda não conseguimos dar o passo fundamental que nos falta que é o de dotar os alunos da capacidade de transformar o saber em inovação, ou seja, de acrescentarem valor ao conhecimento.

Com o envelhecimento do país e a emigração de quadros superiores, como imagina Portugal daqui a 10/15 anos? E as universidades?

Sou português nascido em África, e com isto aprendi algo que considero muito importante, quando os portugueses quiserem eles serão capazes de procurar soluções e encontrar novos mundos. Parece-me que os Portugueses têm no seu ADN esta capacidade. Todavia também têm no seu ADN um conjunto de características que impedem que estas conquistas sejam mais rápidas e eficazes. Entre elas estão a inveja, a cultura dos favores aos amigos por oposição à cultura do mérito, e a pequena corrupção, como é o exemplo de muitos dos estudantes copiarem. Não fossem estas pedras que temos nos sapatos e que minam as nossas instituições e a nossa sociedade em geral seríamos capazes de andar muito mais depressa. Oxalá a crise nos ajude a corrigir alguns caminhos e a atalhar outros pois os próximos 10-15 anos não serão vencidos de outra forma.

[Fotos: Filipe Silva]

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