“Passos, escuta, os estudantes estão em luta”

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A maioria gritou frases de revolta, tais como “Dói a propina, dói”“Já agora, levem-nos as cuecas!”, “Passos, leave the kids alone”, “Propinas e Bolonha é tudo uma vergonha” e “Para a banca são milhões, para o ensino são tostões”, mas outros estudantes do Ensino Superior houve que fizeram da ironia a sua melhor arma, organizando em plena manifestação uma espécie de festa (com confetis e tudo), em que agradeciam ao Governo tudo o que tem feito: “Não queremos nada, está tudo bué porreiro!”.

Em sinal de protesto contra as propinas que não param de aumentar, uma Ação Social que não chega, a corrida aos pedidos de empréstimo bancário e o corte do passe escolar, estudantes do Ensino Superior de todo o país vieram para a rua. Munidos de cartazes, os já acostumados megafones e muito ar nos pulmões para gritar bem forte, a manifestação juntou, na Rotunda do Marquês de Pombal, em Lisboa, várias centenas de universitários preocupados com o rumo educativo do país, caso o Orçamento de Estado avance com os cortes anunciados.

Manif Marques
Depois do Marquês, os manifestante rumaram à Assembleia da República.

“Estudo em Lisboa mas sou de longe, o que me faz preocupar com o atraso das listas de bolseiros que, em finais de novembro, ainda não saiu”, refere Ana Macedo, estudante de História da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL), ainda preocupada com o aumento das propinas. Ao lado, e segurando o mesmo cartaz, Beatriz Brás, estudante da mesma universidade mas do curso de Ciências da Cultura e Comunicação, refere que este ano lhe baixaram em 100 euros a Bolsa de Estudo – o que dificulta ainda mais a gestão do orçamento familiar: “Cortaram-me a bolsa e as propinas continuam a subir… Assim não dá, sobretudo agora que tenho o meu pai desempregado”.

Ana e Beatriz FLUL
Ana Macedo e Beatriz Brás preocupam-se, sobretudo, com os cortes nas Bolsas de Estudo.

“Eu também ainda não sei se sou bolseira”, acrescenta igualmente Adriana Bogalho, estudante de Psicologia da Universidade de Évora (UE), muito indignada com as alterações de preço, agora que deixou o Secundário: “Como caloira, pesam-me muito no bolso os preços praticados pelos bares e cantinas na Universidade… É uma diferença gigante, em relação aos preços que havia no Ensino Secundário”.

Adriana UE
Comer nos bares e na cantina é muito caro, queixa-se Adriana Bogalho.

Luís Monteiro estuda Arqueologia na Faculdade de Letras da Universidade do Porto (FLUP), pertencendo ainda ao Departamento de Ação Social. “A Academia do Porto é a que possui mais candidatos do país, logo a que possui maior número de bolseiros, o que faz com que as situações de atraso e corte nas Bolsas de Estudo se agrave. O ano passado, por exemplo, estávamos em março e ainda não sabíamos os resultados… E quando passámos a saber, chegámos à conclusão de que havia menos 30 mil bolsas. Isto é preocupante”.  Munido de megafone, Luís refere ainda que a qualidade dos cursos tem diminuído a olhos vistos: “há casos em que alguns docentes vão para a reforma e não são depois substituídos, havendo cadeiras lecionadas por eles que acabam por fechar”.

Luis FLUP
Luís Monteiro fala dos atrasos e dos cortes na Ação Social.

Da Universidade do Algarve (UAlg) também chegaram algumas queixas e muitos medos motivados pela declaração do Reitor da instituição: “foi-nos dito que se os cortes previstos neste Orçamento de Estado avançarem, a UAlg não vai ter mais remédio senão fechar as portas. Que vamos nós depois fazer? Nem sabemos se nos deixam acabar o curso noutra instituição. Estamos muito inseguros quanto ao nosso futuro”, referem os alunos.

Alunos UALG
Estes futuros farmacêuticos da UALG temem o Orçamento de Estado e as suas implicações na instituição onde estudam.

