Vozes afinadas no hino à nova vida

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“A minha casa eu deixei/ E a família abandonei/ Só pra dizer/ Que até morrer/ Fernando Pessoa te amarei”. É com a adaptação de alguns hinos que costumamos ouvir às claques que enchem os estádios de futebol que os alunos introduzem a Universidade Fernando Pessoa (UFP), no Porto, aos caloiros. E estes, quando a tarde ainda nem vai a meio, parecem ter a lição bem estudada.

Fernando Póvoas é um dos alunos que ocupa o anfiteatro da Faculdade de Ciências Humanas e Sociais da UFP. Acaba de entrar em Engenharia Civil (curso lecionado na Faculdade de Ciências e Tecnologia da UFP), mas é neste polo que está a ser recebido por toda a comunidade: “acho que esta é das semanas mais importantes do ano e estou a achar fantástica a receção”. Considera a cidade do Porto “ideal” para garantir uma boa experiência académica e destaca a UFP pela reputação e pela qualidade de infraestruturas e acessibilidades.

Cristiano Nogueira, há cinco anos na UFP, confirma a ideia de Fernando: “ficámos em primeiro lugar no ranking das melhores privadas e estamos de ‘peito feito’, claro”. Antigo responsável pela Comissão de Praxe, este ano a acompanhar de forma mais informal a semana de receção, Cristiano explica a ideia de juntar todos os alunos no mesmo espaço: “a comunidade da Fernando Pessoa é grande e dispersa os alunos, mas a praxe acaba por agregar”. Aponta, sem pestanejar, que os melhores amigos que fez na universidade “são de outros cursos, de outras faculdades, e se não fosse a praxe isso não seria possível”.

Cristiano
Cristiano Nogueira ‘passou a pasta’ como responsável pela Comissão de Praxes, mas continua muito ligado à vida académica.

Sem espaço para exageros

Abel Silva não é propriamente um novato da praxe. Está no 2º ano de Ciências Empresariais, mas a experiência em cursos anteriores da UFP permite-lhe dizer que a praxe “é quase um vício, como o álcool ou o tabaco”. “Eu tento fugir, mas não consigo”, garante. E porquê? “Temos dezenas de cursos e estamos aqui todos juntos, tentamos criar um bocado uma família”. Tal como Cristiano, quer apagar a imagem que por vezes se espalha em relação à praxe – “nós nunca os incentivamos a beber, é preciso beber com moderação”. “Pode haver aquele momento de relaxe, estar a beber um fininho, agora beber até cair não”, avisa Abel. Cristiano remata: “evitamos exageros, até porque acabam por estragar a festa”.

A t-shirt branca com a identificação nas costas não a deixa mentir. Ana Meireles é uma das novas alunas da UFP e assume que “nunca tinha visto nada assim” e que “as expectativas, para já, estão a ser superadas”. Em pouco tempo, Ana já sentiu o espírito de grupo na altura de “cantar, aprender as coreografias e as saudações aos doutores”.

Cristiano Nogueira explica de onde vem o sentimento de pertença: “os caloiros são quase como nossos filhos, passamos muitas horas com eles, às vezes mais do que os próprios pais”. Integrá-los e ensiná-los a estar na vida de estudante são tarefas para veteranos e doutores. Abel Silva confirma: “se alguém encontrar um caloiro na noite e vir que ele está à rasca, vai lá buscá-lo e levá-lo a casa”. A ideia é especialmente válida no período de praxe: “durante esta semana, ninguém vai para casa sozinho, se for preciso até os vamos pôr à cama”.

Abel Silva
Abel Silva garante que só quer retribuir o que fizeram por ele.

O dia para não mais esquecer

No Instituto Superior de Contabilidade e Administração do Porto (ISCAP) o dia já vai longo quando Tiago Ferreira, caloiro do curso de Comércio Internacional, afirma que, apesar de cansado, se sente recompensado: “fiquei com as expectativas em alta para uma boa vida académica e praxista”. O primeiro dia de receção foi feito “com base na oratória” – segundo Joaquim Lima, Colher de Pau do ISCAP e “líder operacional da praxe” -, e Tiago mostra-se entusiasmado com a sessão de esclarecimentos, apesar do conhecimento prévio que tinha da experiência do pai, ex-aluno do ISCAP.

Tal como Tiago, Patrícia Soares conhece quem tenha estudado no Porto e estava “ansiosa” por seguir os mesmos passos. “Vivia num meio pequeno e queria muito mudar-me para o Porto”, conta Patrícia. Joaquim Lima, como Colher de Pau, assume o papel de veteranos e doutores no processo de adaptação: “queremos criar redes de amizades, que os podem ajudar a arranjar casa, sair à noite…”. No fundo, “fazer desta semana um ponto de partida para as suas vidas académica e letiva”.

E Ana Torres sabe bem como ela pode influenciar o processo: “acho que é das semanas mais importantes, porque estamos todos em pé de igualdade”. Inscrita em Comunicação Empresarial, Ana já teve a experiência de ser caloira noutra instituição e quer aproveitar da melhor forma “o acompanhamento” que os mais velhos lhe vão dispensando. Joaquim é um deles e conclui: “nunca me esquecerei do meu primeiro dia aqui no ISCAP”.

ISCAP
Ana, Tiago e Patrícia com expectativas elevadas depois do primeiro dia no ISCAP.

[Fotos: João Diogo Correia e Paulo Fortunato]

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