“Escrever dá muito trabalho…. E eu trabalho como um cão”

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Desde criança que a poesia e o teatro falam pela boca de João Negreiros. Com nove obras publicadas que viajam entre a prosa, o teatro e a poesia, é precisamente aos versos que damos hoje atenção, no dia em que se comemora o Dia Mundial da Poesia – 21 de março. João Negreiros está de volta com uma nova obra: “O amor és tu”, acumulando ativamente as suas funções de Diretor Artístico no Teatro Universitário do Minho (TUM). Como ele mesmo disse à Mais Superior, é “pau para toda a colher”, sim, mas com muito gosto!

A poesia corre-te nas veias. Essa paixão vem desde quando?

O começo tem a ver com a transversalidade das artes, porque eu começo a dizer poesia e a fazer teatro em criança, aí com 10, 11, 12 anos. Não fazia outra coisa. Depois, continuei a dizer poesia e a fazer teatro e uma coisa leva a outra: um amigo que precisava de um texto ou um texto que era preciso ser escrito de propósito e bom, comecei escrever… E na altura escrevia mais poesia para a gaveta e mais teatro por encomenda. Entretanto, comecei a dirigir grupos de teatro com 16 ou 17 anos e já dava aulas, mesmo sem perceber muito bem o que estava a fazer, já fazia muita coisa.

Mas eram coisas que tu gostavas…

É um bocado viciante quando alguém faz algo e as pessoas gostam. As coisas correm bem é difícil não responder a esse apelo, mas sempre tive uma noção das coisas muito no dia-a-dia – nunca pensei que iria ser escritor ou ator ou que iria estar ligado às artes. Foi um processo natural: comecei a fazer teatro profissional, a dirigir grupos e a escrever para esses mesmos grupos, ao mesmo tempo escrevia poesia de forma numa perspetiva muito mais íntima, já que nunca mostrei a minha poesia a ninguém até determinada altura. Como somos um país de poetas, existia uma exigência e uma pressão muito grande de escrever…

Por que será que somos um país de poetas?

Acho que tem a ver com a nossa mentalidade um pouco sebastianista e romântica. Somos muito mais práticos e muito mais capazes de refletir e isso faz de nós grandes poetas – tanto é que no que diz respeito à dramaturgia não temos assim tantos nomes, por exemplo. Por isso é que eu, durante muitos anos, me afirmava como dramaturgo e nunca como poeta, porque sentia bastante pressão.

E quando é que decidiste, finalmente, abrir a gaveta dos poemas?

O que aconteceu foi que outros poetas me impulsionaram, tais como o Joaquim Pessoa, com quem tenho uma relação muito estreita, porque no centenário do Pablo Neruda a SPA fez um espetáculo e ele e o José Jorge Letria convidaram-me para fazer um a homenagem ao Pablo Neruda, porque o Pablo Neruda era um dos poetas que eu dizia melhor. Na sequência disso, ele acabou por ler os meus textos e achou que era uma pena eu não os publicar, porque era das melhores coisas que ele já tinha lido e ouvir isto de alguém que era um ídolo e que eu admirava imenso… Ele disse-me que fazia o prefácio e tudo e eu disse que publicava. Editoras não faltaram para publicar, a questão era mesmo a minha vontade pessoal e eu achar que era uma mais-valia, porque todos os anos saem toneladas de livros de poesia maus e eu não queria ser mais um, não queria contribuir para o descrédito das pessoas em relação à poesia. Porque embora Portugal possa ser um país de grandes poetas, muitas pessoas não gostam de poesia, porque há muita coisa que não tem qualidade e é importante que as pessoas que escrevem escrevam com algum sentido crítico em relação ao que fazem para não afastar o público da poesia, há gente que escreve extraordinariamente bem, mas depois também há outras que enfim… E publica-se tudo.

João Negreiros

Por falar em livros de poesia, tens um acabadinho de sair, certo?

Sim, esta é a minha nona obra, “O amor és tu”, que já está nas livrarias, mas cujo lançamento oficial vai ser agora no dia 11 de fevereiro, na FNAC do Norte Shopping.

Dos livros para o palco. Como diretor artístico do Teatro Universitário do Minho (TUM), fala-me um bocadinho desse contacto com a malta nova e do trabalho que vais com eles desenvolvendo.

A minha relação com o TUM surgiu há seis anos atrás. Convidaram-me para dar um curso e como as pessoas que fizeram o curso gostaram muito, quiseram fazer uma produção e a produção (“Os vendilhões do templo”) foi um sucesso, encheu a sala todos os dias e o TUM não tinha por hábito ter uma relação com o público assim tão vincada – era mais teatro experimental, as pessoas não percebiam nada do que se passava lá em termos artísticos. De repente viram ali um objeto artístico com o qual se identificavam e passou a haver uma ligação muito grande entre o TUM e a cidade e entre o TUM e o público universitário. Já fiz imensas produções lá, para além das quatro peças que estão publicadas fiz outros espetáculos de homenagem a outros poetas e todos os anos fazemos workshops, cursos de tudo e mais alguma coisa… Eu sou pau para toda a colher, basicamente (risos).

