Há vida para além da Queima

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Até parece mentira, tal a agitação que se apodera dos jovens universitários quando o sol de maio começa a raiar: afinal, nem todos recebem a Queima das Fitas com um sorriso bem rasgado. A Mais Superior foi à procura das histórias que ficam sempre por contar.

É ponto assente: não é fácil encontrar estudantes que não possam, ou não queiram, ir à Queima das Fitas. De Bragança a Lisboa, passando por Porto, Coimbra, Faro ou Aveiro, a festa mais popular entre os jovens universitários é mesmo esta. Mas ainda há quem não a coloque no topo das prioridades.

Ricardo Santos, 20 anos, é um desses casos. Estudante de Gestão de Empresas na Faculdade de Economia da Universidade do Algarve (UAlg), Ricardo tem direito a uma semana sem aulas para assinalar a Queima das Fitas. Apesar de achar que a pausa faz sentido (“nos anos em que não havia férias, as pessoas faltavam às aulas”), encontra coisas bem melhores com que ocupar o tempo.

Ricardo Santos UAlg
Ricardo Santos tem outros planos

“Não sinto a Semana Académica como um ponto importante da minha vida enquanto estudante”, essa vida “tem a ver com crescer como pessoa e crescer profissionalmente e não preciso de ir a uma festa ou de ter um traje para conseguir isso”. João Curvêlo, 22 anos, estuda Sociologia no ISCTE – Instituto Universitário de Lisboa e vai mais longe: “a Queima das Fitas é um dos vários momentos de um processo mais alargado. Este processo começa quando os estudantes chegam à Universidade, com o ritual da praxe. Ou seja, começa logo mal desde o início”. Ambos concordam que “as Semanas Académicas parecem ser festivais de música normais”. O primeiro não tem nada contra, o segundo pede reflexão – “a Universidade não devia ser antes um espaço alternativo à lógica do mercado que domina os festivais?” Diversão sim, “acho é que as universidades devem ser espaços onde as pessoas experimentam coisas diferentes – para a lógica mercantilista, já nos chega o resto da sociedade”.

O trabalho e a família, tal e qual gente grande

Inês Estrela traja, gosta disso, fez parte da Tuna em Lisboa (agora mudou-se para Coimbra), mas na hora de fazer escolhas deixa a Queima para segundo plano: “se não fossem as férias na Universidade de Coimbra não conseguia ir a Lisboa ver a minha família”. Diz que já se habituaram à sua ausência, principalmente nesta altura de exames e entregas de trabalhos, mas ainda se queixam das visitas a conta-gotas. “Ao início conseguia ir mais vezes a casa, de duas em duas semanas, mais ou menos, mas agora é difícil gerir tudo e passo algum tempo sem lá ir”.

Inês Estrela UC
Inês Estrela aproveita para voltar a Lisboa

Para já, faz questão de ver a Serenata em Coimbra, por causa do espírito, o famoso espírito académico que invade almas estudantis – depois disso, a cisma é aproveitar a pausa para abraçar os que a viram nascer. Ricardo reforça a ideia: “vivo com a minha família e chego sempre tarde a casa. Como também tenho uma irmã mais nova, quero aproveitar para estar com todos eles”. Para o tempo em que estão fora, já há um plano, “fazer desporto de manhã e estudar à tarde”. Nada o move contra a Semana Académica, a não ser o facto de, na última vez em que participou, não ter conseguido fazer mais do que sair à noite e dormir de dia – “é o que a maioria faz e sei que se fosse este ano ia acontecer o mesmo. Era impossível, por exemplo, acordar às 9h da manhã e ir correr, como eu quero”.

Talvez Hélder Fernandes, estudante de Criminologia na Universidade Fernando Pessoa, no Porto, também gostasse de aproveitar o tempo da Queima para fazer algum exercício físico pela manhã. O problema é que Hélder tem presença obrigatória no Queimódromo até de madrugada. E porquê? É trabalhador-estudante e para profissão escolheu ser polícia. Está, pelo terceiro ano consecutivo, convocado… Mas para ser o árbitro. Trabalhar na Queima é, afinal, um mal menor: “claro que a minha posição nesta festa é diferente da dos outros alunos, mas o objetivo é o mesmo, celebrar e festejar este percurso académico”. Ser polícia numa altura de excessos é propício a casos curiosos, “mas prefiro realçar as histórias mais engraçadas, que sucedem principalmente no Cortejo, onde somos “cilindrados” com serenatas pelos alunos”.

Tradição não tem de rimar com obrigação

“Em Coimbra não se vê ninguém que não esteja trajado. Mas não há pressão, é tudo muito natural”, refere Inês, apoiada pelo algarvio Ricardo: “ninguém me vai dizer nada por eu não ir à Queima ou por não trajar. Eu acho é que muitas pessoas o fazem só porque toda a gente o faz”.

João Curvêlo
João Curvêlo não compreende a euforia

É aqui que entra João, apontando outras pressões bem mais perigosas, porque silenciosas. “Estão relacionadas com a própria imagem da Universidade que foi sendo construída. Se pensarmos bem na própria iconografia associada à Universidade, vemos que a imagem de um estudante que nos vem à cabeça é um tipo vestido de preto e com um canudo na mão… Isto também tem um peso enorme e cria referências. E estas referências são-nos impostas todos os dias, não resultam da vivência dos estudantes”. Não é o único a reconhecer a perda de valores associada à festa. É Hélder, que a observa de uma perspetiva mais distanciada, que confirma: “no que diz respeito às noites da Queima, o espírito perde-se um pouco, não por alguns excessos, que são normais, mas pelo facto de ser um evento de cariz económico”.

Cada qual a sua nega

  1. Ricardo estuda em casa dos pais e aproveita o dinheiro extra (que guarda por não ir à Queima) para preparar “uma boa viagem”. Num estudo de 2005 do Eurostudent, onde foram analisados 11 países europeus, Portugal era o que apresentava maior dependência dos alunos face às famílias (mais de 70%). Com o agravar das dificuldades financeiras nos últimos anos, esse número tende a aumentar.
  2. A Universidade de Coimbra viu-se, no passado mês de abril, obrigada a suspender a “praxe de gozo e de mobilização”, como consequência da agressão a duas alunas, alegadamente por não concordarem com o que estava a ser feito. João não tem dúvidas quanto aos princípios da Queima e da tradição académica: “a praxe não integra coisa nenhuma e muito menos é necessária. É simplesmente uma forma de anular o pensamento crítico e de reproduzir uma série de valores que deviam ter ficado no passado: o machismo, a homofobia, o conservadorismo das mais variadas formas, a hierarquização das pessoas sem razão nenhuma”.
  3. Inês mudou de cidade para estudar, mas não sentiu problemas. Nem sempre é assim. A adaptação a uma nova realidade é fundamental para o sucesso no Ensino Superior e os estudantes deslocados são os que têm o maior desafio pela frente.
  4. Em Portugal desconhece-se o número de jovens que, tal como Hélder, acumulam a função de trabalhador com a de estudante. Apesar da flexibilidade de horários concedida, o polícia que está a tirar Criminologia garante que “é muito difícil, porque o meu trabalho, apesar dos preconceitos que existem, é complicado e quando estou de férias académicas não quer dizer que sejam férias completas, porque os períodos quase nunca coincidem”.

    [Foto: scui3asteveo @ flickr.com]

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