Tiago Bettencourt abre o baú

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Acústico

Ao fim de 10 anos de carreira, Tiago Bettencourt, músico de projetos mil, quis voltar a pisar as pegadas que deixou no caminho. Gravado ao vivo, “Acústico” é um álbum que vai de sucessos como “Carta”, “Laços, “Chocámos tu e eu” ou “Canção Simples” a versões de Carlos Paião e António Variações. Os convidados não faltaram, numa espécie de best of de um dos compositores mais influentes da sua geração.

1 – De onde é que surgiu a vontade de fazer um álbum que percorresse todo o teu trabalho?

Tiago Bettencourt (TB) – Foi uma proposta que me fizeram. Acho que tinha um bocado a ver com o facto de eu ter muitos projetos (Toranja, Mantha, Tiago na Toca). Seria um CD que iria, no fundo, orientar todo o meu trabalho. E como não tinha nenhum CD ao vivo, achei que era engraçado fazer uma coisa um bocadinho inspirada nos MTV Unplugged, dos anos 90.

Fazer desse álbum de orientação para o público um momento especial e com convidados.

2 – Uma das músicas é um marco enorme na tua carreira, a “Carta”. Apesar do sucesso, nunca sentiste a tua imagem demasiado ‘colada’ à música, a face menos boa do fenómeno?

TB – Sim, senti isso muitas vezes, senti que nos limita a certa altura, no resto do nosso trabalho. Apesar de que essa música chegou a um público que ninguém estava à espera. Nós até chamávamos ‘os carteiros’ aos que iam aos nossos concertos só por essa música.

Fomos tocar a alguns meios mais rurais e a verdade é que se não fosse essa música nunca teríamos ido.

3 – Mas era esse o objetivo da “Carta”? Usar uma fórmula, se é que ela existe, para ter grande sucesso?

TB – A fórmula existe. E acho que hoje, com o pânico de toda a gente querer vender CD’s e de a indústria estar tão mal, temos essa fórmula usada até à exaustão. E ela resulta, as pessoas que usam essa fórmula continuam a ter grande sucesso, não só em Portugal, como em todo mundo. Acho que só facto de o Justin Bieber ter ganho não sei quantos prémios MTV… [risos] Na minha altura, ganhavam os Nirvana, ganhavam os Blur, pessoas que estavam a quebrar barreiras. Agora não, mas isso acaba por deturpar o que a música devia estar a fazer.

Eu tento não seguir e acho que a “Carta” não segue nenhuma dessas fórmulas, portanto, foi um bocado surpresa.

Quando saí dos Toranja e passei para os Mantha o público mudou um bocado e se calhar ficámos com um público mais fiel e que não estava lá só pelos hinos. Estas músicas ensinam-nos a perceber qual é o nosso público e quem é que está só de passagem.

Carta

4 – O fim dos Toranja veio nessa sequência?

TB – Foi um processo natural. Acho que, a certa altura, tínhamos ideias diferentes do que queríamos que os Toranja fossem e, antes que fizéssemos alguma coisa que não fosse tão boa quanto a que tínhamos feito, achámos que era um bom momento para parar.

5 – A maioria das canções do “Acústico” foi escrita por ti. Achas que as pessoas te associam especialmente à qualidade ou à força das letras? Agrada-te a ideia?

TB – Acho que é tudo muito importante. Sou influenciado por músicos como Bob Dylan, Neil Young,… Nesta onda meio de cantautor, em que as letras são muito fortes. Por isso, sim, claro que me agrada que as pessoas se identifiquem com as letras.

6 – Depois tens convidados especiais, Lura e Jorge Palma. Porquê a presença destes artistas no álbum?

TB – A Lura e o Jorge Palma são artistas que eu admiro muito e que quis ter ao meu lado nesta altura.

Coincidência ou não, a primeira gravação que fiz em estúdio foi o “Fome demais” com os Toranja e o Jorge Palma tocava piano. Acho engraçado, agora que estou com 10 anos de carreira, poder fazer pela primeira vez um dueto com ele ao piano, mas a cantar também. É uma grande honra para mim poder ter isso registado neste CD.TiagoBettencourt

7 – Por falar em música portuguesa, ela está melhor ou pior do que quando começaste? É mais divulgada e conhecida agora? Antes era mais difícil chegar ao público?

TB – Não posso dizer que era mais difícil, porque para mim não foi, se calhar porque não havia muita gente a cantar em português, era um bocado novidade. Mas por outro lado, a imprensa também era muito mais fechada e fomos muito atacados. A imprensa um bocado mais intelectual que se calhar não gosta da ideia de nós vendermos discos.

Acho que hoje há uma corrente enorme de novos artistas a cantar em português, novas bandas muito competentes. E há abertura para coisas mais alternativas. Falta só a essas bandas conseguirem dar o passo para um público mais abrangente. É difícil manter um nicho em Portugal.

8 – Foste estudante universitário. Que importância teve essa fase no início da tua carreira musical?

TB – Comecei a fazer música por causa de um colega de turma, que me convenceu. O curso foi uma fase importante e acho que é sempre uma boa base. É importante ter um curso seja ele qual for, para nos dar estaleca e conhecimento de mundo. A Arquitetura deu-me uma visão mais abrangente de várias artes.

Eu estou cheio de vontade de voltar a fazer um curso para exercitar o cérebro e para me tentar ultrapassar. Não há coisa melhor que estudar.

9 – Qual era a melhor prenda de Natal que podias pedir?

TB – Gostava que as pessoas recebessem bem este álbum, acho que é bom para fazer parte da biblioteca, se calhar até de um público mais abrangente. É um CD de família, até natalício. Queremos voltar à estrada, ter muitos concertos, que é aquilo que gostamos mais de fazer.

Mas estou sempre cheio de vontade de gravar originais.

[Fotos: Universal Music Portugal]

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