Morte Súbita Cardíaca: diagnóstico e tratamento são possíveis

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Desde 27 de fevereiro e até final de junho decorrem, nos principais polos universitários de Coimbra, rastreios aos fatores de risco de morte súbita. Estima-se que no nosso país a Morte Súbita Cardíaca atinja cerca de 40 a 100 jovens entre os 18 e 35 anos. Apesar desta ser uma situação à qual a maioria da população está alheia, as doenças cardíacas são a quinta causa de morte nesta classe etária, e a morte súbita cardíaca é a responsável pela grande maioria das mortes.

Apesar de tempos em tempos haver alguma informação relativamente a casos de desportistas que sofrem desfechos trágicos, existem duas questões que ficam no ar sem resposta: qual foi a causa? Será que estes casos ocorrem apenas em desportistas?

A miocardiopatia hipertrófica

Os estudos internacionais demonstram que a causa mais frequente de morte súbita cardíaca no jovem adulto é a miocardiopatia hipertrófica. É também sabido que apesar de o desporto de alta competição aumentar o risco deste tipo de eventos em cerca de duas vezes, a maioria dos casos ocorre em jovens não desportistas, dado que a maior parte da nossa população jovem não se dedica a esta prática. Porém, dado que esses casos não são publicitados, estes eventos e a sua real prevalência permanecem distantes daqueles que se encontram longe da prática hospitalar.
A miocardiopatia hipertrófica ocorre na nossa população com uma prevalência (“frequência”) em 1 em cada 500. Desta forma são inúmeros os jovens com esta patologia que pode ser facilmente detetada por eletrocardiograma. Porém, dado que este exame não é obrigatório ou realizado por norma a partir dos 18 anos, a maior parte deles permanece na ignorância do seu estado de saúde, não podendo por isso tomar as devidas medidas (que existem e são variadas, para se adequarem a cada caso) para se proteger. Como esta doença existem algumas outras que estão associadas a este tipo de desfecho e que podem ser tratadas ou controladas: o Síndrome de Wolff-Parkinson-White ocorre em 1 em 300 (e tem atualmente um tratamento muitíssimo eficaz: a ablação percutânea); o Síndrome de Brugada, a não compactação do ventrículo esquerdo, displasia do ventrículo direito, o Síndrome de QT longo, são algumas patologias que embora menos frequentes, também possuem tratamento eficaz nos dias de hoje.

O exemplo Italiano

Um rastreio realizado em Itália desde há 20 anos, mas limitado a desportistas de alta competição, baseado em eletrocardiograma e avaliação clínica conseguiu diminuir o número de casos em mais de 90% desde então.

Em Portugal

Foi pelo facto de haver tantas mortes evitáveis (o diagnóstico e tratamento atempados são possíveis na sua grande maioria!) na nossa população jovem que decidimos agir! O nosso projeto baseia-se na aplicação dos métodos do rastreio Italiano e seguimento das recomendações internacionais. Porém, versa não os desportistas em particular, mas sim toda a população jovem no geral da região de Coimbra. Temos por objetivo incluir o número maior possível de jovens (cerca de 20.000) de forma a demonstrar que existe um grande número de pessoas em risco nesta classe etária, que pode ser eficazmente diagnosticada desta forma. Assim, pretendemos demonstrar que se esta prática fosse implementada por norma em todos os jovens de 18 anos, um grande número de vidas poderia ser salvo.

O Balanço do primeiro mês da iniciativa

Até ao momento, após um mês de rastreios, já foram estudados 2 mil jovens. Foram detetadas cerca de 10 doenças com risco acrescido para morte súbita cardíaca (mas que têm tratamento) e encontram-se ainda a realizar exames outros 15 jovens de forma a chegarmos a um diagnóstico final.
Por cada novo diagnóstico, no caso da miocardiopatia hipertrófica e algumas destas outras doenças, face ao seu tipo de hereditariedade, esperam-se em norma que sejam realizados mais alguns diagnósticos nos familiares. Desta forma, o número de pessoas em risco detectadas pelo rastreio irá com certeza ascender em larga escala.
A mensagem que se pretende deixar aos jovens é a seguinte: não devem ter receio de participar neste rastreio! Perante este tipo de doenças o pior que pode acontecer é não conseguirem tomar as medidas necessárias para se proteger se forem portadores de uma delas e não o souberem. Por isso, é importante que participem no rastreio: para se tranquilizarem (em caso de não terem alterações) ou para conseguirem tomar as medidas necessárias para terem uma vida completamente normal, caso tenham alterações.

Próximos locais e datas do rastreio:
9 a 13 de abril: Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação da Universidade de Coimbra
16 a 20 de abril: Instituto Superior de Contabilidade e Administração de Coimbra
23 a 27 de abril: Faculdade de Ciências do Desporto e Educação Física da Universidade de Coimbra
30 de abril a 4 de maio: Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra – Polo I
14 a 18 de maio: Faculdade de Ciências e Tecnologia da Universidade de Coimbra – Polo II
11 a 24 de junho: Associação Académica de Coimbra – Jardins da Associação

Sobre Rui Providência, autor deste texto
Rui Providência é Cardiologista do Centro Hospitalar e Universitário de Coimbra, Assistente Convidado de Cardiologia da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra, Docente do Mestrado de Arritmologia da Escola Superior de Tecnologia da Saúde de Coimbra e aluno do Programa Doutoral em Ciências da Saúde da Faculdade de Medicina da Universidade de Coimbra. É autor de mais de 30 artigos em Revistas Científicas Internacionais e mais de 200 abstracts em Conferências Internacionais.

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