“Não podemos desperdiçar o talento de metade da população do país”

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Ana Bela da Silva Pereira é presidente da Associação Portuguesa de Mulheres Empresárias (APME), uma instituição que está há 20 anos ao serviço de todas as empreendedoras que procurem criar o seu próprio negócio. Já agora…. Feliz Dia Internacional da Mulher.

O primeiro passo é difícil, reconhece Ana Bela, “dado que todo o edifício legislativo é contrário ao empreendedorismo feminino, a começar pela própria governação a que quase sempre tem faltado sensibilidade e conhecimento na matéria”, mas nada é impossível, estando mais do que demonstrado que as portuguesas têm talento na arte de erguer e gerir empresas!

A APME já tem mais de 20 anos de idade. Fazia falta (e continua a fazer) uma associação assim, inteiramente dedicada às mulheres empresárias?

Basta olhar à nossa volta! Quando houver mulheres e homens lado a lado, com as mesmas oportunidades e a mesma visibilidade, a APME deixa de fazer sentido. Mas, por ora, ainda estamos muito longe de tal.

Que tipo de ferramentas e apoios dá a APME a todas as mulheres que queiram iniciar o seu próprio negócio?

A APME dá diversos apoios às empreendedoras portuguesas. Temos programas específicos, um deles o programa DoNaEmpresa, que a APME tem implementado em várias regiões do País com enorme sucesso, já reconhecido internacionalmente. O programa DoNaEmpresa foi criado para potenciar e desenvolver o espírito empreendedor das mulheres, é gratuito e contempla uma bolsa e subsídios complementares, na primeira fase de formação, e um Prémio de Apoio ao Arranque do negócio, no início da atividade empresarial. Ao contrário dos tradicionais cursos de formação, o DoNaEmpresa é um projeto integrado, financeiramente apoiado e totalmente gratuito, que vai muito além das duas primeiras fases de formação intensiva e consultoria especializada. Durante e após este trajeto, as empreendedoras vão ter um apoio continuado da APME e passam a estar inseridas numa Rede Nacional de Empreendedoras. Através do nosso Gabilete de Apoio Técnico (GAT), a A APME aposta na consultoria específica de curta duração e apoia empresas e empreendedoras, neste caso nas regiões de Lisboa, Abrantes e Portimão/Faro.

O GAT promove a realização de um diagnóstico inicial para detetar os pontos críticos/constrangimentos que se colocam ao desenvolvimento dos negócios e a prestação de orientações técnicas de resolução dos problemas detetados. Através desta iniciativa, a APME disponibiliza ainda apoio a empresas e a empreendedoras na constituição de dossiers de candidatura ao Microcrédito. O GAT oferece ainda consultoria técnica especializada sobre questões específicas e pontuais da gestão e liderança das empresas.

Ana Bela Pereira
Ana Bela da Silva Pereira, presidente da Associação Portuguesa de Mulheres Empresárias (APME).

Ainda existem casos de discriminação por género ou entraves afins denunciados por mulheres empresárias junto da APME?

Não são necessárias, basta uma observação da realidade e dos factos concretos. Um exemplo de discriminação: quando mais de 90% de famílias monoparentais são de mulheres, acha que este facto não tem restrições ao nível da concessão de financiamento a uma microempresa? Considera que, nestes casos, os prémios de seguro não são mais caros? A discriminação direta é muito difícil de demonstrar dado que todo o edifício legislativo é contrário ao empreendedorismo feminino, a começar pela própria governação a que quase sempre tem faltado sensibilidade e conhecimento na matéria e daí o enorme atraso em relação ao que acontece nos nossos parceiros da União Europeia.

Portugal está no que diz respeito ao incentivo às mulheres empresárias?

O reconhecimento do empreendedorismo e empresariado feminino em Portugal foi muito tardio, quer em relação à Europa, quer em relação aos EUA e outras regiões do mundo ocidental. A aposta no potencial empreendedor feminino surgiu há muito poucos anos em Portugal e de uma forma tímida. Basta olhar para o nosso lado, em Espanha, (para não falar dos restantes países da UE) e verificarmos que os nossos governantes não apoiaram este potencial que é precioso em termos de criação de emprego e de criação de riqueza e sua distribuição. Não compreenderam que esta aposta necessita de tempo e espaço para ter sucesso e dar melhores resultados, que hoje são fundamentais para todos nós, homens e mulheres. Para os portugueses. Ainda não reconheceram que o talento não tem género e que não podemos desperdiçar o talento de metade da população do país.

O que falta para haver mais mulheres empresárias em Portugal?

Falta ainda o tempo e o espaço para as atitudes e comportamentos se alterarem e darem os seus frutos. Falta a criação de um ambiente cada vez mais próprio ao empreendedorismo, a criação de condições específicas que permitam o desenvolvimento do empreendedorismo feminino e resposta às suas idiossincrasias.
Por exemplo, redes de cresces e infantários, transportes que permitam as deslocações casa-trabalho-casa, unidades e redes de apoio à 3ª idade, flexibilidade de horários, etc…
Falta também o reconhecimento do seu papel e importância, traduzido em incentivos e apoios específicos. E é muito importante e decisivo perceber o papel de “roll models” que as empreendedoras têm: Quanto mais empresárias houver, mais serão as mulheres a querer empreender.

[Foto: womeninbusinessradio.com | APME]

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