Quando estudar faz girar o mundo

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Foram curiosos e voltaram apaixonados, deixando de lado os receios e arriscando estudar fora da zona de conforto. Os programas de mobilidade têm vários nomes e várias formas, mas um objetivo comum – pôr o mundo nos olhos de quem estuda. A Mais Superior quis saber o que muda na vida dos estudantes que, todos os anos, decidem alargar as fronteiras do conhecimento.

Mariana Pinto da Costa era feliz no Porto, quer fosse a subir à Torre dos Clérigos, a passear nos barcos com partida da Ribeira ou a descansar numa esplanada na Foz. Não era cansaço, não era infelicidade. Era uma vontade incontornável de arriscar. “O conceito de uma experiência deste género, estudar e viver num contexto diferente, atraía-me”, pensava Mariana, já antes de se tornar estudante de Medicina.

Em 2007/2008 surgiu essa possibilidade, através do Programa Erasmus, um dos mais conhecidos e apreciados pelos jovens universitários. Do Porto, Mariana saltou para Siena, em Itália, com uma enorme vontade de conhecer o que por lá se fazia em termos de práticas médicas. Quis também perceber se eram mais os pontos que aproximam portugueses e italianos do que as diferenças que os separam. Responde assim: “em Siena, persiste um modo de estar mais relaxado, que é atributo dos latinos, o que permite o contacto com a forma de ensino num país com uma cultura semelhante à nossa e com afinidades, não só linguísticas como também sociais”.

Na Facoltà di Medicina e Chirurgia da Università degli Studi di Siena, precisou de se adaptar “a uma certa desorganização administrativa universitária”. Via “pouco pessoal para tratar de muitos assuntos diferentes”, e as dificuldades só lhe punham um sorriso no rosto graças à “simpatia do povo e à sua forma de conviver”, garante Mariana. Fez de Siena, medieval, pequena e acolhedora, a sua cidade e não sentiu problemas em adaptar-se – “a cultura italiana é semelhante à portuguesa, somos povos mediterrânicos e isso nota-se na forma como encaramos a vida”.

Hoje recorda facilmente as longas tardes e as quentes noites sentada na Piazza del Campo ou as pizzas na Mensa de Sant’ Agata, e nem os percalços – “os comboios em Itália chegam quase sempre atrasados” – a conseguem incomodar. “Programas de mobilidade como o Erasmus permitem-nos conhecer outras realidades do ponto de vista cultural e profissional, o que nos leva a ponderar a reequacionar onde e como queremos estar, viver e trabalhar, facilitando a projeção internacional no mundo do trabalho”, remata esta apaixonada pela descoberta que é “estar sozinha num país diferente”.

Palio
As praças em Itália ajudam a unir estudantes de toda a Europa.

Erasmus a dobrar

A experiência de Mariana em Itália mudou-lhe a vida. E talvez não haja melhor maneira de o provar do que contar o que veio a seguir – um novo Erasmus, desta vez no Programa Erasmus Estágios, na Second Faculty of Medicine da Warszawski Uniwersytet Medyczny (é isso mesmo que estás a pensar, a Universidade de Medicina de Varsóvia, na Polónia). Foram oito meses de contacto “com um povo e uma cultura totalmente diferentes, com uma língua muito distinta, o que me levou a situações caricatas, em que fui tendo de improvisar para conseguir comunicar”. Frequentou aulas de polaco, mas o inglês foi sempre boa solução, já que as pessoas, principalmente os colegas e o pessoal médico, não mostram grandes dificuldades com a língua universal.

Espantou-a a organização polaca, “em Varsóvia vivi o chamado ‘choque cultural’”, e a adaptação foi conseguida um passo de cada vez: “na Polónia, nos trams [elétricos] ninguém fala alto e cheguei a ser chamada a atenção para falar mais baixo, quando conversava a níveis claramente inferiores à média do que costumamos registar em Portugal”. As dificuldades não significam que o processo de adaptação tenha sido doloroso, apenas que sentiu “mais vincadas as diferenças entre os dois países, no que se refere à língua, à cultura, ao clima e aos métodos de ensino”. Mas foi por isso que decidiu que o ‘segundo Erasmus’ seria numa realidade distinta das que até ali conhecera.

Por tudo isto, Mariana Pinto da Costa acabou por ser reconhecida com o Prémio do Concurso Erasmus, Histórias de Sucesso – Estudante Erasmus 2 milhões promovido pela Comissão Europeia, representando Portugal e o Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar (ICBAS), da Universidade do Porto, na conferência Erasmus – the way forward and the Green paper on mobility of young people, em 2009, na cidade de Lund, na Suécia.

