O insustentável peso do vício

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Dezembro pode fazer-te lembrar muita coisa, mas há duas que estão certamente na lista: o Natal e a passagem de ano. Num mês em que nos são permitidos alguns excessos, lembramos aqueles para quem a comida, as compras e o álcool se tornaram um vício de todos os dias. Falámos com especialistas e tentámos perceber onde fica o risco que não podes pisar.

Onde está a linha que separa umas semanas de ‘loucura’ de um consumo dependente? Quando nos apercebemos que um determinado gosto pode, afinal, vir a tornar-se no nosso pior inimigo?

Quando falamos de comida, não é fácil percebê-lo. O Natal pede-a em grandes quantidades, é certo, e com direito a generosas doses de açúcar, mas “as dependências alimentares são ainda um conceito mal definido”. Quem o diz é Miguel Ângelo Rego, nutricionista, Lifestyle Coach e especialista em obesidade, ao mesmo tempo que lembra que “não existe evidência de que as pessoas desenvolvam dependências alimentares”. Mas o também aluno de Doutoramento da Faculdade de Desporto da Universidade do Porto (FADEUP) admite comportamentos próximos do vício, especialmente naquilo a que se chamam “alimentos de conforto”, como o chocolate.

Em pó, em barras, preto, branco ou castanho, o chocolate pode ser porto de abrigo em caso de stress, alterações hormonais ou devido à sua própria composição, capaz de produzir “uma sensação de prazer e relaxamento”. O problema é mais grave quando o motivo para comer chocolate (ou qualquer outro alimento) se torna profundo.

Foi o que aconteceu com Marta (nome fictício), jovem que encontrou em Miguel Rego o aconselhamento profissional de que precisava. Já próxima da “bulimia nervosa”, Marta “tinha uma baixa autoestima, um discurso muito negativo em relação a si própria e ao seu peso e imagem corporal e um padrão alimentar muito irregular”. A falta de pequeno-almoço era preocupante e as longas horas sem comer eram compensadas por “episódios recorrentes de voracidade alimentar”. Incapaz de controlar o que comia, precisou primeiro de tomar consciência do seu dia-a-dia alimentar para depois ser ajudada.

E proibir não foi a solução: “como os doces sempre foram alimentos muito importantes, fomos criando as condições para que ela experimentasse o sabor doce, mas sempre numa perspetiva de controlo flexível, compensando o consumo de alguns alimentos com uma sessão de exercício da sua preferência”. Apoiada por família e amigos, perdeu 25 quilos e ganhou uma nova vida.

Miguel Rego
Miguel Rego dá-te conselhos para controlar impulsos alimentares.

O lugar do ego

Se muito do teu bem-estar depende do que pões no estômago, Miguel Rego dá-te algumas dicas, especialmente úteis para esta altura do ano. Os passos são simples, mas “têm de ser treinados com determinação”.

O primeiro é “registar tudo o que se come e bebe num diário alimentar”, o que te permite tomar real consciência sobre o que ingeres em cada dia. O “controlo de estímulos” é também fundamental e pode ser apoiado pela dica número um: apontares o que comes ajuda-te a perceber as emoções, locais, pessoas ou situações que te estimulam e “despoletam a ingestão desequilibrada de certos alimentos, como os alimentos de conforto”. Assim, podes controlar melhor os impulsos.

Os dois últimos conselhos de Miguel Rego exigem mais do que apenas tu e a tua mente: “mimo” e “amigos”. Ainda que o mimo possa vir de experiências positivas como o desporto (“o exercício físico praticado com regularidade pode servir esta necessidade de controlo e evasão, que poderá reduzir a necessidade de encontrar na comida o refúgio para os momentos mais difíceis”), os amigos são um pilar fundamental rumo ao sucesso. A família está aqui incluída, porque o importante é “ter alguém em quem podemos confiar para nos ajudar”.

