Tone, Culatra, Rato e Bino dizem adeus

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“Se tudo estava mal, agora vai ficar pior!” é, provavelmente, o melhor slogan que podias pedir para o último capítulo da série Balas & Bolinhos. A Mais Superior quis saber o que levou Luís Ismael a criar personagens como Tone, Culatra, Rato e Bino e o realizador garantiu que não foi difícil – conhece muitos neste nosso Portugal e “quem acha o contrário vive em Marrocos!”. Com participações especiais de Fernando Rocha, Francisco Menezes ou Jel, Balas & Bolinhos 3 traz-nos personagens mais velhas e mais gordas, mas não menos divertidas.

Como é que surgiu a ideia do primeiro filme? Tone, Culatra, Rato e Bino já existiam na tua cabeça antes de existirem no ecrã?

Queria fazer um filme, uma curta. Como não tinha dinheiro, nem quaisquer recursos técnicos, a escrita de um argumento que suportasse isto tudo, isto é… nada… revelou-se um grande desafio.

Gosto muito do filme Feios, Porcos e Maus do [Ettore] Scolla e na altura, tinha acabado de ver o Pulp Fiction do [Quentin] Tarantino e pensei misturar os dois filmes e dar-lhe um toque português. Escrevi o argumento numa semana e para uma duração máxima de 10 minutos. Anteriormente tinha já conversado com o Jorge Neto que iria fazer uma curta e que lhe iria escrever uma personagem para ele. Assim surgiu o Rato. Para o Culatra olhei para o lado e vi o meu amigo de longa data que com receio, lá aceitou o papel. Outro amigo foi convidado para uma casting da personagem Bino, não apareceu e assim surgiu o João Pires que nos disse que fazia o papel de um árido toxicodependente.

Faltava uma personagem que não tinha cara. Depois de muito procurar, olhei ao espelho e reparei o quanto eu ficava bem com barbichas… dei o corpo ao manifesto.

Mas uma coisa é querer fazer, outra é fazê-lo… e o empurrão para avançar com a rodagem surgiu de uma forma estranha. Estava na Associação de Artes Cinematográficas de Valongo e coloquei o argumento na secretária para o JD Duarte o ler, quando dois jovens de 20 anos me pediram para o ler naquele instante. Quando acabaram de o ler, ambos pareciam chocados e com receio. E manifestaram-se: “Não vais fazer este filme pois não?… é que podes ter problemas!!!” – foi o que me disseram dois jovens que deveriam, na minha opinião, ter achado aquele guião muito meigo. Fiquei chocado por ver malta tão nova com medo de… palavras!!!

Por isso, tinha que fazer este filme que de curta se transformou em longa. Era como um apelo divino!

Todos eles podiam ser personagens reais?

Só tenho que dizer que sim. Há e conheço muitos Ratos, Tones, Culatras e Binos neste Portugal. Quem acha o contrário vive em Marrocos!

Tendo em conta os poucos recursos ou financiamentos, a que se deveu a ideia de fazer uma saga? À grande aceitação que o primeiro capítulo teve?

Pura e simplesmente queríamos estar outra vez juntos a fazer cinema. Nunca foi porque o filme ficou conhecido, aliás, estávamos a preparar o segundo filme quando o primeiro começou a dar nas vistas. E os recursos surgiram porque trabalhámos muito a fazer spots, reportagens em vídeo e poupávamos todos os tostões.

Não foi a aceitação, nem a pouca fama do primeiro projeto, foi pura e simplesmente meter moeda a moeda no porquinho e começar lentamente a comprar equipamento.

Qual é a explicação para terem chegado a um público tão vasto? O segundo capítulo foi visto nos cinemas por 58 mil pessoas…

Não creio que 58 mil espetadores tenha sido um número assim tão fantástico. Foi bom é para nós, que não éramos vedetas, não tínhamos muita experiência e também não tínhamos nem 5% dos recursos técnicos mínimos para fazer um filme. E, de repente, tínhamos salas esgotadas e pessoal a falarem do nosso trabalho… ficámos muito surpreendidos. Eu acho que o segundo Balas atingiu as pessoas porque não permite compromissos, é verdadeiro, é duro, é real e acima de tudo é muito engraçado… apenas isso. Mas não é com 58 mil espetadores que um filme se paga e se gera recursos para continuar.