Lá ou cá não tem dúvidas – “compreendi que as pessoas, apesar de provirem de culturas diferentes, têm desejos semelhantes: viver melhor, ter acesso a cuidados de saúde e serem felizes”. E Mariana também o foi: “estes dois períodos foram experiências irrepetíveis e inesquecíveis vividas no timingpróprio, o que as tornou ainda mais aliciantes, pois motivaram e reforçaram o meu espírito de aventura, de conhecer realidades culturais e políticas tão diferentes, construindo um leque de contactos, colegas e amigos, nacionais e internacionais, que partilharam comigo estas etapas da minha vida, recordando com satisfação pessoal o meu percurso académico”.

Warsaw
Os jantares internacionais são uma oportunidade para ricas trocas culturais.

Palácio com vista para o futuro

Depois da licenciatura em Gestão no ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa, Sara Cartaxo pensou ‘e agora?’. “Já tinha a ideia de envergar mais pelo ramo da hotelaria, mas não me queria cingir a uma licenciatura de Gestão Hoteleira ou mesmo Turismo”. A solução foi candidatar-se a uma pós-graduação em Gestão de Operações de Hotelaria (PGD in Hotel Operations Management), no Swiss Education Group.

A escolha pela Suíça prendeu-se com a quantidade e qualidade da oferta formativa e pela vila de Caux com um ambiente incomparável, “devido ao magnetismo do campus, um palacete situado nas montanhas com vista sobre Montreux e o lago Leman” (Sara desafia os leitores a procurar no Google por Swiss Hotel Management School Caux e comprovarem com os próprios olhos).

A uma Suíça muito cosmopolita, faltou apenas aquela característica tão portuguesa, “o chamado ‘bairrismo’”. Sara encontrou um povo “mais isolado, mais distante” e até o rigor que nos leva a utilizar a expressão ‘como um relógio suíço’ foi rapidamente apreendido: “foi uma das experiências mais intensas da minha vida estudantil, com uma carga horária brutal e imensos trabalhos de grupo e projetos, mas que deu imensos frutos a nível também de experiência, networking e propostas de estágio”. Felizmente, como a vida ainda não é só feita de trabalho, viver em Montreux permitiu-lhe aproveitar “os passeios pela borda do lago”, a beleza da estátua de Freddie Mercury ou da viagem de “comboio até Caux ou mesmo Gilon, com uma vista fabulosa das montanhas e do lago”, o “fondue no ‘Le Chalet’, um dos melhores fondues de sempre!”. “Se eu tivesse de designar um lema para este programa, seria sem dúvida: ‘Work hard, Play hard!’”, brinca Sara.

Palácio
Aqui até o estudo flui melhor.

Definindo-o como uma “experiência extremamente valiosa ao nível de formação sobre as várias áreas de operação de um hotel, as várias facetas da indústria hoteleira, com uma ótima interligação entre a prática e a teórica”, o período na Suíça permitiu que Sara saltasse para a Disneyland Paris (onde está a fazer o estágio necessário para terminar a pós-graduação), tendo já conseguido fechar, logo na primeira semana na capital francesa, “um contrato de ano e meio com uma cadeia hoteleira nos Emirados Árabes Unidos”.

Em Paris está com o que diz ser o melhor de estudar no estrangeiro: as pessoas. “Vim para a Disney com mais quatro colegas da SHMS Caux, uma verdadeira embaixada de quatro continentes diferentes e isso também é outro aspeto de programas como estes: a multiculturalidade”.

Sra Cartaxo
Sara Cartaxo reconhece a comodidade e o bem-estar, mas lembra que foi a recompensa por muito trabalho.

Um oceano de alegrias

Diana Silva atravessou o Atlântico para conhecer esse Brasil que tanto a fascinava. O Programa de Bolsas Luso-Brasileiras, lançado em 2007 pelo Santander Universidades, foi o empurrão que lhe faltava. Também estudante de Medicina, Diana sentia o corpo ferver quando pensava no “clima, na praia e na alegria” que se conhece aos brasileiros. “Eu sempre quis viver num país tropical, de havaiana no pé”, confessa. Ouviu Caetano Veloso cantar a ‘cidade maravilhosa’ e assim escolheu o Rio de Janeiro.

“Esta experiência mostrou-me outra forma de encarar a Medicina, num país com um sistema de saúde ainda em crescimento, com menos recursos técnicos, mas com doentes otimistas e colaborantes”. A hospitalidade e a felicidade contagiante do povo brasileiro foram o que mais a impressionaram, mostrando-lhe que as dificuldades e as discrepâncias sociais não fazem da vida um problema: “’não esquenta não’, ‘tá bom’, ‘deixa rolar’, foram algumas expressões que jamais vou esquecer, ditas por pessoas que estavam em situações de doença grave”. Como estudante de Medicina, não deixou de perceber que os doentes são “muito menos queixosos e resignados”. E resume – “o brasileiro vive o carpe diem, é feliz com pouco, basta chegar ao fim de semana, beber um choupinho (cerveja) e participar numa roda de samba”.