Comprar até não poder parar

O apelo para que faças compras é diário e nem precisamos do Natal para o constatar. A quantidade de produtos que somos obrigados a comprar para manter os níveis de consumo a que nos habituámos também é grande. É por isso que não é fácil separar um comprador que comete alguns excessos de um compulsivo, também conhecido por shopaholic ou oniomaníaco.

Ana Cristina Martins, psicóloga e professora no ISPA – Instituto Universitário, alerta para a importância de haver alguém capaz de identificar o problema, já que “na esmagadora maioria dos casos, os compradores compulsivos, sejam jovens ou pessoas de outras faixas etárias, não são capazes de o fazer por si só”.

Para que este não seja o teu caso, reflete sobre os comportamentos apontados pela professora universitária como possíveis indícios de um vício pelo consumo:

  • Já alguma vez sentiste a necessidade, impossível de controlar, de fazer uma compra, independentemente do valor ou do produto em questão?
  • Fizeste “despesas supérfluas e que se situam muito acima do valor dos rendimentos pessoais”?
  • Acumulaste no quarto um sem-fim de peças que nunca usaste mais do que uma vez?
  • Gastaste mais do que aquilo que realmente podias?
  • Fizeste compras como forma de responder à tristeza ou à depressão?
  • Mentiste ou ocultaste compras, valores ou dívidas daí decorrentes?

Mesmo juntando as peças, lembra a professora, os shopaholics têm à disposição “diversos argumentos de que se vão munindo para justificarem, a si próprios, as compras que fazem”. É o passo que não deves tomar.

ACM
A docente do ISPA fala em ultrapassar a vergonha.

Rita Moura é psicóloga clínica e garante que “a dependência das compras pode andar vários anos mascarada sob a égide de um ‘hábito’ comum, engraçado e inofensivo, enquanto não forem contabilizados os valores totais despendidos neste ‘simples hábito’”.

Despe-te de cartões

Rita Moura lembra a “nudez” que sentem os compradores compulsivos quando se veem sem o cartão de crédito. Estará aí uma forma de combater o problema? Ana Cristina Martins diz que sim.

Mas “o principal conselho é pedir ajuda a pessoal especializado, seja para o dependente seja para o seu círculo familiar que muitas vezes é ‘arrastado’ para este problema”, afirma Rita Matos. A partir de um certo ponto, as compras passam para o topo das prioridades dos dependentes, que deixam tudo de lado e ficam “completamente impotentes para travar a ação de comprar”. É preciso agir, antes de reagir.

Para Ana Cristina Martins, estas pessoas precisam de “ultrapassar a vergonha que possam vivenciar, típica deste tipo de quadros” e não se permitir a desculpas como “foi a última vez”. “Importa que tenham presente de que se tratam de promessas enganadoras, que apenas servirão para perpetuar a situação e para, assim, agravar o quadro”, conclui a especialista.

Viver para contar

Em 1997, Rita Moura estava a começar o trabalho como psicóloga clínica. Terminava o estágio de aperfeiçoamento em Groningen, na Holanda, quando se cruzou com E., um rapaz de 21 anos, o último dos quais passado no internamento. Para além das compras, E. tinha-se tornado dependente do álcool e do jogo – “contou-me ser diabético, e que a dependência era de tal forma intensa que deixou de cuidar dele, não medindo os valores nem ministrando a insulina da qual era dependente”. A vontade de viver deu lugar à dor (“não lhe importava mais se vivia ou não”), até que entrou em coma “por descompensação diabética grave e infeção dos membros inferiores”. Só a perda de controlo sobre a própria vida o levou a aceitar ajuda para o tratamento.

Muitas vezes associada a um vício menos ‘pesado’, a dependência das compras é caso sério e não deve ser subestimada. “Infelizmente, há muitas histórias”, acrescenta Ana Cristina Martins. E que até têm o sucesso como casa de partida.

