Knockout em Nova Iorque

 

André Guiomar, estudante da Universidade Católica Portuguesa (UCP), não acreditava que Juliana, a rapariga simpática e brincalhona que conhecia há tempos, pudesse ser também uma lutadora implacável em cima dum ringue de boxe. Para tirar as teimas, foi assistir a um combate e, tempo depois, mostrou ao mundo “Píton”, o documentário com sotaque nortenho já galardoado no Festival Audiovisual Black & White 2011 e, que este ano, arrecadou também o NY Portuguese Film Festival, deixando os realizadores adversários rendidos ao seu talento.

 

 

Portugal é um país mais de futebol… Porquê a temática do boxe no feminino?

“Píton” surgiu como um projeto final da minha Licenciatura em Som e Imagem na UCP. Foi desenvolvido durante todo o meu 3º ano e depois distribuído por festivais. Estava eu ainda de férias, após finalizar o 2º ano, quando a minha mãe, numa conversa, me conta que a Juliana (pessoa que conhecia há já alguns anos), era tricampeã nacional de boxe. Despertou-me o interesse e decidi assistir a um treino para ver com os meus próprios olhos, a Juliana, rapariga com 17 anos na altura, a ‘jogar’ boxe com alguém. Sendo que a tinha como uma das pessoas mais simpáticas, calmas e brincalhonas que conhecia, custava-me acreditar que ela mudasse assim tanto e se tornasse ‘implacável’ em cima dum ringue. Mais impressionado fiquei quando percebi que ela treina quase totalmente com homens. Aí, e sabendo da necessidade de desenvolver uma curta para o meu ano final, decidi ir atrás da motivação que a levou a entrar e continuar num desporto violento a nível físico. Conhecia também o pai, o que facilitou o processo e o contacto com o treinador Pinto Lopes.

Com uma cara completamente angelical, a Juliana transforma-se quando sobe ao ringue. O que foi mais marcante para ti ao longo da realização de “Píton”?

Numa fase inicial, foi o primeiro impacto de assistir ao vivo a um combate de boxe. Mas o que mais me interessou foi sempre conseguir presenciar o momento de preparação: o aquecimento, o ambiente no balneário, a motivação por parte do treinador e a conversa que tem sempre com o pai. Isso pareceu-me, ainda mais do que o combate, um momento único e bastante privado, até. Mas um dos momentos mais marcantes foi, sem dúvida, quando o pai ao falar com ela lhe pede que logo a seguir ao normal cumprimento entre as duas atletas lhe responda logo com a outra mão num murro direto. Nessa altura, fiquei a olhar para a produtora Catarina a pensar: será que poderei usar isto no filme?

Píton

Já alguém te fez alguma comparação com o Clint Eastwood, por causa do “Million Dollar Baby”?

Nunca me fizeram essa comparação nem tinha visto o filme até fazer o “Píton”. Curiosamente há dois filmes que me parecem ter a ver ainda mais, mas também esses apenas os vi depois de fazer a curta. O primeiro é o “Raging Bull” (1980), de Martin Scorsese, devido ao genérico inicial a preto e branco e também em câmara lenta. O segundo é o “Belarmino” (1964), do Fernando Lopes, um grande filme português e com algumas parecenças em relação à forma e à imagem. Não foram influências diretas, mas agora que vi os filmes penso que, dalguma forma, alguém pode achar que foram referências fulcrais no “Píton”.

Porquê o preto e banco para a curta e não cores?

O preto e branco surgiu inicialmente depois dos primeiros testes que realizei para o genérico em câmara lenta. A partir daí, decidi que o filme seria assim, e isso facilitou-me o não ter de me preocupar tanto com as cores e a preocupar-me mais com o jogo da luz, algo que me agrada bastante. Assim, pude usar o contraste do preto e branco como beneficio narrativo a partir da imagem.

Fala-me da vitória no NY Portuguese Film Festival 2012: estavas à espera?

Não estava à espera deste prémio. Fico sempre muito contente com as seleções para os festivais, porque é para o filme ser visto que o fazemos. Como tal, a seleção não dá só a permissão de ser visto com boas condições numa sala (e até em vários países), como funciona como um “carimbo” de qualidade. Obviamente, chegar ao fim e ainda vencer, depois do filme ter passado em Nova Iorque ao lado de realizadores nacionais com mais experiência que eu, sabe muito bem.

Qual foi o prémio?

O prémio foi um troféu fantástico desenhado pelo artista Nuno Vasa e o facto do programa Onda Curta da RTP2 adquirir os direitos de transmissão do filme.

A André Guiomar não faltam ideias cinematográficas.

André Guiomar e os seus mil projetos
André tem apenas 24 anos, uma licenciatura em Som e Imagem pela Universidade Católica Portuguesa (Escola das Artes, Porto) e ainda “mil ideias de projetos cinematográficos que gostava de desenvolver”. Mas, por enquanto, o jovem realizador vai acabar o Mestrado de Cinema e Audiovisual, acabando assim também a ‘carreira’ de estudante. “Tenho muita vontade de trabalhar a tempo inteiro e vou começar por um Estágio Profissional. Depois logo se vê”, confessa à Mais Superior André, acrescentando que “sempre que fizer filmes” vai tentar participar em festivais de cinema como estes. Nós desejamos boa sorte!

NY Portuguese Film Festival?
Sim, trata-se dum festival de curtas-metragens portuguesas nos EUA, nascido em 2011 e promovido anualmente pelo Arte Institute. Com passagem obrigatória por Nova Iorque, Lisboa e Porto, a iniciativa pretende divulgar o cinema feito pela nova geração de realizadores nacionais. O sucesso americano foi tanto que o festival se mudou também para o Brasil – em dezembro de 2011 passou pelo Rio de Janeiro, ampliando o número de espetadores de língua oficial portuguesa.

[Foto: André Guiomar]

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