Por quem cantam as tunas?

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Nem só de setembro vivem as tunas, mas é este o mês em que se podem dar a conhecer aos novos alunos. De aprendizes, nabos ou aspirantes a veteranos, tunos ou batadas vão algumas provas de distância. As tunas há muito que conquistaram um lugar de destaque na vida académica e, masculinas, femininas ou mistas, nunca passam despercebidas. Fomos conhecê-las e perceber o que afinal as faz cantar.

“A festa, os convívios e o ambiente de tuna são fundamentais. Gostamos de nos divertir em conjunto, de festejar sempre que podemos e de animar qualquer espaço onde estejamos”; “a nossa tuna não é diferente das outras, temos lugar para tudo, mas acho que a diversão é o mais importante”; “como grupo de amigos que somos, é natural que a festa surja quando nos reunimos e isto é suficiente”. Ninguém o nega: o divertimento e o caráter lúdico estão para as tunas como os ovos estão para as omeletes. Sem os primeiros, os segundos não existem. O que não significa que as tunas se possam resumir a festas e excessos.

Pedro Bago d’Uva é um dos veteranos da agriculTUNA, do Instituto Superior de Agronomia (ISA), em Lisboa, e garante que ali se procura “acima de tudo, fazer música”. “Essa é a razão primeira da nossa existência. A música possibilita o estabelecimento de fortes laços de amizade entre os membros da tuna”. Sara Gomes, Magister Tunae da Tuna com Elas, sedeada na Universidade dos Açores, concorda que há muito para lá do que se ouve dizer: “a festa e o álcool fazem tanto parte de uma tuna como da vida de um qualquer estudante. Mas a música é o elemento essencial, ninguém vai para uma tuna só porque gosta de beber uns copos”. Na TunaBebes, da Universidade do Algarve (UAlg), a Magister Tunae Susana Guerreiro reforça a ideia: “A festa é muito importante mas não é o que nos define, pois o que nos define é, sem dúvida, aquilo que somos quando estamos em cima de um palco”. Pedro conclui – “a festa surge, mas em segundo lugar”.

E é assim que elas querem ser vistas. Afastando a conotação, muitas vezes depreciativa, que lhes é atribuída, mostram ao que vêm. “Divertirmo-nos em palco”, “animar quem nos está a ouvir”, “passar a ‘mística’ da tuna” e da vida académica aos mais novos e manter uma profunda “dedição à música, que é o motivo pelo qual nos reunimos”.

Tuna ao vivo
As atuações ao vivo são o que distingue as tunas.

Canções da nossa terra

Chegada a altura de percorrer as escolhas musicais de cada tuna, os representantes não hesitam – os temas originais e as homenagens à terra de cada uma são as prioridades.

A Tuna com Elas faz disso uma das principais batalhas. Originária dos Açores, descreve o seu cancioneiro, nas palavras da Maestrina Vanessa Amaral, como “um espirituoso momento académico de nostalgia insular”. A cultura açoriana, diz, é “muito própria” e a sonoridade da Tuna com Elas tenta preservá-la, através “de influências a nível de música regional”, das letras que cantam o “ser açoriano”, o “estar rodeado de mar”, “a cultura e as gentes”. Essa preservação chega até aos instrumentos e assim se explica a aposta na Viola da Terra, “um instrumento da região capaz de produzir as mais belas melodias”. Para além dos já tradicionais viola, cavaquinho, pandeireta e contrabaixo, a tuna açoriana realça os instrumentos que utiliza para a secção rítmica, que incluem um djambé, uma caixa, um bombo, ovos, pratos, caixa chinesa e reco-reco, e com os quais foi capaz de “produzir uma batida fenomenal”. O violino é outro dos instrumentos que gostam de incluir nalgumas músicas, “seja em temas mais alegres, seja em temas mais melancólicos ou melodiosos”. No final, o que conta é o desafio de tocarem temas originais, já que “sabe muito melhor e é muito mais emotivo ouvirmos um público a cantar músicas feitas por nósdo que por artistas que todos conhecem”, concordam Sara Gomes e Vanessa Amaral, respetivamente Magister e Maestrina da Tuna com Elas.

Tuna com Elas
A insularidade é um dos traços de personalidade da Tuna Com Elas.

