Pás, lenços e papiros para contar a história

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O relógio ainda não marcava 9h da manhã e já o aglomerado de alunos à porta de um dos blocos do campus da Universidade de Aveiro (UA) fazia parar quem por ali passava. Os alunos mais experientes preparavam as boas-vindas aos que ainda só conseguiam apalpar terreno. Estava dado início à semana de receção ao caloiro na UA.

Por entre os notáveis, trajados a rigor, sobressai Paulo Pintor ou, como passará a ser conhecido, Mestre Salgado. Uma enorme ‘pá do sal’ distingue-o dos que na praxe são seus súbditos. É ele o principal orientador da semana de receção aos caloiros – “se eu tiver de faltar, por algum motivo, substitui-me o Mestre Pescador, que usa um lenço, e em último caso o Mestre Escrivão, que leva um papiro”. Mestre Salgado segue com a pá, que usa para indicar o caminho aos que vão atrás: “a pá representa a nossa história, a história da cidade, dos pescadores e das salinas da cidade de Aveiro”.

Na UA, o primeiro dia não inclui praxe e o mais importante é a ambientação ao campus. “Vamos fazer um peddy-paper pela Universidade, para eles conhecerem alguns pontos”, com direito a perguntas e desafios, garante Mestre Salgado, enquanto aponta a direção do Pavilhão Polidesportivo Prof. Dr. Aristides Hall. É lá que está Manuel António Assunção, Reitor da UA desde 2010, que os espera para uma primeira saudação.

Mestre Salgado
Mestre Salgado ladeado por Mestres Pescador e Escrivão.

Ovações a encher a casa

“Queria dar as boas-vindas não a todos, mas a cada um”. O Reitor da Universidade de Aveiro ainda mal tinha falado e já o Pavilhão estremecia ao som dos aplausos. Manuel António Assunção não deixou de destacar o papel da inovação dentro de uma universidade com já 40 anos de vida e a importância dos novos alunos: “vocês são o maior impulso de renovação, por isso são tão importantes para nós”. Sobre a educação resumiu: “fará sempre de cada um de nós melhor pessoa”, não esquecendo que permite “maior liberdade de escolha para aquilo que queremos que seja a nossa vida”. E para a maior ovação deixou um voto de esperança: “espero que tenham um sonho que vos trouxe até aqui”.

TUA
A TUA atuou antes e depois do discurso do Reitor da UA.

Depois do espaço para outras intervenções, como a do presidente da Associação Académica da Universidade de Aveiro, Tiago Alves, ou a da Tuna Universitária de Aveiro, a TUA, os alunos despediram-se do Pavilhão com alguns ‘gritos de guerra’ na cabeça. “Aveiro é nosso/ e há-de ser/ Aveiro é nosso até morrer” marcou as despedidas.

Cá fora, Francisco Carvalho, natural de Famalicão, ouve as explicações dos veteranos e vai tirando conclusões: “sinto que vai ser fácil integrar-me, estou a gostar muito desta receção”. A experiência do irmão, que estudou na UA, trouxe-o à cidade de Aveiro e os pais já sentem a “pena de ‘perder’ mais um filho”. Depois deste dia de adaptação, espera com entusiasmo as praxes que aí vêm.

Francisco Carvalho
Francisco Carvalho veio de Famalicão com a certeza de que Aveiro será uma boa ‘casa’.

“A praxe é o que nos distingue, até porque vestimos de maneira diferente de toda a gente”. Mestre Salgado aponta para o traje que ostentam veteranos e mestres. O gabão – em vez da tradicional capa -, a gola e o capuz são marcas da indumentária académica da UA desde 1996.

De ilustres desconhecidos a convictos aveirenses

A acompanhar os primeiros passos dos novos alunos está Carlos Oliveira, já com alguns anos disto a que chamamos receção aos caloiros (chamados de aluviões na academia aveirense). Carlos chama-lhe também o início do “ano da inocência”. Natural de Oliveira de Azeméis, agora no 5º ano de Engenharia Mecânica, vem acompanhar a chegada de novos alunos para “matar o bichinho”, e atira com certeza: “por mim era caloiro todos os anos”. Fala, por experiência própria, da dificuldade inicial perante a cidade desconhecida. Mas enaltece as capacidades de Aveiro como fator de integração: “é uma cidade acolhedora, onde toda a gente se conhece, o que facilita a adaptação”.

Carlos Oliveira
Carlos Oliveira já não é caloiro, mas não desdenhava voltar a sê-lo.

Ana Caetano ainda não o descobriu e, por isso, sente o receio natural de quem enfrenta “uma nova experiência”. Colocada na terceira opção, Administração Pública na UA, Ana abandonou a Guarda, cidade natal, para se entregar à vida académica aveirense, do campus universitário aos bares do bairro dos pescadores. Esta foi só a primeira noite na nova casa, mas as expectativas são já elevadas: “está a correr bem e as pessoas estão a ser muito simpáticas”. “Aveiro é bonito”, remata.

UA veteranos
No primeiro dia, os caloiros da UA começam a conhecer os cantos à casa.

[Fotos: João Diogo Correia e Paulo Fortunato]

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