Bacalhau nos dentes…

0
683

E nos ossos também. Não damos conta do que acontece a muitas pessoas no fim de comerem este apetitoso peixe (sobretudo agora, em época natalícia), falamos antes da mais recente investigação da Universidade Católica Portuguesa (UCP) do Porto, que descobriu uma forma natural e amiga do ambiente de usar espinhas de bacalhau na produção de implantes ósseos e dentários.

Levada a cabo pela Escola Superior de Biotecnologia (ESB) da UCP, a investigação foi desenvolvida em parceria com as empresas Pascoal & Filhos S.A. (especialista na indústria da pesca e transformação do pescado) e WeDoTech (especialista na implementação de tecnologias inovadoras), tendo a Universidade de Aveiro (UA) participado nalgumas fases do estudo, através do Centro de Investigação em Cerâmicos e Materiais Compósitos (CICECO).

Quanto à aplicação efetiva das espinhas de bacalhau na área da saúde, esta apenas é possível devido à hidroxiapatite – um fosfato de cálcio que é o principal componente dos ossos humanos e animais e que se encontra igualmente nas espinhas do ‘fiel amigo’.

Paula Castro, investigadora da ESB da Católica Porto e coordenadora da investigação, explica que até pelas implicações no organismo humano que os derivados bovinos têm, a escolha de subprodutos derivados do bacalhau se justificou pela sua relação íntima com o povo português: “Além de ser algo tradicionalmente português, há muito processamento industrial de bacalhau em Portugal, o que nos deixa muito subproduto disponível e com valores na ordem dos 40%. Estamos, por vezes, a falar de toneladas produzidas por dia…”. A investigadora acrescenta que esta passa a ser mais uma forma de aproveitar o que resulta em subprodutos do bacalhau (espinhas, peles, cabeças, entranhas…) e, muita vezes, em apenas resíduos: “embora haja algumas saídas para esses subprodutos, nomeadamente a farinha de peixe, o potencial de valorização não está de todo a ser utilizado”.

O Ambiente também agradece

Além da aplicação na saúde, a hidroxiapatite pode ser também utilizada no tratamento de águas residuais, incluindo a remoção de metais pesados, como o chumbo, ou a degradação de poluentes orgânicos, como corantes. Tendo em conta que atualmente a maioria da hidroxiapatite utilizada nestes domínios é sintética, o processo desenvolvido pela Católica Porto é inovador, por conseguir a extração da hidroxiapatite a partir duma fonte totalmente natural, aponta Paula Castro: “O composto principal das espinhas de bacalhau é 60% de hidroxiapatite e a própria hidroxiapatite é um fosfato de cálcio (componente principal dos ossos humanos), por isso é que a hidroxiapatite é utilizada como biomaterial no fabrico de próteses… O que é preciso é processar isso tudo, por forma a extrair essa hidroxiapatite e nós conseguimo-lo naturalmente através dum subproduto alimentar, o que faz a diferença no mercado”. A investigadora refere ainda que – além de aproveitar material que podia ter como fim último apenas o desperdício – esta alternativa garante o reaproveitamento de fósforo, um elemento cuja utilização crescente coloca em causa a sua disponibilidade no futuro: “a hidroxiapatita é composta, sobretudo, por cálcio e fósforo e a nossa sociedade está a utilizar o fósforo duma forma tão exacerbada que põe em causa a sua utilização no futuro – como acontece nos fertilizantes agrícolas, por exemplo. Esta investigação aproveita o fósforo que está na hidroxiapatite das espinhas sem ter de o ir buscar a outra fonte, o que é muito importante em termos ambientais e de sustentabilidade”.

Bacalhau
Esta passa a ser mais uma forma de aproveitar o que resulta em subprodutos do bacalhau (espinhas, peles, cabeças, entranhas…) e, muita vezes, em apenas resíduos.

Hidroxiapatite para que te quero

As espinhas de bacalhau resultam em hidroxiapatite através dum processo simples de calcinação a temperaturas elevadas (entre 600 e 1250ºC). Este método permite a eliminação da matéria orgânica presente nas espinhas, resultando na obtenção dum material que se distingue pelos elevados níveis de pureza e cristalinidade. A investigação demonstra ainda que, tratando as espinhas em soluções apropriadas antes da calcinação, é possível preparar materiais com composições diferentes e dirigidas a aplicações específicas. Testes realizados com estes materiais revelaram um nível de biocompatibilidade concorrencial com outros produtos comerciais à base de hidroxiapatite.
Para chegar a estas (e outras) conclusões, a equipa multidisciplinar de investigação onde Paula Castro se insere contou com membros de áreas tão diversas como Ambiente, Engenharia Alimentar, Ciência dos Materiais, entre outras interligadas com o ramo da Saúde.

[Foto: ESB e CICECO]

Partilhar

Comente este artigo

Please enter your comment!
Please enter your name here

*