“A maior parte das músicas que cantamos é da nossa autoria o que na minha opinião tem muito valor”. Susana Guerreiro, Magister Tunae da TunaBebes, tuna mista da Universidade do Algarve, parece partilhar da teoria da homóloga dos Açores – “podermos mostrar algo totalmente realizado por nós é motivo de orgulho”.A principal dificuldade surge com a dependência dos conhecimentos musicais dos alunos que vão chegando e dos instrumentos que estes sabem tocar: “a angariação de novos caloiros, infelizmente, torna-se cada vez mais díficil, sobretudo no nosso Campus, que é um meio extremamente pequeno, onde entram cada vez menos alunos e a probabilidade de entrar alguém com conhecimentos musicais é ainda menor”.

TunaBebes
O sentimento de pertença distingue os que fazem da tuna parte importante do percurso académico.

De Lisboa vem a AgriculTUNA, que vai buscar inspiração à vida nos bairros da capital, pincelada por festas, tradições, encontros, amores e desamores. “A nossa música é muito marcada pela tríade fado, Lisboa e vivência académica”, assegura Pedro Bago d’Uva. Confirmando a importância dos temas originais, Pedro garante não enjeitar a possibilidade de a AgriculTuna dar uma roupagem própria a músicas já existentes. Foi o que fez com a canção Marcha de Alfama, a qual teve “a honra de gravar com João Afonso, sobrinho de Zeca Afonso”, e que é um dos temas que acompanha a tuna desde a fundação. Não esquecendo o ‘outro Portugal’, que é também o seu, a AgriculTUNA criou Ruralidades, tema que serve de introdução ao álbum que lançou (e que se chama, precisamente, “agriculTUNA”). Pedro Bago d’Uva descreve-o assim: “é uma incursão ao imaginário rural– parte integrante dos cursos do Instituto Superior de Agronomia – na intenção de oferecer aos ouvintes uma proposta distinta da habitual ‘música de tunas’, e também uma tentativa de uma forma nova e criativa de olhar para o rural, tão importante nos dias que correm”.

ISA cavalo
A ruralidade marca o cancioneiro da agriculTUNA, que propõe uma nova forma de a encarar.

Para que tudo isto resulte da melhor forma, mantendo uma sonoridade tradicional, a tuna do ISA atribui um papel de destaque ao bandolim, investindo ainda nos cordofones, “a que se juntam percussões simples mas capazes de imprimir profundidade e andamento”. Os coros e a os arranjos de voz ‘uníssonos’ também lá estão, aos quais se juntam alguns apontamentos com instrumentos de sopro. Pedro conclui – “o resultado que procuramos é um som tradicional, mas simultaneamente inovador e progressista, muito peculiar e identitário da agriculTUNA”.

E afinal, de que sexo são as tunas?

As opiniões divergem e os argumentos também. A questão do sexo das tunas faz parte da agenda de muitas delas. Para alguns membros, a definição de ‘tuna’ já pressupõe que esta seja constituída por homens, dada a origem do próprio termo.

Pedro Bago d’Uva explica assim: “historicamente as tunas são de formação exclusivamente masculina. Hoje em dia, apesar do aparecimento de muitas tunas femininas e mistas, algumas com muita qualidade, as tunas masculinas continuam a ser predominantes”. É o caso da agriculTUNA, da qual faz parte: “trata-se do modelo que escolhemos de forma deliberada, por entendermos que é aquele que melhor se adapta à nossa forma de estar”. Um exemplo? “A Serenata ocupa um papel muito importante na vida da nossa tuna e em nosso entendimento só faz sentido executá-la para donzelas e enquanto tuna masculina”.

Tuna Masc
Na agriculTUNA pedem-se homens capazes de impressionar numa serenata às donzelas.

Nos Açores a tendência era a mesma e tunas femininas nem vê-las. Até que nasceu a Tuna com Elas, orgulhosamente a primeira apenas para raparigas: “a ideia de uma tuna exclusivamente feminina surgiu precisamente porque não havia nenhuma no arquipélago, logo, fazia todo o sentido fundar uma tuna só com raparigas”. Quem o diz é Sara Gomes, que não vê especiais vantagens ou desvantagens na questão do género. Aponta objetivos e dificuldades que, garante, nada têm a ver com o sexo da tuna. No entanto, encontra algumas particularidades de uma tuna feminina, no “tipo de praxes, no género de música e de atuação, nos convívios, no traje, entre outras”.

Tuna com Elas
A Tuna com Elas é exclusivamente composta por açorianas. Nasceu à falta de uma tuna feminina na região.

Já Susana Guerreiro defende a posição escolhida pela TunaBebes – de se formar com elementos dos dois sexos -, lembrando que “é possível realizar coisas variadas devido à diversidade de vozes”, o que pode tornar a tuna mista “muito mais equilibrada e a nível musical muito mais interessante”. E acrescenta: “permite que qualquer membro da comunidade académica possa participar, o que facilita também na angariação de novos membros”.

