Uma paixão e duas rodas

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É a pedalar que Dinis Ramos, o rapaz da Gafanha da Nazaré que personaliza bicicletas por medida, se vai inspirando e pensando na vida – tarefa facilitada pelo facto de ser designer freelancer, explica este artista dotado também de humor apurado: “sou designer freelancer, ou seja, trabalho para mim. Tenho um patrão porreiro (eu) e um empregado com horário flexível (eu). Isso faz com que tenha o meu próprio horário de trabalho”.

“Todos aqui andam de bicicleta. É claro que uns mais do que outros, mas todas as casas guardam nas suas garagens uma ou mais bicicletas. Cresci com isso sem perceber que era algo bem caraterístico desta zona”. É assim que Dinis – Noca para os amigos – se remonta às memórias mais ternas em torno das duas rodas, um sentimento que nasceu, tal como ele, na Gafanha da Nazaré, em Ílhavo.

O primeiro modelo personalizado surgiu com a vontade de ter uma bicicleta mais própria e mais original. “Gostava de ter a minha bicicleta diferente das outras. E gostava de pintar ao meu gosto. Quando fui estudar para fora, o vício das bicicletas ficou adormecido mas não morto. Quando regressei às origens, rapidamente acordou e voltei a querer ter as minhas bicicletas de certa forma únicas”. Na altura, apenas mudava a cor das bicicletas. Depois de estudar Arquitetura no Porto, Dinis voltou-se para o Design, na Universidade de Aveiro (UA), e foi então que o artista que trazia dentro ganhou ainda mais vida. Passou das bicicletas de BTT e BMX para as bicicletas urbanas, as fixed gear, e foi espevitando as ideias em vários sites de Design e Fotografia. “Rapidamente senti vontade de ter uma. Foi aí que montei uma singlespeed (bicicleta de estrada com uma velocidade apenas) que personalizei ao meu gosto e a que chamei ‘before the bullfight’”.

Bicicleta Noca

“Um menino numa loja de brinquedos”

Se o Pai Natal existir mesmo, num Polo Norte branco e longínquo, Dinis Ramos encaixaria que nem uma luva no papel de ajudante: “Quando ando envolvido num projeto duma bicicleta sinto-me com um menino numa loja de brinquedos. Quando acabo esse mesmo projeto, pedalo com um sorriso de orelha a orelha. O prazer de pedalar em algo que de certa forma criei à minha imagem é mil vezes superior ao prazer que sinto a pedalar numa bicicleta igual a tantas outras”. O brilho nos olhos parece aumentar, e é então que o jovem artesão – ou ‘alfaiate de bicicletas, como começa a ser conhecido nos media -, lança a frase: “Um homem nunca tem demasiadas bicicletas. Tem é pernas a menos.”

Bicicletas para todos os gostos

Começou por aceitar personalizar as bicicletas dos amigos. Com a magia da Internet que torna o mundo mais pequeno, Dinis Ramos foi sendo contactado por gente de todo o mundo, curiosa com as bicicletas personalizadas que iam aparecendo na galeria do facebook deste rapaz. E embora na cabeça dele nunca tivesse passado a ideia de negócio, confessa, até porque não gosta nada também da palavra ‘encomendas’ – prefere antes chamar-lhe ‘pedidos’ ou ‘abordagens’ –, Dinis tem tido muito trabalho pela frente e até já lhe pediram também para fazer 50 réplicas duma das bicicletas que fez para si… Mas recusou. “Digamos que é algo difícil de recusar, mas foi coisa que fiz quase automaticamente. Estar a replicar algo que fiz para mim, ao meu gosto, à minha imagem, é estar a mentir-me… É algo que por muito vantajoso que fosse para mim (numa lógica puramente comercial) ia adormecer a paixão que tenho em fazer bike a bike”. O artesão admite ainda que nunca fez nenhuma bicicleta com o intuito de a vender: “Nunca encarei a coisa como negócio mas sim como paixão. Só me envolvo em projetos com os quais me identifico. Só assim me consigo apaixonar pelos mesmos. E só consigo ter uma paixão de cada vez…”

Bicicleta NOca2

Para todos verem os trabalhos que o Noca tem feito em torno das duas rodas, está já a ser preparado um site, que o designer não sabe ainda quando vai estar pronto, mas até lá fica a dica: “No meu facebook, na galeria de fotos ‘my bikes’, tenho um pouco de tudo aquilo que já fui fazendo. Se procurarem por “Noca Ramos” no facebook irão encontrar um maluco que está sempre a partilhar fotos das suas bikes, assim como desenhos que vai fazendo (outra das minhas paixões)”.

A dupla com o Senhor Valdemiro

Quando se lhe pergunta quanto tempo demora a fazer uma bicicleta, a reposta é um engraçado “uuuuuuuuuuuuuuuuuui!”, pois “cada projeto é único” e “depende de muitas variáveis”. Defensor da lógica ‘cada macaco no seu galho’, Dinis explica que o projeto da bicicleta (conceito, geometria, etc.) é ele que faz. Depois, quando se trata de fazer um quadro de raiz, recorre ao Senhor Valdemiro – um dos últimos construtores de bicicletas de Ovar –  para lhee soldar tubos (aço ou alumínio) que Dinis escolhe de acordo com o esquema que lhe apresenta. “Depois vem a fase de preparação para pintura personalizada (fase bastante trabalhosa mas que faço questão de fazer). A arte final (pintura em estufa) é feita por um amigo pintor profissional que me garante uma qualidade superior (sim, sou ‘estupidamente’ perfecionista). Quando preciso de enraiar rodas recorro a um amigo mecânico de bicicletas que, assim como o meu amigo pintor, me garante qualidade no rolar das rodas. Os componentes são algo que eu vou comprando à medida que o projeto vai sendo feito. A bike começa no meu escritório (na fase de projeto) e acaba sempre na minha garagem (montagem final de todas as peças)”.

Tshirt Noca
Para cada bicicleta, pode haver uma T-shirt personalizada a condizer.

E também T-Shitrs!

Atrás das bicicletas veio a roupa de quem anda nelas. Assim, Noca criou ainda uma linha de t-shirts a pensar na indumentária dos ciclistas. “Adoro desenhar e muitas vezes as bikes que crio começam mesmo em desenho. Tenho mandado t-shirts para o mundo inteiro”, termina.

[Foto: Dinis (Noca) Ramos]

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