A vida de estudante dava um filme

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A Mais Superior convida-te a recordar alguns dos filmes made in Portugal que fazem parte do imaginário das tradições académicas: das comédias musicais a preto e branco pró-regime de Salazar e quando os estudantes eram apenas homens aos documentários de meia hora mais recentes, mas capazes de integrar competições nacionais e internacionais, eis no que resulta a vida de estudante quando elevada a arte…

Única em Portugal durante vários séculos, a Universidade de Coimbra é a instituição em que logo pensamos quando o tema é praxe, semana académica ou mesmo queima das fitas. São de lá os choupais, as tricanas e os fados que fazem chorar tanta água como a que carrega o Mondego. Os culpados? Os estudantes, esses sedutores que tornam o destino das raparigas casadoiras tão negro como a capa que cruzam nos ombros, senão veja-se o filme “Capas Negras”, onde até Amália Rodrigues se perde de amores junto à janela de casa. É também de Coimbra o famoso “Rasganço”, tradição que inspirou a Raquel Freire na sua primeira longa-metragem, com título homónimo, 2001.

Mas Lisboa capital também guarda boas relíquias da vida boémia dos universitários… Quem não se lembra do “Fado do Estudante” de Vasco Santana na “Canção de Lisboa”, onde interpreta um calaceiro estudante da Faculdade de Medicina? É também pelas academias de Aveiro, Beja e Évora que Bruno Moraes Cabral viaja para a realização da sua curta-metragem “Praxis”, onde vê caloiros a mastigar alho e a rastejar na palha.

“A canção de Lisboa”, 1933
José Cottinelli Telmo

Vale sempre a pena rever este que é o primeiro filme sonoro português só para ouvir pela boca do Vasco Leitão (interpretado magistralmente por Vasco Santana) o mítico Fado do Estudante, principiado assim: “Que negra sina ver-me assim/ Que sorte e vil degradante/ Ai que saudades eu sinto em mim/ Do meu viver de estudante. Nesse fugaz tempo de Amor/ Que de um rapaz é o melhor/ Era um audaz conquistador das raparigas/ De capa ao ar cabeça ao léu/ Só para amar vivia eu, sem me ralar! A vadiar e tudo mais eram cantigas”. É precisamente o Vasquinho (como lhe chamavam as duas tias ricas da província que financiavam, às cegas, os estudos do sobrinho na capital), estudante boémio e cábula da Faculdade de Medicina de Lisboa, o protagonista da película. A par dele temos Alice (Beatriz Costa), a “traidora de franja” e premiada costureira do Bairro dos Castelinhos (ver conhecido momento musical “A agulha e o dedal”, já imensas vezes recriado), que sonha que o seu amado Vasco assente a cabeça e se case com ela… Para desgosto do seu pai, o Alfaiate Caetano (António Silva).

Destaque ainda para a cena em que Vasquinho passa no exame de Medicina com 20 valores (graças à célebre resposta do esternocleidomastoideo), tornando-se então médico a sério, fadista, marido de Alice e cidadão respeitado e idolatrado por todos.

A “Canção de Lisboa” continua a ser um pilar do cinema português, tendo ironicamente sido realizado não por um cineasta, mas sim por um conhecido arquiteto: José Cottinelli Telmo.

Título: A Canção de Lisboa
País de origem: Portugal
Ano: 1933
Género: Comédia musical

Ficha Técnica
Realização: José Cottinelli Telmo
Argumento: José Cottinelli Telmo
Elenco: António Silva, Beatriz Costa, Manoel de Oliveira, Vasco Santana

Capas Negras, 1947
Armando Miranda

Não há rapariga alguma que não gostasse de incarnar a personagem de Maria Lisboa (Amália Rodrigues), que junto a uma janela, debaixo do luar, se deixa seduzir pelo fado do estudante de Direito José Duarte (Alberto Ribeiro), que sem dó nem piedade é capaz de transformar qualquer bom coração português em esponja: “Coimbra é uma lição/
De sonho e tradição/ O lente é uma canção/ E a lua a faculdade/ O livro é uma mulher/
Só passa quem souber/
E aprende-se a dizer saudade”. Mas ela lembra, nesta Coimbra de 1947 onde só estudam homens, que o futuro para as raparigas é tão negro como as capas que eles usam.

Na cidade dos estudantes, onde a tristeza teima em imperar em locais como a “Quinta das Lágrimas” ou o “Penedo da saudade”, “Capas Negras” revisita as alegrias da paródia e da mocidade, que se brindam entre amigos e sem grandes dilemas que fazem a cabeça em água, pois para isso se faz bom uso do vinho e das memórias de Coimbra, dos choupais e do Mondego.