A professora partilha o caso de um homem perto dos 50 anos que “conseguiu uma posição financeira extremamente favorável, a qual lhe permitiu fazer investimentos num determinado domínio” (não revelado para assegurar o anonimato). O problema foi quando os ‘investimentos’ deixaram de o ser, quando a aposta não mostrava “razão”, “lucidez” ou “autocontrolo”. Mesmo quando o mercado não pedia, o homem comprava. “Seguiram-se os empréstimos, as dívidas, os empréstimos para pagamento de dívidas…”, numa história igual a muitas outras. “A família apercebeu-se tardiamente e o divórcio sucedeu-se à devastação financeira e social”, recorda Ana Cristina Martins. O suicídio foi a única saída para alguém que dormia com um “sentimento de arrependimento tremendo” e que era incapaz de suportar “o peso da culpa que carregava por se considerar o causador de todo o sofrimento da mulher e filhos”.

Anonimato
A vergonha e o sentimento de culpa ocupam-se diversas vezes dos dependentes.

Mão cheia de copos vazios

Um desinibidor, capaz de ‘quebrar o gelo’ em qualquer situação, e sempre pronto a mostrar-nos o lado mais colorido da vida, o álcool é uma companhia por vezes perigosa. No dia em que 2013 bater à porta, muitos jovens estarão a ocupar-se dele e, por isso, nunca são demais os alertas.

João Alexandre Rodrigues é conselheiro em comportamentos aditivos e usa as estatísticas para avisar que Portugal tem muito por onde se preocupar – “estima-se que existam, em Portugal, um milhão de bebedores excessivos e oitocentos mil alcoólicos”. E porquê?

A facilidade de acesso ao consumo e a sua não proibição parecem ser fatores decisivos para os excessos. No caso dos jovens, os abusos levam por vezes à má relação com pais e familiares, bem como à quebra no rendimento escolar. Por isso, João Alexandre Rodrigues chama a atenção para o fenómeno do binge drinking.

O binge drinking consiste no “abuso da ingestão de bebidas alcoólicas, num período reduzido de tempo, cuja principal intenção é a embriaguez”. O especialista coloca a meta nas cinco ou mais bebidas para o caso dos homens e nas quatro ou mais para as mulheres. A condução sob efeito de álcool, a violência, o abuso sexual, as doenças sexualmente transmissíveis ou o coma alcoólico podem ser os passos seguintes deste fenómeno, numa altura do ano especialmente propícia.

JAR
João Alexandre Rodrigues é conselheiro em comportamento aditivos.

“Ninguém escolhe ser doente”

Para o especialista, é preciso quebrar barreiras e mitos em relação à doença. Ser dependente “não é um ato voluntário” e não pode significar “ser marginal, ser fraco” ou “ovelha negra”. Tal como com outras doenças, é possível haver recaídas, que devem ser encaradas como forma de chegar à solução.

“Infelizmente, ainda é um mito, derivado ao estigma, à negação e à vergonha, que o tratamento em regime residencial de internamento, em contextos terapêuticos específicos e orientados para o alcoolismo, não resulta”. Para João Alexandre Rodrigues, este é um investimento com resultados à vista.

Que o diga Carlos (nome fictício), que aos 28 anos começou a conjugar o verbo ‘renascer’: “posso dizer que nasci duas vezes; ao que parece, todos os nascimentos são dolorosos, e comigo também foi assim”. Descobriu o álcool e as drogas quando tinha “uns 13 ou 14 anos, incitado por um novo grupo de amigos”. Passado pouco tempo, Carlos concluía que “todas as frustrações ou dificuldades que pudesse ter deixavam de existir, como que por magia”. “Curtir” era a palavra de ordem rumo à autodestruição.

Felizmente, Carlos ainda foi a tempo de tirar outra conclusão: “com a ajuda da família, de terapeutas afeiçoados e através dos grupos de ajuda mútua, passei a acreditar que afinal era possível viver e ser feliz sem ter de usar drogas e álcool”.

[Fotos: depositphotos ©; literaturamundana.blogspot.com; enviadas pelos entrevistados]

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