Investigação que vale ouro

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A utilização de nanopartículas de ouro para a deteção da Mycobacterium tuberculosis valeu aos investigadores Pedro Viana Baptista e Miguel Viveiros Bettencourt o Prémio de Mérito Científico Santander TottaUniversidade NOVA, no valor de 25 mil euros. A cerimónia de entrega contou com a presença de Jorge Sampaio, Enviado Especial da ONU para a Luta Contra a Tuberculose, que se mostrou muito satisfeito e emocionado com este avanço científico made in Portugal.


Mais simples, mais rápido e mais barato do que os atualmente existentes. É assim o novo método de nanodiagnóstico molecular da tuberculose desenvolvido pelos investigadores Pedro Viana Baptista (Laboratório de Nanoteragnóstico da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade NOVA) e Miguel Viveiros Bettencourt (Unidade de Micobactérias do Instituto de Higiene e Medicina Tropical), que por volta das 11h da manhã já se encontravam na Reitoria da Universidade NOVA de Lisboa para receberem o Prémio de Mérito Científico Santander Totta – Universidade NOVA.

Investigador Miguel
Miguel Viveiros Bettencourt agradeceu a presença de Jorge Sampaio, que considera "ter feito mais pela luta contra a tuberculose do que muitas organizações mundiais".

“As grandes mais-valias deste trabalho são conseguir juntar duas realidades aparentemente opostas: uma patologia muito antiga, para a qual todos os recentes avanços tecnológicos não trouxeram grandes contributos, que é a tuberculose, em particular s tuberculose multiresistente, e a oportunidade de utilizar a nanotecnologia, neste caso com partículas de ouro, para detetar precocemente o vacilo da tuberculose duma forma rápida, eficiente e sensível”, disse Miguel Viveiros Bettencourt à Mais Superior, ao mesmo tempo que explicava que o facto de recorrer a ouro não torna esta uma investigação muito cara ou de luxo. “Por se tratar de partículas de ouro, poderíamos dizer que esta seria uma descoberta extremamente dispendiosa, mas é o oposto – bastam apenas algumas partículas para termos o sinal de que precisamos e assim conseguiremos implementar esta tecnologia e contribuir para a não propagação da doença”.

Foi ainda com orgulho que Miguel agradeceu aos alunos o trabalho final conseguido, que agora ganhou mérito. “Quem fez este trabalho e quem o pôs em prática – com alguma ajuda nossa, é certo – foram os nossos alunos de Mestrado e de Doutoramento do Instituto de Higiene e Medicina Tropical e da Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade NOVA. Na realidade, foram eles que demonstraram, na prática, que o conceito funciona”.

Investigador Pedro
O investigador Pedro Viana Baptista explicou que bastam apenas "algumas dezenas de euros em ouro para litros e litros de solução" capaz de detetar a tuberculose.

Para que se perceba melhor o que vem a ser esta história das nanopartículas e como funcionam elas, Pedro Viana Baptista recorre a metáforas que são facilmente percetíveis… Até para as crianças. “Utilizamos soluções contendo nanopartículas de metal de ouro de cerca de 12 a 15 nanómetros, ou seja 10 à nona vezes menor que o metro – estamos a falar de uma proporção de uma bola de ténis para a dimensão do planeta Terra”.

Pedro continua e diz que quando esta solução, inicialmente de cor vermelha intensa como um rubi (ou como “uma camisola do Benfica”, ri ele), é colocada em presença do ADN proveniente de uma amostra biológica a testar e é acrescentado sal comum da cozinha, se o bacilo estiver presente a cor permanece a mesma, mas na ausência dele passa a ser azul… “Como a camisola do Belenenses”, termina Pedro, também orgulhoso por este culminar de trabalho que tinha já começado em 2004, altura em que a nanotecnologia era uma ciência “muito à frente” para a generalidade das pessoas. “Ao princípio, éramos um pouco incompreendidos, porque esta era uma área bastante nova, geralmente ligada à área de Engenharia dos Materiais e que nós estávamos a tentar trazer para a área da minha formação: a Genética. Depois conheci o professor Miguel Viveiros, que é um expert na área da tuberculose, começámo-nos a dar bem, o que é essencial numa equipa, e juntaram-se várias sinergias. Começámos a verificar a aplicabilidade em algo como a tuberculose – mas que fosse uma ferramenta simples, barata, de aplicação mais ou menos universal e que pudesse colmatar o que há hoje em dia de diagnóstico, em locais como um hospital de campanha, um posto remoto avançado e não num laboratório avançado de país rico, que é onde geralmente há este tipo de descobertas”.