O filme, estreado em maio de 1947, bateu todos os recordes de exibição da altura – até porque coincidiu com a época de Queima de Fitas, bem representada na película, com os cortejos académicos e a caloirada que ouve os últimos “Sai daqui, bicho!”. E porque de Residências Universitárias também se faz um estudante, “Capas Negras” apresenta parte das filmagens na Real República do Rás-Teparta, onde amores e ódios, pratos, jogatinas de cartas e espelhos de fazer a barba se partilham irmamente.

Título: Capas Negras
País de origem: Portugal
Ano: 1947
Género: Drama Musical

Ficha Técnica
Realização: Armando de Miranda
Argumento: Alberto Barbosa e José Galhardo
Elenco: Amália Rodrigues, Alberto Ribeiro, Artur Agostinho, Vasco Morgado, Barroso Lopes, Humberto Madeira, António Sacramento

Rasganço
Raquel Freire, 2001

A primeira longa-metragem de Raquel Freire começa pelo título, pelo “Rasganço” que torna tão singulares as tradições académicas coimbrãs: várias mãos, uma finalista, e roupa que se despedaça ao ritmo de quem segura a tesoura que marca o fim da vida académica de Sofia. “E para a Sofia não vai nada, nada, nada? Tudo!…”. “Já é Doutora”, diz Ana Rita (Ana Teresa Carvalhosa) a Edgar (Ricardo Aibéo), desabafando ao recém-chegado que “Coimbra é uma espécie de estufa feita para os estudantes… Mas não se pode ficar aqui para sempre”.

Ao não ser universitário, Edgar não pertence ao mundo das residências, do teatro académico, das manifestações estudantis e das aulas em anfiteatros seculares, sendo a sua única praxe alternativa raptar e violar estudantes, com um cunho satânico, através do qual deixa as vítimas marcadas a faca com iniciais que remetem ao ambiente académico, como “AAC”, “U” ou “Saber”.

Título: Rasganço
País de origem: Portugal
Ano: 2001
Género: Drama

Ficha Técnica
Realização: Raquel Freire
Argumento: Raquel Freire
Elenco: Ricardo Aibéo, Ana Teresa Carvalhosa, Isabel Ruth, Paula Marques, Ivo Ferreira, Ana Brandão, Paulo Rocha, Ana Moreira, Luís Miguel Cintra, Paulo Sucena

Praxis
Bruno Moraes Cabral, 2011

A praxe continua a ser, para muitos, a melhor forma de fazer novas amizades num novo local que não é mais a escola secundária. Polémicas à parte, Bruno Moraes Cabral quis apenas mostrar o que de norte a sul de Portugal se vai passando nas primeiras semanas de receção ao caloiro. Nesta espécie de boas-vindas onde manda quem traja de negro, muitas são as formas de acolher os recém-chegados, sendo que nas 19 faculdades visitadas pelo jovem realizador – e que incluíram cidades como Coimbra, Lisboa, Aveiro, Évora e Beja – o primeiro contacto com a universidade incluiu mastigar alho, ficar com os olhos vendados, rastejar no meio da palha e ter insetos colados ao suor que pingava das costas.

Mas Bruno Moraes Cabral nunca quis “fazer juízos de valor”, sendo “Praxis” um espelho que em 30 minutos resume o que o próprio viu e ouviu: “o critério foi muito o de ‘ir atrás’ e filmar quando os estudantes nos diziam que se ia passar alguma coisa”, disse o realizador à Mais Superior, por alturas da edição de maio, onde saiu um especial sobre a sua curta-metragem, acrescentando que “o filme confronta-nos com coisas que existem e, por isso, não cai no vazio. Não estamos a falar de um momento de abuso específico, mas de um panorama, com exemplos concretos”.

Bruno Moraes Cabral acredita que as praxes podem incluir brincadeiras, pois as mesmas têm potencial, a ordem de valores é que pode ser outra: “se for sempre à base de uma submissão, de uma hierarquia, uns mandam e outros fazem, há sempre mais riscos de alguém se ofender”. Posto isto, “Praxis” arrecadou o prémio para Melhor Curta-Metragem no DocLisboa 2011.

Título: Praxis
País de origem: Portugal
Ano: 2011
Género: Documentário

Ficha Técnica
Realização: Bruno Moraes Cabral

 

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