Lisboa, menina e moça… Caloira

0
4725
Rita Martins

A mochila trazida às costas parece herdada ainda do Secundário, mas o espírito é agora outro. O Metropolitano de Lisboa anuncia às 8:30h, em ansiosos néones verdes, a estação da Cidade Universitária e todos eles saem. Lá fora, Doutores gritam pujantemente “Caloiros de Direito?”. E a esta pergunta vão sendo levantados dedos no ar – não vá o primeiro “caloiro não fala!” surgir da boca dos trajados.

 

 

Uma vez chegados à superfície, as equipas junto do Jardim do Campo Grande parecem formadas: e se dum lado os Doutores e Veteranos se apresentam de preto e branco, do outro, T-shirts e calças de ganga parecem ser a indumentária mais adequada para quem joga na equipa dos caloiros.

A ‘guerra de sexos’ entre os cursos

Tomás Pereira tem 18 anos e acaba de ingressar no Curso de Biologia da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FUCL). “Estou muito contente, porque era mesmo a minha primeira opção!”. Quanto a praxes, a experiência não podia estar a ser melhor: “Comecei já a semana passada. Aprendi a dançar e a cantar umas músicas bastante sugestivas… (risos), sobretudo dedicadas ao Curso de Informática, cujos estudantes são maioritariamente homens, ao contrário do que se passa em Biologia, onde prevalecem as mulheres”. A Mais Superior perguntou ao Tomás pelo refrão de tamanho hit e aqui fica a amostra do que poderá ser ouvido durante as próximas semanas pelas ruas de Lisboa: “É sexta-feira! Ye! Vocês queriam brincadeira! Ye! Mas hoje é dia de picanço! Preparem-se para um enrabanço! Bom, bom, bom, bom! Já, já, já, já!…”. 

Tomás Pereira
Tomás Pereira vai divertir-se… E também estudar valentemente, promete.

Humildade, União e Inteligência

Mas as tradições académicas passam por muito mais do que cantarolar músicas que ninguém deverá levar a mal (pede-se o favor). Mariana Capítulo mostra, a propósito, um colar que traz ao pescoço e onde aparecem inscritos os três princípios da praxe que lhe foram já incutidos: Humildade, União e Inteligência. “Aqui ninguém humilha ninguém. Somos muito bem recebidos, os doutores estão sempre disponíveis para nós e princípios como estes servem para a vida toda. A praxe é uma experiência única e estou a adorar!”, explicou a também caloira de Biologia da FCUL.

Mariana Capitulo
As boas memórias começam a formar-se, garante Mariana Capítulo.

“Tenho saudades de ser caloira todos os dias!”

Quem o admite é Andreia Oliveira, membro da Comissão Organizadora da Praxe Académica (COPA) de Biologia da FCUL. “Fazemos questão de ir buscar qualquer caloiro que nos pareça mais sozinho, explicamos em que consiste a praxe, perguntamos se está interessado em participar e sublinhamos, acima de tudo, que nada nesta semana de receção ao caloiro tem a ver com humilhação. O que queremos é que se divirtam, façam novas amizades, conheçam a instituição onde vão estudar nos próximos anos e recordem com muito carinho estas semanas – eu, por exemplo, tenho saudades de ser caloira todos os dias!”, garante ‘Micro’, a Doutora que herdou este nome de praxe por ter arranjado uma madrinha com o mesmo nome que viu nela uma versão júnior (neste caso, micro) dela mesma.

Andreia Oliveira
Andreia Oliveira (ao centro), mais conhecida como ‘Micro’.

O André também não esconde a emoção dos tempos em que também ele rebolava na relva de roupa virada ao contrário. “Mas agora também me divirto, faço jogos com eles, tento integrá-los em grupo e procuro que passem a conhecer-se melhor”, refere o Doutor do 3º ano do Curso de Ciências da Cultura, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa (FLUL).

Andre
Ainda à espera de caloiros, André acredita que vai ser uma semana em grande.

Vernizes, pinturas, terra, farinha… E muita risota

A euforia por ter conseguido entrar no Superior estava ao rubro – melhor, só mesmo se Rita Martins tivesse conseguido entrar na sua primeira opção. “No entanto, estou muito feliz e já estou toda pintada a rigor e pronta para aproveitar o meu momento de caloira, como podem ver… (risos)”.

Rita Martins
Rita Martins, bem apetrechada para o seu primeiro dia de praxe.

Respeitinho à Dux!

Ver uma mulher no comando da colher de pau é uma honra, pelo menos no ver de Inês Miranda. “Eu sempre vivi muito o espírito académico, tendo inclusivamente sido a caloira do ano no meu tempo, por ser muito participativa. E a verdade é uma: fazia de tudo para voltar a ser caloira”, refere a aluna de Ciências da Saúde e também Dux, ou seja, órgão máximo da praxe, momento antes de autorizar uma caloira a fumar… Mas só com recurso a sapatos nas mãos, nada de dedos no cigarro!

Ines Miranda
A mulher da colher de pau, Inês Miranda.

“É a primeira vez que tento fumar com os ténis… (risos)”, explica a caloira Íris Galvão, vinda da Amadora diretamente para o Curso de Ciências da Saúde, onde já fez algumas amizades.

Iris Galvao
“na praxe ninguém leva a mal”, refere Íris Galvão.

Do Alentejo veio Tiago Botelho. Com apenas 17 anos, este benjamim de Ciências da Saúde anseia ingressar em Medicina, mas para já repete várias vezes as palavras “adorar” e “muito fixe” quando se lhe pergunta o que pensa das praxes académicas e dos Doutores que o acompanham pela relva afora em altura de operação ‘croquete de lama’.

Tiago Botelho
A boa disposição em pessoa, Tiago Botelho.

NOTA: Seja responsável. Beba com moderação.

[Foto: Duarte Fortunato]

Partilhar

Comente este artigo

Please enter your comment!
Please enter your name here

*