Premios
Luís Bento Santos, os dois investigadores premiados, António Rendas e João Paulo Crespo - todos visivelmente emocionados durante a entrega dos prémios.

Na cerimónia de entrega do Prémio de Mérito Científico Santander Totta – Universidade NOVA esteve ainda presente João Paulo Crespo, Vice-Reitor da Universidade NOVA de Lisboa, que fez questão de salientar o grande número de candidaturas recebidas este ano. “Tivemos 21 candidatos, o maior número de sempre”, disse João Paulo Crespo, manifestando o agrado nesta crescente participação, que demonstra que os jovens de hoje em dia trabalham bem em equipa. Também o Reitor António Rendas elogiou o “impacto social desta investigação”, parabenizando os laureados pelo seu trabalho agora merecidamente premiado.

Do lado do Santander Totta, o administrador Luís Bento Santos sublinhou, mais uma vez, a aposta da instituição bancária no Ensino Superior, onde se encontra a massa crítica também “motor da sociedade”, referiu, acrescentando ainda que esta promoção do Ensino Superior mantém-se como “o principal objetivo de investimento em matéria de Responsabilidade Social”, preocupação que se traduz em 43 convénios com universidades de todo o país ou em 117 milhões de euros investidos em projetos de ensino superior, por exemplo.

Mesa
Francisco Jorge, Diretor-Geral da Saúde, garantiu verbas para o prosseguimento desta investigação noutros países em desenvolvimento.

Marcou igualmente presença na cerimónia Francisco Jorge, Diretor-Geral da Saúde, que ao mesmo tempo que admitiu o atual crescimento de um novo perfil de doenças, apelou ao não esquecimento das doenças infeciosas mais antigas, como é o caso da tuberculose, descoberta em 1882 pelo médico alemão Robert Koch. “Embora em Portugal a tuberculose seja um assunto controlado e em tratamento, o problema muda de figura nos países em desenvolvimento, nomeadamente os lusófonos”. Dada a importância da descoberta científica hoje apresentada publicamente, Francisco Jorge garantiu publicamente que os dois investigadores “podem contar” com verbas da Direção-Geral da Saúde para prosseguimento da investigação em países onde onde ela seja mais precisa do que o é atualmente em Portugal.

“Este é um momento de franca alegria e de felicidade para mim”, começou por dizer Jorge Sampaio, Enviado Especial da ONU para a Luta Contra a Tuberculose, comovido pelo convite que lhe foi endereçado, já que “não é todos os dias que acontecem coisas destas”, disse orgulhoso de mais este passo científico português. O antigo Presidente da República elogiou ainda o Santander Totta pelo excelente trabalho que, ano após ano, faz no seio das universidades – nomeadamente através deste Prémio de Mérito Científico Santander Totta – Universidade NOVA.

Foto de Família
O Prémio de Mérito Científico Santander Totta / Universidade NOVA alia a Responsabilidade Social de um banco de prestígio à massa crítica universitária.

Os 25 mil euros do Prémio de Mérito Científico Santander Totta – Universidade NOVA deste ano vão permitir ajudar na transposição deste trabalho de laboratório para um kit destinado ao terreno, que os dois investigadores esperam ter concluído até final do ano, referiu ainda Pedro Viana Baptista, grato por este reconhecimento do Santander Totta e da Universidade NOVA.

Atribuído anualmente, este prémio visa distinguir projetos de investigação a desenvolver por investigadores juniores da Universidade NOVA de Lisboa de natureza interdisciplinar que envolvam, pelo menos, duas das unidades orgânicas desta universidade.

[Foto: Bruna Pereira]

 

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