‘Piolhices’ de quem tem a vida pela frente

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No Porto, a noite universitária pode ganhar várias formas e contornos, mas é quase garantido que vá incluir o Piolho d’Ouro. Antigo Âncora d’Ouro, o café adotou o nome por que era conhecido entre os estudantes. A designação é alvo de várias teorias, que se espalham no boca-a-boca.

Uma delas é a de que o espaço era demasiado pequeno para tanta gente que ali parava, o que levou os frequentadores a chamar-lhe ‘piolho’. A outra ganhou força por altura do centenário – em 2009, o café completou um século de existência – e reza que os estudantes apaixonados pelo espaço (a maioria do Instituto de Ciências Biomédicas Abel Salazar, da Universidade do Porto, num edifício neoclássico colado ao Piolho) se cruzavam com os professores que também lá paravam para cafés e tertúlias. Como a relação entre alunos e professores era, no mínimo, mais formal que a que hoje conhecemos, uns terão chamado aos outros ‘piolhosos’ ou dito que tudo aquilo era uma ‘piolhice’. Piolho ficou, Piolho será.

Placa Piolho
As placas espalhadas pelo Piolho comprovam a admiração dos estudantes pelo café centenário.

O certo é que a mística nunca mais desapareceu e, como diz Miguel Teixeira, aluno da Cooperativa de Ensino Superior, Politécnico e Universitário (CESPU), sentado numa das mesas do Piolho, “toda a gente sabe ao que vem”. As pessoas “chegam aqui, bebem o seu copito, conversam e vão à sua vida”. Há noites em que o Piolho é apenas o ponto de partida e outras “em que ninguém quer sair daqui”. Miguel é natural de Chaves e percebeu-o bem depressa. Quando a vida de universitário acabar, vai ter “saudades deste convívio”, de todas as horas que dedicou às amizades que nasceram na universidade: “ainda hoje só dormi duas horas, porque tive a preparar a praxe”.

Cristiano Nogueira também o fez no tempo em que liderou a Comissão de Praxe da Universidade Fernando Pessoa e nunca esqueceu o Piolho: “costumamos inclui-lo no nosso cascos-papper, um peddy-paper de tascas”. A carga histórica que lhe está associado e o facto de ser “um espaço agradável”, que promove o convívio, fizeram dele ponto obrigatório no mapa dos caloiros e os “bares aqui à volta aproveitaram”.

A Adega dá uma ajuda

Entre alguns outros, Cristiano refere-se à Adega Leonor. Perpendicular ao Piolho, a Adega apresenta-se, por trás do balcão, com uma série de cachecóis de várias universidades, não deixando margem para dúvidas: “é um bom sítio para fazermos o ‘aquecimento'”. “Hoje começamos aqui e depois seguimos para os Aliados”, conta Cristiano. A Adega Leonor, apesar de pequena, “tem muito espaço cá fora, à volta, e faz com que isto aconteça”. O ‘isto’ de que fala Cristiano é fácil de entender: vários grupos reunidos em amena cavaqueira, religiosamente acompanhados por um copo, normalmente de cerveja, numa das mãos.

Brinde Adega
A cerveja é companhia certa na Adega Leonor.

Joana Marques faz parte de um desses grupos e, natural de Vizela, já se sente integrada. A Adega Leonor, “pequenina, rústica e com bons preços” promete continuar a ajudar.

NOTA: Seja responsável. Beba com moderação.

[Fotos: João Diogo Correia e Paulo Fortunato]

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