Diana Silva
Que melhor país que o Brasil para viver de “havaiana no pé”?

Rapidamente Diana se sentiu ‘gringa’ (“uma expressão carinhosa para nos alcunharem de estrangeiros”) integrada, uma pessoa capaz de se adaptar aos desafios. “Aprendi a ver a minha casa e os ‘meus’ com outros olhos e a valorizar pequenas coisas que dantes me passavam despercebidas. Cresci, fiquei mais forte, incrementei a minha personalidade”.

Com ela ficarão para sempre a gastronomia, “uma verdadeira perdição, os rodízios, as caipirinhas, a comida dos vendedores de praia, queijo coalho, esfirras, empadas…”, as paisagens, “praias e trilhos dos mais maravilhosos que se possa imaginar” ou os fins de tarde no calçadão a contemplar “aquela paisagem de mar imenso e cenário maravilhoso”.

Diana conclui: “enfrentar o desconhecido faz parte do significado de viver, que é muito mais do que meramente existir. Já dizia Fernando Pessoa, em heterónimos, ‘Assim em cada lago a lua brilha, porque alta vive’“.

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Diana Silva quis “mais do que existir”, viver mais alto.

Alojamento de valor acrescentado

É a primeira grande dor de cabeça de quem vai para fora: encontrar casa pode tornar-se uma tarefa dispendiosa em termos de tempo e de finanças. E o quarto onde vais passar entre seis a dez meses da tua vida não é propriamente um pormenor.

Foi por isso, e por trazerem na bagagem uma experiência de estudo fora de Portugal, que Vítor Laranjeira e Abílio Costa criaram a Riskivector, uma empresa que ajuda os estudantes estrangeiros a encontrar casa em Bragança. “Nós não somos uma agência imobiliária, nem o pretendemos ser”, alerta Abílio. “Uma agência imobiliária medeia entre senhorio e inquilinos, nós preparamos casas para serem habitadas por alunos estrangeiros: colocamos as mobílias necessárias, fornecemos roupas de cama, material de cozinha, eletrodomésticos, etc.”, garante.

A Riskivector procura casa para cada aluno consoante “a escola do Instituto Politécnico de Bragança [IPB] em que o aluno irá ter aulas, a obrigatoriedade de misturar alunos de países diferentes e também de misturar homens e mulheres”. Depois disso, baseando-se na ideia de resource sharing, aluga recursos cobrando uma parte do que eles custariam se fossem comprados.

Abílio exemplifica: “um estudante que compre as roupas de cama, utensílios de cozinha, aquecedor (indispensável numa região fria como Bragança), etc, gastaria um valor muito significativo. Quando lhe alugamos o que chamamos o utilities kit com todo este material gasta apenas um pequena parte desse valor, que mal chegaria para comprar os edredons que incluímos no ‘kit’”. Se pensarmos que quem está fora por um período de tempo definido prefere alugar do que comprar, percebemos que os ganhos vão para todos: alunos estrangeiros, empresa e para o próprio IPB, que “deixou de ter de afetar ao apoio com alojamento parte significativa do tempo e esforço de trabalho do pessoal do Gabinete de Relações Internacionais”.

Para que não restem dúvidas, Abílio deixa a certea: “além do ganho económico, há o ganho cultural e social para uma região que tem a sua população local com uma pirâmide etária cada vez mais invertida”.

IPB
Graças à Riskivector, chegar ao IPB tornou-se mais fácil para os alunos estrangeiros.

Cá dentro também se vê para fora

Estudar no estrangeiro pode fazer do dinheiro a principal barreira. Mariana Pinto da Costa não o desmente, falando da vida em Itália, muito cara porque virada para o turismo; Sara Cartaxo fala da Suíça como “provavelmente, o país mais caro da Europa”; e Diana Silva lembra a subida abrupta do nível de vida no Rio de Janeiro e um pouco por todo o país – “Brasil e gastar pouco é quase utópico e não me refiro a viajar ou passear por lá, mas apenas ao quotidiano”.

Assim sendo, viajar cá dentro pode ser a solução. O Programa Almeida Garrett serve para isso mesmo, promovendo a cooperação entre alunos e instituições de ensino universitário em Portugal. Este programa de mobilidade interna de estudantes do Ensino Superior público universitário tem o seu irmão gémeo no Programa Vasco da Gama – o mesmo conceito, a mesma aventura, mas entre escolas de Institutos Politécnicos.

[Foto topo: Mariana Pinto da Costa]

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