Estudante de Ciências da Comunicação na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa (FCSH – UNL), Steve Gracio diz não se poder queixar, pois teve direito a bolsa e a residência universitária. No entanto, uma manifestação também se faz de solidariedade, explica: “Não ia ficar em casa enquanto os meus colegas estavam aqui a lutar pelos seus direitos. Sei que há muitos estudantes que passam por dificuldades sérias por causa do aumento das propinas e dos passes e não sou egoísta ao ponto de não me revoltar com essa situação”. 

Steve FCSH
A solidariedade para com os seus colega trouxe Steve Gracio à manifestação.

“É o fim dos descontos no passe, é o aumento das propinas… Está cada vez mais difícil conseguir acabar um Curso Superior nestas condições. Não há quem aguente tantos aumentos”, lamentam Joana Gomes e Marta Martins, estudantes de Educação Social na Escola Superior de Educação do Instituto Politécnico do Porto (ESE-IPP).

Joana e Marta
Joana Gomes e Marta Martins deixam bem claro o que querem dizer ao Governo.

“Eu pagava 18 euros de passe agora pago 30. Se me custa? Ah pois custa… Todos os meses”. Além do preço dos passes escolares, que agora deixam de ter desconto, os lamentos de Filipa, Marisa Cardoso e Ana Luísa Correia, estudantes de Ciências da Comunicação da Universidade de Trás-os-Montes e Alto Douro (UTAD), prendem-se com o valor das propinas e os resultados das Bolsas de Estudo, que se conhecem cada vez mais tarde.

Alunos UTAD
As alunas da UTAD querem saber os resultados da Ação Social mais depressa.

Luís Pinheiro estuda Psicologia na Universidade do Minho (UMinho) e mostra-se incrédulo com os anunciados cortes na instituição, a rondar os 9,6%: “Já nos foi dito que isto pode significar o fim de Cursos Pós-Laborais, o corte no corpo docente e o fim do aquecimento – o que em Braga significa virmos a passar mesmo muito frio”. As colegas da UMinho Marília Laranjeira, aluna de Estudos Portugueses e Lusófonos, e Ana Cláudia, estudante de Línguas e Culturas Orientais, apontam ainda o perigo que foi a recente redução do número de autocarros junto às residências universitárias. “Há cursos com aulas até às 22h e o último autocarro passa às 20h. Como esta é uma zona perigosa à noite, estamos apreensivas, claro”.

Alunos UMinho
Luís Pinheiro, Marília Laranjeira e Ana Cláudia vieram da UMinho falar dos problemas que já existem… E dos que se avizinham.

Enquanto a maioria gritava a plenos pulmões (à falta de megafone), um grupo de alunos do Curso de Teatro da Escola Superior de Teatro e Cinema do Instituto Politécnico de Lisboa ((ESTC-IPL) resolveu inaugurar a chegada à Assembleia da República com confetis e fitas coloridas de Carnaval, montando uma verdadeira festa com saltos e gargalhadas de felicidade – o que depressa captou a atenção de todos os meios de comunicação social presentes. O motivo de tanta alegria? “Não queremos nada, está tudo bué porreiro!”, diziam alguns, “Passos, és o meu melhor amigo”, comentavam outros e até “Mete Like no Governo!”. 

ESTC
Alunos da ESTC muito ‘contentes’ com as medidas levadas a cabo pelo Governo.

De sorriso estampado na cara e de cartaz na mão “Obrigada, Governo”, a aluna da ESTC que se faz chamar ‘Cardetas’ explicou que o motivo da sua boa disposição não podia ser outro: “Estou super feliz com o nosso Governo, que é ótimo. O preço das propinas é super barato (acho até que deviam aumentar), tenho cinco carros e não preciso de transportes nem de passes e vim, por isso tudo, dizer que estou muito feliz com a minha condição de estudante”. Juntando à ironia o talento de representar, outro aluno gritava ainda: “O Governo já nos disse que vamos ser todos atores e que temos todos emprego garantido no fim do curso. Eu até estava a pensar em emigrar, mas o Passos veio ter comigo e disse-me: ‘não, não, ficas cá, porque nós queremos muito que fiques cá! E também vamos fazer obras no Parque Mayer!”.

AR Manief
Os manifestantes estiveram sempre sob o olhar atento das forças de segurança.

NOTA: A Mais Superior tirou muitas mais fotos. Vê a fotogaleria completa da Manifestação de 22 de novembro aqui. 

[Foto: Bruna Pereira]

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