Qual é a grande força, a grande virtude, de “Balas & Bolinhos”?

O Balas é um projeto que nasceu do querer fazer algo que conseguisse despertar os portugueses para o seu cinema. Tem identidade, tem caráter e não é presunçoso, e é muito simples: ou se gosta ou não. E não estamos e nunca estivemos preocupados em agradar toda a gente.

Nunca tiveram medo da conotação que o filme pudesse ter? Que os palavrões acabassem por se tornar uma imagem de marca que vos prejudicasse? Ou isso para vocês funciona como uma espécie de crítica ou grito de revolta contra a hipocrisia?

Sou realizador de cinema, não sou professor de Religião e Moral. Quem se sentir chocado com a nossa linguagem tem uma opção – não veja os filmes. Se fosse o Tarantino a fazer o Balas e a metralhar ’15 mil caralhadas’ por segundo, isso era genial, cool. Os críticos decerto ficariam deliciados: “o realizador americano captou a verdadeira essência do povo nortenho”. Na verdade, estou um pouco a borrifar-me para os intelectuais preocupados com a gramática portuguesa ou os arautos defensores dos bons costumes sempre disponíveis para preservar a boa imagem do povo português.

Nós somos o que somos, uns melhores outros piores, mas não há nenhum português que seja perfeito, embora haja muitos candidatos ao “cargo”. Gosto de fazer filmes com gente real, que fala como tem de falar e faz aquilo que tem de fazer. Quem gostar, que veja e se divirta, quem não gostar e se isso lhe dá uma paz de alma pode perder 10 minutos da sua vida, ir ao Youtube clicar em: Não gosto.

Como é que o público jovem, nomeadamente o universitário, recebe o vosso trabalho? São os vossos grandes seguidores?

Não faço a mínima ideia. Obtemos algum feedback mas normalmente o português é muito reservado e não se manifesta de uma forma muito eufórica. Se fosse uma peça de teatro poderia assistir ‘in loco’ à reação do público, mas com um filme nunca sei. Queremos naturalmente que os filmes façam aquilo para que foram criados: divertir.

Ante-estreia Balas
Atores foram recebidos em apoteose, na ante-estreia do último capítulo, no Teatro Rivoli, no Porto, no passado dia 1 de setembro.

O que esperam que figuras como Jel, Fernando Rocha, Francisco Menezes ou Jason Ninh tragam de novo?

Espero que tragam novos personagens para o filme e que enriqueçam o ‘habitat’ do Balas. E conseguiram isso.

Passados 12 anos, os personagens estão diferentes?

Têm de estar! É obrigatório. Estão mais velhos, mais gordos (eu pelo menos estou) e um pouco menos idiotas, mas sempre divertidos. Estas personagens, neste terceiro filme, conseguiram atingir tudo aquilo que eu desejava no primeiro.

Com o que é que podemos contar para este último capítulo? (é mesmo o último?)

Cheguei à altura de fazer aquilo que sempre quis fazer: ser realizador de cinema. E é isso que quero fazer, nunca me vi como um actor embora tenha adorado a experiência – e talvez voltarei a representar -, mas é na realização que me quero envolver, por isso acho que está na altura de seguir em frente e fechar com uma grande “festa”, a saga Balas & Bolinhos, e deixá-la onde ela deve estar, com os seus fãs e admiradores.

Este último filme é um grande obrigado a todos que respeitaram o nosso trabalho, a todos aqueles(as) que nunca nos olharam com preconceito e abriram as suas vidas aos nossos filmes. Este filme é para eles e sei que muitos o vão adorar. Estamos muito satisfeitos com aquilo que conseguimos fazer e queremos que no dia 6 de Setembro testemunhem numa sala de cinema com os amigos e com a família, o adeus do Rato, Tone, Culatra e Bino. Eu sei que eles vão continuar vivos e a divertir muita gente.

A partir de hoje, será mais ou menos isto:

[Foto: facebook.com/BalaseBolinhos3]

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