‘Tás surdo ou quê?

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Diz que precisou de “sair da toca” (pode ler-se Caldas da Rainha), para, na cidade, se fazer músico. DJ Ride é um nome incontornável da eletrónica nacional e internacional e aterrou em dezembro na Polónia para se tornar campeão mundial de Scratch/Turntablism. Quer fazer música intemporal e que resista, mesmo que lhe tirem DJ de trás do nome.

“Você parece que é surdo!” Já lá vão mais de quatro anos, mas as palavras ainda soam na cabeça de DJ Ride. O seu primeiro álbum, de nome “Turntable Food”, tinha acabado de ser lançado e era preciso inovar. Já em 2007 se sentia o cheiro a depressão e uma boa ideia valia mais do que o dinheiro que nunca chega. Com MC Sagas, que colaborou no disco, pegou no equipamento e foi para as ruas de Lisboa mostrar serviço. Montou um palco na Praça da Figueira e fez abanar os ossos a quem passava. Como não levava autorização, dez minutos depois estava lá a polícia, “é circular!”. DJ Ride obedece e faz o mesmo no Chiado. Polícia outra vez, a perguntar se ouve bem. Ele afasta-se e, de pratos e bagagens, chega ao Miradouro do Adamastor. É o toca-e-foge que certamente aprendeu, ainda criança, nas Caldas da Rainha. “Com um evento que nos custou zero, chegámos a muita gente, tivemos montes de views no youtube e conseguimos furar a imprensa o que, com uma apresentação normal, nunca seria possível”.
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Foi assim, a inventar, que Oliveiros Tomás se fez DJ Ride. É do experimental que mais gosta e, para ele, ser DJ não é só pôr o disco, carregar no play e acertar batidas: “hoje em dia, toda a gente quer ser DJ, ir a discotecas e pôr as pessoas a dançar, mas para te destacares precisas de fazer diferente”. Nunca teve um clique que o empurrasse para a música, o gira-discos dos pais no centro da sala foi quanto bastou. “Era um bocado aquela cena do fruto proibido, eles não me deixavam mexer no gira-discos e eu ficava sempre à espera que saíssem de casa”. Agulhas partidas à parte, aos 17 anos conseguiu juntar dinheiro para uma mesa de mistura e um computador. Do quarto para o palco, foram poucos dias de distância: “comecei a tocar na escola, com uma banda, uma coisa muito má. Era uma salada russa de hip-hop, rap e mais qualquer coisa”. Do hip-hop, DJ Ride guarda a cultura, especialmente “aquela cena das batalhas de MC’s, os improvisos, a competição saudável”. E foram os campeonatos de Scratch/Turntablism que o atiraram para o mundo dos convites. Foi campeão nacional com 18 anos (agora, que tem 26, já foi mais três vezes) e, em dezembro do ano passado, chegou ao título mundial, com aquele a que gosta de chamar o “irmão mais velho”, Stereossauro (juntos formam os Beatbombers).

 

Não ao DJ em versão pop

DJ Ride
DJ Ride em conversa na ETIC

Foi numa conversa informal com alunos da Escola Técnica de Comunicação e Imagem (ETIC) que a Mais Superior o encontrou e quis saber da sua relação com o público, especialmente o universitário. “Tenho um tipo de público muito crossover, desde os muito novos até àqueles mais velhos que percebem melhor o lado nerd da música eletrónica. Como ainda cheguei a estudar na ESAD [Escola Superior de Artes e Desing] nas Caldas, também tenho muito contacto com pessoal do vídeo, das artes plásticas, designers… na ETIC, especificamente, dou o módulo de Técnicas de Criação de Música Eletrónica, onde aparecem pessoas de backgrounds musicais completamente distintos, desde trance, rock, pop, dubstep, hip-hop e por aí fora”. No ensino superior, nunca foi propriamente aplicado, “às vezes até me arrependo um bocadinho de me ter baldado às aulas”, porque o chateava o lado convencional do estudo de música. “Só queria era samplar discos, pegar num som e fazer uma música”. Quer continuar a fundir estilos e a apostar na musicalidade do scratch, mesmo sabendo que a média de 100 concertos por ano o obriga a ir a espaços com os quais não se identifica: “tive, por exemplo, uma música, em colaboração com os Coldfinger, que passou nos Morangos com Açúcar, que é algo que não me diz muito”. O mesmo se passa com clubs e discotecas: “se calhar se vivesse nos Estados Unidos, em França ou Inglaterra podia selecionar melhor porque há um público e um circuito muito maior para este tipo de artistas”.
Por agora, DJ Ride prepara novo trabalho, que promete voltar a ser mais funkie e mais alegre. “O último álbum [Psychadelic Sound Waves] foi o que vendeu menos, porque era um bocado denso, mas gostei bastante de o fazer. A questão é que nem toda a gente tem paciência para ouvir coisas muito experimentais”.

“O gira-discos é o meu instrumento musical”

Afinal, o que vem a ser isso do scratch e do turntablism? Arranhar em português, scratch refere-se ao movimento, feito na ponta dos dedos, com o disco, para trás e para a frente, controlando os cortes de som na mesa de mistura. Quanto ao segundo palavrão, DJ Ride é claro: “às vezes as pessoas riem-se, mas turntablism é essa arte de ver o gira-discos como instrumento”.

[Fotos: www.flashead.com e João Diogo Correia]

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