Falas tu ou falo eu?

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Começam normalmente por ser feitas por universitários e para universitários, mas rapidamente ultrapassam essa barreira. Vivem muito do voluntariado, boa vontade e ideias dos que por lá passam. As Rádios Universitárias nasceram para nunca mais irem embora. Celebremos com elas o Dia Mundial dos que um dia se apaixonaram pela voz.

“Acontece-nos muitas vezes o oposto [de ter um amador a fazer rádio], que é ter um profissional que quer trabalhar connosco porque aqui, ao contrário do que se passa nas rádios convencionais, não tem limitações nenhumas”. Experimentalismo e liberdade criativa nos estúdios da Rádio Zero, no Instituto Superior Técnico (IST), em Lisboa. Foi lá que nasceu e é lá que deixa a porta aberta para todos os que se queiram expressar através do meio rádio. Apesar de estar dentro do mundo universitário, prefere ir para lá dessa etiqueta. João Bacalhau, diretor do departamento de programação, explica que “é possível ligar a emissão na Zero, gostar muito, e ligar na hora a seguir e achar completamente insuportável”. É o preço da democracia. E de nenhuma ideia ser rejeitada, mesmo as mais estapafúrdias. Isto se considerarmos que fazer entrevistas a compositores mortos, ter personagens como um pato sem bico chamado “Labreca” e um repórter hiperativo de nome “Cláudio Arbusto”, é ser estapafúrdio. Provavelmente, os autores do já extinto “Classicamente” não eram dessa opinião.

Na Rádio Universitária do Algarve, daqui para a frente RUA, nem tudo pode funcionar assim. Ao contrário da Zero, que é uma secção autónoma da Associação de Estudantes do IST, a RUA é parceira da Associação Académica da Universidade do Algarve (AA UAlg) e da própria UAlg, o que significa mais responsabilidades com o serviço a prestar aos estudantes.

Estudio Emissão 02Pedro Duarte, diretor de antena da RUA, explica: “tentamos encontrar esse equilíbrio, entre os nossos conteúdos e um certo serviço público, nomeadamente na divulgação do que se passa na universidade. Fazemos emissões em direto no dia da UAlg e durante a semana académica, por exemplo”.Para João Rebelo, da direção técnica e de programas da Rádio Universitária do Minho (RUM), essa é uma das caraterísticas a manter: “devido à forte ligação com a Universidade do Minho e com a Associação Académica, a RUM é um meio privilegiado de promoção de todas as actividades pedagógicas, culturais ou recreativas destas instituições. É por isso um instrumento que deve continuar a merecer todo o apoio”.

A rádio não se faz sozinha

E do que precisa uma rádio deste género para funcionar? Equipamento, dinheiro para despesas fixas e voluntários, muitos voluntários. Na RUA funciona assim: para além dos dois sócios principais, AA e UAlg, o financiamento vem de parcerias com um portal e “com projetos europeus que precisam de divulgação, e nós fazemo-la, para além de alguma publicidade institucional”. De outra forma, garante Pedro Duarte, era impossível sobreviver, “e mesmo assim este ano vai ser muito complicado”. Na do Minho, a publicidade é também uma importante fonte de rendimento, ao contrário do que acontece na Rádio Zero, que prova novamente que nem todas têm de seguir o mesmo padrão. “Nós não temos vários problemas que as outras rádios têm, que são os custos fixos. Como estamos dentro do IST não pagamos renda, eletricidade ou internet”. O dinheiro para equipamento e manutenção chega de projetos com outras entidades culturais (a Fundação Calouste Gulbenkian é um bom exemplo) e é nos colaboradores que está o ganho. Se em todas estas rádios é preciso haver alguém que trabalhe só por gosto, na Zero não há outra forma de o fazer: “autores, parte técnica, marketing, administração, todos os que pertencem ou alguma vez pertenceram à Zero são voluntários. E neste momento estamos a falar de 80 pessoas, mas já chegámos a ser mais de 100”.

Mas afinal quem é que vos ouve?

“É muito complicado uma rádio local ter essa noção. Já é um orgulho quando alguém diz que gostou de determinado programa da RUA”, afirma Pedro Duarte. “Vamos tendo feedback nas redes sociais e especialmente no boca a boca”, conta João Bacalhau. “Na RUM usamos ferramentas estatísticas para perceber a recetividade dos projetos e a opinião dos ouvintes”, o que faz com que um programa possa durar mais ou menos tempo consoante a qualidade e o número de fiéis. O facebook continua a ser um bom meio para o perceber (quem não gosta de um like?), mas os acessos ao site e aos podcasts são importantes porque, confirma Pedro Duarte, “dão um número, mesmo que seja uma amostra pequena, conseguimos um número”.

Cartaz Sou Todo Ouvidos

Objetivo principal ou não, todos querem crescer e chegar a mais pessoas. E quando o tema é ter uma frequência FM o consenso aparece. “Continua a justificar-se não estar só na net, há até quem nos peça ajuda para montar uma rádio FM. A Zero, por exemplo”. Passemos a palavra: “a Zero tem esse objetivo porque, por mais presente que a internet esteja na nossa sociedade, é difícil ultrapassar a barreira do auto-rádio. Ouvir rádio no carro permite que uma pessoa tropece numa estação, ao contrário das rádios online, em que é preciso ir à procura”. João Rebelo, da RUM, acha que o problema é “existir uma série infindável de rádios web para públicos alvo específicos e que nos retiram alguma visibilidade”.

E afinal parece que o vídeo ainda não matou a radio star: “a rádio continua com muita força porque soube adaptar-se. Se a sua morte algum dia chegar, que eu não acredito, será daqui a muito tempo”, vaticina João Bacalhau. “Ela chega aos locais mais remotos sem grandes requisitos técnicos”, acrescenta João Rebelo. Para eles, é na voz e nas palavras que vive a solução, “são um guião para criarmos imagens mentais”, acrescenta o locutor da Zero. Pedro Duarte conclui que aprender a trabalhar a voz, a exprimir emoções através dela, é uma formação que devia ser transversal a todas as áreas. “Imagina que tens de vender uma ideia em cinco minutos. Se não souberes comunicar não te adianta ter boas imagens”. É preciso atitude, “e a atitude está na forma como falas. E a forma como falas está na voz”.

E não é difícil adivinhar que, nestas ou em qualquer outras rádios universitárias, todos estão convidados a participar. Velhos ou novos, profissionais ou amadores, com ou sem experiência, a rádio é um segredo que merece ser partilhado.

No Dia Mundial da Voz, a Mais Superior relembra um outro dia, bem a propósito.

[youtube http://www.youtube.com/watch?v=1bA4KbefGOA&w=560&h=315]

[Fotos: Rádio Universitária do Minho e Rádio Zero]

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