Mas sentes que vale a pena, a julgar pelo carinho e admiração que no TUM têm pelo teu trabalho…

Eles são grandes apaixonados pela minha literatura, acabam por estar constantemente a pedir para escrever para o TUM e eu faço-o com o maior prazer. São um grupo de atores muito talentoso. Acho que o nível dos atores do TUM não fica nada aquém dos melhores do teatro profissional em Portugal. Têm um nível extraordinário, as peças são lindíssimas… A única coisa que o TUM ainda não tem é uma sala condigna, porque o auditório é muito antigo e tem-se deteriorado um pouco. Mas de resto, tem sido extraordinário e tem sido uma aventura incrível. É uma espécie de família para mim e tenho lá os meus melhores amigos. Estou lá há seis anos mas pareceram seis dias. Tem sido muito bom e em termos profissionais foi das melhores coisas que me aconteceu, porque dá-me estabilidade, divirto-me imenso com os meus amigos, faço aquilo em que acredito e tem sido mesmo muito divertido passar os meus dias lá. E ainda me pagam, o que é altamente injusto, mas é melhor continuar assim… (risos).

É fundamental para ti essa interação de todos os que admiram o teu trabalho?

Se não fossem essas pessoas eu não escrevia metade do que escrevo, porque ser escritor não dá dinheiro – eu não vivo da escrita, apesar dos meus livros se venderem muito bem, já que o escritor ganha 10% do que vende, um valor residual e ridículo. A partir daí, se não houver um movimento à volta do escritor que o motive, não há hipótese de ele se motivar por si mesmo: eu todos os dias recebo e-mails a dizer “olha, li este teu poema na escola” ou “li este poema à minha namorada”… E isto é a minha gasolina, porque se não fosse isso eu não escrevia. Eu não sou capaz de escrever a pensar: “ah vou escrever, porque assim quando morrer vou ser fantástico” ou “vou escrever para me sentir inteligente”. Não, eu escrevo para as pessoas, não tenho aquela demagogia do “ai eu preciso de escrever, é a minha sensibilidade e gosto muito e tal…”. Eu não gosto de escrever, eu escrevo porque escrevo bem. Como é aquilo que eu faço melhor, escrevo, porque também o resultado é bom e as pessoas adoram, se não fazia outra coisa, porque na verdade escrever é horrível. Eu agora acabei um livro, foram não sei quantos anos a escrever 6h por dia para tentar encontra aquela palavra, aquele momento, aquela frase. E aquela coisa da inspiração e do “Ah saiu-me!” – pois a mim não me sai nada, escrever dá muito trabalho eu trabalho como um cão para aquilo ficar realmente extraordinário.

E os prémios, também ajudam? Foste o primeiro classificado no Prémio Internacional OFF FLIP de Literatura no Brasil, por cá venceste o Prémio Nuno Júdice e estiveste em destaque no Correntes d’Escrita…

Isso dos prémios é completamente irrelevante. Eu sei lá… Dois doutores gostaram do que eu escrevi e mal me entregam os prémios começam a falar da minha literatura e eu não percebo nada do que eles estão a dizer “Ah isto foi inspirado em fulano de tal” e começam a falar de nomes de autores que eu nem sequer conheço. Isto é hilariante (risos).

Os teus vídeos são um sucesso na internet. A interação virtual veio para ficar?

Isso é surreal. Eu sou péssimo nas novas tecnologias e esta coisa do youtube foi um dia num ensaio que alguém estava a insistir em dizer um poema meu e depois aquilo chegou a um ponto em que alguém disse: “ó João diz tu, pá!”. Eu disse que não gostava de dizer os meus poemas, mas lá acabei por dizer, gravaram e puseram aquilo no youtube contra a minha vontade. Passados dois dias, aquilo já tinha não sei quantas visualizações e começámo-nos a perceber que aquilo era uma coisa nova – mesmo não tendo mulheres nuas, aquilo é altamente comercial!
O que começou a acontecer foi que as visualizações começaram a aumentar, as pessoas começaram a pedir mais e mais e mais e e torna-se muito complicado para um artista sentir-se acarinhado e sentir que o público exige que ele faça coisas….

Que mais posso ler do mesmo autor?
Além de “O amor és tu”, João Negreiros é ainda autor das obras de teatro “Silêncio” e “Os Vendilhões do Templo” (2007); “O segundo do fim” e “Os de sempre” (2008). Na poesia escreveu “o cheiro da sombra das flores” (ed. Papiro Editora, 2007); “luto lento” (ed. Papiro Editora, 2008) e “a verdade dói e pode estar errada” (ed. Saída de Emergência, 2010). A aventura pela prosa fez-se com “O mar que a gente faz” (ed. Saída de Emergência, 2010).

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