Manobras na redação

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Escreveu o primeiro livro aos 14 anos e aos 16 viu-o publicado pela Papiro Editora. “Suzannah” era só um começo para Ana Margarida Cardoso que não esperou muito mais até ver a sua segunda obra nas bancas – “O Peão Indomável” leva-nos pelos corredores da redação de um influente jornal nacional, onde dois jovens estagiários tentam a sorte no mundo do jornalismo, com a precariedade como pano de fundo. As pressões e os jogos de poder marcam o dia-a-dia atribulado de Ana Luísa e Rui. Ainda assim, para a autora, a vontade de ser jornalista não morreu. E a de manter a veia literária também não.

“Ao escrevermos uma história na primeira pessoa, acabamos por passar os nossos próprios traços de personalidade, porque exprimimos as nossas visões do mundo”. É este o tiro de partida dado por Ana Margarida Cardoso, autora de “O Peão Indomável”, justificando assim as caraterísticas que partilha com Ana Luísa, protagonista do enredo.

Ana Luísa e Rui são dois jovens recém-licenciados em Jornalismo e as suas histórias não te são estranhas: um estágio precário, ainda que num diário de referência, que lhes permite encher o horário e esvaziar o bolso em menos de nada. Quis o destino que se cruzassem pouco antes de iniciarem um estágio no mesmo local e foi ainda mais caprichoso esse destino quando os embrulhou na delicada teia da política e dos jogos entre o poder e o jornalismo. “A história não se baseia em nenhum caso concreto”, garante Ana. “Resultou de muitas conversas que fui tendo com amigos meus que já fizeram estágio, que me contaram histórias, e eu fui criando um imaginário próprio, com situações que podiam acontecer”. E atores políticos a tentar pressionar e subjugar jornalistas são situações que podem acontecer? Ana Margarida Cardoso não tem dúvidas: “com a crise económica, os jornais têm tendência a tornar-se mais subservientes”.

Apresentação Peão
A autora na apresentação de “O Peão Indomável”, com Pedro Santos Guerreiro e José Pedro Marques.

Um amor que não se esquece

As primeiras incursões de Ana Luísa e Rui no mundo do jornalismo foram pródigas em surpresas, para quem mantinha uma ideia muito romantizada da profissão. Afinal, descobriram eles, o sensacionalismo e os jogos de poder faziam parte até do melhor jornal do país. A perceção de Ana Margarida Cardoso não é, para já, nada que a demova de um sonho já antigo: “o mercado está complicado mas mantenho a vontade de fazer jornalismo”. “Sempre foi um interesse meu”, confessa.

Foi por isso que ingressou na Universidade do Minho para cursar Ciências da Comunicação (encontrando-se neste momento prestes a terminar o mestrado em Comunicação Estratégica, na Universidade Nova de Lisboa) e é daí que vem a garra e que acabou por passar para a personagem de Ana Luísa: “não podemos escapar-lhe [à precariedade], não adianta, no fundo, sermos fracos”, alerta. “Temos de lutar contra ela”. Mais ainda se pensarmos que um jornalista deve “insistir, bater às portas, ir atrás das fontes”. O mesmo se passa com os aspirantes – “não basta enviar um currículo e esperar em casa”. Ainda assim, a autora não esquece as dificuldades e diz ser compreensível um certo desapontamento por parte dos jovens, dado o cenário atual, que é o mesmo que serve de pano de fundo à história de “O Peão Indomável”. “Vi um estudo no outro dia que dizia que 69% dos jovens universitários pensam emigrar e claro que isso é preocupante”, lamenta. “Nós crescemos a pensar que íamos ter um bom futuro no nosso país e é claro que isto desilude”. Mas visto que “a desilusão também não dá dinheiro”, Ana Margarida Cardoso aponta já ao futuro e um terceiro livro é coisa que não lhe deverá escapar.

RTP Inf 1
O segundo livro da autora, tal como o primeiro, foi alvo de excelente aceitação por parte do público.

Viver para contar

Com “Suzannah” começou, com “O Peão Indomável” parece manter o hábito de ser convidada para dar palestras em escolas básicas e secundárias de todo o país. Ana Margarida Cardoso não rejeita a possibilidade, já que considera fundamental “sensibilizar e incentivar os jovens para a leitura”.

No seu caso nem foi preciso grande incentivo externo, já que a literatura e a escrita a marcaram desde muito cedo. Num “aborrecimento de férias”, quando fazia a pausa entre o 9º e o 10º anos, escreveu a primeira obra, na altura com 14 anos. Só passados dois anos viu “Suzannah” ser publicado e não esquece “todo o processo de escolher a capa, fazer a sinopse”, que a deixou entusiasmada.

Ao segundo livro, “nota-se muita diferença na escrita, que está mais adulta”, para além da “forma de ver o mundo, que também é diferente”. Mantém o gosto pelas light novels“eu escrevo essencialmente light novels– e quer provar aos mais novos que a idade não é tudo quando se tem uma forma muito própria de estar na vida. “O Peão Indomável” foi apresentado no passado dia 8 de junho, com a presença de dois nomes fortes do jornalismo nacional – Pedro Santos Guerreiro, diretor do Jornal de Negócios, e José Pedro Marques, coordenador de informação da RTP Informação.

Ana vai à escola
As apresentações nas escolas são uma forma de dar a conhecer as obras, mas também de promover a leitura.

[Fotos: Ana Margarida Cardoso]

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