TunaBebes
Rapaz ou rapariga, na TunaBebes o género não conta.

Ano novo, tuna nova

Não será exatamente como diz o título, mas a verdade é que, confirma Susana Guerreiro, “o início do ano é extremamente importante” para as tunas, que nesta fase aproveitam para ‘recrutar’ novos elementos, já que “a entrada de caloiros é absolutamente necessária para que se dê continuidade à tuna e à tradição académica de uma universidade”. Também em termos lúdicos, acrescenta Sara Gomes, “setembro é um mês forte”, com a visibilidade que é dada às tunas por entre festas e receções académicas. Sara dá o exemplo da Algazarra do Caloiro, “em que todas as tunas têm oportunidade de mostrar quem são, como são e como tocam”.

Já Pedro Bago d’Uva lembra que setembro é “o mês das praxes mais generalistas”, mas que não será necessariamente o mês das tunas. Esse “será provavelmente o período abril/maio, em que surgem bastantes convites para festivais, encontros e outras atuações, que são um combustível muito importante e motivador na vida das tunas”.

Mexico - ISA UTL
Nem só de setembro vive a agriculTUNA.

Este mês serve, no entanto, de “preparação da ‘nova temporada’”, que na agriculTUNAfunciona com a organização dos elementos da tuna em três graus hierárquicos: o Nabo – “aquele que acabou de chegar e que, por isso, não está familiarizado com a forma de funcionar da tuna, com o repertório, com os instrumentos tradicionais e com as regras e tradições tipicas” -, o Caloiro – que é o que ascende da posição de Nabo depois de dominar o funcionamento da tuna e que já pode “ir a palco”, estando também responsável por tarefas logísticas, como o transporte ou a manutenção dos instrumentos – e o Veterano – aquele que já passou por um período, “normalmente de dois anos”, de dedicação e empenho em prol da tuna. Para qualquer Caloiro chegar a Veterano é preciso que tenha passado por todo o processo de compreensão das regras para um bom funcionamento e para atingir o necessário espírito de grupo. A passagem é discutida numa Assembleia de Veteranos, proposta por algum desses elementos. Caso a decisão seja favorável, o ex-Caloiro “é submetido a um ritual de passagem muito típico, carregado de simbolismo, em que lhe é concedido o grau de Veterano”.

tuna tratada
Entrar na Tuna com Elas requer alguma ‘habilidade’.

Ainda que mais curto, o processo na Tuna com Elas não é muito diferente. À caloira (sim, que esta é só para meninas, lembras-te?) é feita uma mini audição, para que o resto do grupo consiga perceber o registo de voz e enquadrá-la na tuna. A caloira passa assim a Aprendiz, estando impedida de atuar e de usar traje. Para passar a Batada (e poder fazer tudo isso) “terá que demonstrar muito espírito académico, bem como saber cantar todas as músicas”, avisa Sara Gomes. No entanto, não há uma praxe ou prova específica, “qualquer menina que queira ingressar na Tuna com Elas, já sabe que está sujeita a diversas praxes que servirão para que seja mais fácil a sua integração”.

Na TunaBebes, o candidato chega a Projeto-a-caloiro depois de assistir aos ensaios e ouvir várias vezes as músicas. Este membro usa um traje ‘especial’, que inclui ceroulas, t-shirt branca e a parte superior de um garrafão metida na cabeça. O passo seguinte é, em caso de total dedicação à causa, a passagem para Projeto-a-tuno, altura em que passa a poder trajar normalmente e recebe o emblema da tuna para ser colocado no traje.

Praxe TunaBebes
Também nas tunas se cultivam alguns rituais de receção a novos membros.

Elas ganham vida

O facebook há muito que se tornou fundamental na hora de divulgar eventos como os espetáculos ao vivo e as tunas aproveitam-no como podem. Querem que o trabalho chegue mais longe e a mais gente.

Susana Guerreiro dá o mote – “não podem perder uma atuação nossa porque nos divertimos imenso em palco enquanto tocamos e realmente gostamos do que estamos a fazer e isso transparece para o público”; Sara Gomes desafia – “se gostam de divertir-se, apreciar boa música e um bom espectáculo de frente de palco, então, sem dúvida que não podem perder uma atuação nossa”; e Pedro Bago d’Uva remata – “temos uma sonoridade muito característica que nos distingue. O ideal será mesmo confirmarem com os vossos olhos e ouvidos, comparecendo nas nossas actuações!”.

TunaBebes
Uma atuação “imperdível” da TunaBebes.

[Foto topo: agriculTUNA]

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