Expulsaram-no de casa… Mas ele continua a espalhar charme!

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Gonçalo Gonçalves | ©Paulo Castanheira - WriteView

Gonçalo Gonçalves seguiu as pisadas de Joe Dassin, Christophe e Julio Iglesias e encontra-se neste momento em vias de extinção, porque no mundo abunda o amor capitalista. O rapaz que faz rimas de canções com a palavra “cuecas” e “anca” e “entranhas” gosta do Dia dos Namorados e dedica esta entrevista a todos os corações abandonados.

Fala-se na crise dos recursos naturais, crise no Euro, crise no emprego, em muitas crises que por aí andam… E o amor, também está em crise?

O Amor (com A grande mas também pequeno) é sempre matéria eterna e nunca esgotável, ao contrário do petróleo que um dia acabará. Por isso, esta crise que começa por se financeira há-de contaminar todas as cambiantes da humanidade mas nunca poderá matar o Amor. Agora, podemos dizer que sim, que o amor capitalista domina o nosso imediatismo diário, mas isto não é mais do que uma tendência para nos escravizarmos. Nunca me esqueço que em 1953 haviam edições literárias, de grande saída, com modelos de cartas para conquistar o amor das pessoas que amávamos, as chamadas “Cartas para Namorados”. Ao mesmo tempo é curioso notar como os políticos nunca falam de Amor, e se falam é só para tentar dizer que nunca abandonaram ninguém nem nunca experimentaram drogas. Portanto, que o Amor só se mede pelo grau de estabilidade das suas convenções. Isto sim, é a crise.

Gonçalo Gonçalves acredita que abunda o amor capitalista.

Acreditas que o amor sempre foi, continua a ser e sempre será um esplêndido tema para canções?

Parece que o Amor é o tema mais versado nas canções populares. Mas o Amor não é um tema em si, é um impulso. Temas são: “o amante abandonado” ou o “marido traído” ou o “tímido sem coragem de expressar o seu amor perante quem ama” ou a “conquista de uma noite” ou “o Don Juan implacável” ou “o amor em tempos de crise”, etc…Eu, como Cantor Romântico que me assumo, sigo uma tradição em vias de extinção que teve o seu apogeu nos anos 70 do século passado, em personagens como Joe Dassin, Christophe, Dave, Jose Jose, Julio Iglesias, Daniel Balavoine, etc. Agora, que esse Amor versado (e extremamente vivido) seja vertido em arranjos musicais altamente perigosos e sedutores, a meio caminho entre o exótico-kitsch (porque fora deste mundo) e o arrojo futurista (porque a sonhar com outro mundo) é a grande conquista dos românticos para a história da música.

O que achas do Dia de São Valentim? Jantares, promoções em hotéis, flores e vitrinas com corações…

Tenho tendência em gostar do “Dia dos Namorados” mas não propriamente do “Dia de São Valentim”. Ninguém sabe de onde vem este santo nem porquê devemos segui-lo em temas de coração. Santo por santo prefiro São Gonçalo de Amarante, que diziam ser amante de bom vinho e casamenteiro (na igreja de Amarante ainda se vê muitas mulheres a rezar a São Gonçalo). Símbolos são sempre símbolos e é importante manter certos rituais. Comemorar o primeiro dia de namoro ou o dia do primeiro beijo pode dar azo a poemas e jantares memoráveis, melhor do que qualquer feriado que nos queiram retirar. Para os corações abandonados, tudo isto é mais amargo e injusto, mas ao mesmo tempo poderá ser o dia da sua revolta e ressurreição.

O teu single “Expulsaste-me de casa mas eu vou viver no teu coração”  é uma espécie de vingança para todos os que alguma vez já foram “expulsados” e “deixados para trás” – “tu expulsaste-me, mas eu….”?

Pegando na resposta anterior, fiz este tema como ressurreição. Tinha sido deixado, de uma maneira inconsolável, e a única forma que tinha de transformar esse desconsolo em acção era escrever uma letra imperdoável, antes de tudo, com a minha própria situação. É a recuperação do abandono, preenchendo o vazio. Neste caso, opero o efeito literário na tentativa de transformar o meu corpo no corpo que me abandonou. “Vou passar minhas férias no teu pulmão”, “Alimentar das tuas artérias”, etc… Não nos podemos esquecer que esta canção é um tema rock-sintético, que poderia estar num club de noite a tocar continuamente até fecharem as portas.

Esta tua canção é a prova viva de todas ou quase todas as palavras podem fazer parte de uma canção de amor, tais como “cuecas”; “entranhas”; “anca”… Acreditas que se as palavras existem são para ser todas usadas?

Quem usa a língua portuguesa tem a sorte de ter um arquivo infindável de vocábulos diferentes para denominar a mesma coisa. E muitos desses vocábulos são, digamos, “arcaicos”. O que é ainda melhor. Usando vocábulos mais banais como “cuecas” ou “anca” estamos a criar um choque e isso cria ritmo, um ritmo moderno. A nomeação é o processo romântico mais importante, porque no fundo o Amor, antes de se tornar físico, encontra o seu caminho através das palavras.

Há alguma canção romântica que, não sendo da tua autoria, não te importavas nada que tivesses sido tu a fazê-la? Porquê?

Bom, é verdade que a época áurea do Roberto Carlos arrasa com a ambição de qualquer um, principalmente até aos anos 80, onde há temas de uma poesia verdadeiramente inigualáveis. Até o Caetano Veloso, autor tão intelectual, já fez várias versões do rei Roberto. Há um tema do Julio Iglesias que gostaria de ter feito, o “Tropece Con La Misma Piedra” ou também o “Du Coté de Chez Swan” do Dave. No fundo a composição é o processo de imitar as músicas que amamos e no ponto de chegada inventamos uma coisa nova.

Queres deixar uma mensagem para todos os nossos leitores sobre o amor, tendo em conta a tua faceta de aventureiro e de romântico?

A perca amorosa, se acontecer em início de vida adulta, é a experiência mais fulminante que poderemos viver. Obriga-nos a um impulso de morte e vida com todas as consequências daí inerentes. Se formos alguém com propensão ao sonho e guiados pelo desejo, a experiência amorosa (quer sejamos abandonados ou quer abandonemos) é a melhor cura e a melhor receita para uma vida infatigável, inesgotável. Isto sim é rock n´roll romântico.

[Foto: Paulo Castanheira – WriteView]

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