“Não fazemos música para vender. Isto é a nossa vida.”

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Muito antes de lançarem “Cai o Carmo e a Trindade”, Marisa Liz, Tiago Pais Dias, Ricardo Vasconcelos e Rui Rechena já sabiam que fazer música era o que lhes corria nas veias. Os grupos de fãs não param de aumentar, mesmo assim, os Amor Electro não deixaram de ser os mesmos que há uns anos tocavam em bares… “A única diferença é que são mais pessoas, mas a relação continua a ser a mesma, apenas mais próxima”, explicam.

Porquê o nome Amor Electro?

Marisa Liz: Nós quisemos ter um nome que definisse aquilo que nós fazemos e achámos que temos uma parte que fala muito de ‘amor’, uma palavra que além de bonita é facilmente reconhecida noutras línguas, é uma palavra forte. O ‘electro’ porque é o outro lado daquilo que nós fazemos – é tirar um bocadinho o amor e a ‘lamechisse’ e juntar a parte mais fria, a parte mais ‘electro’. O nosso som é amor e é ‘electro’. É um som agridoce, no fundo.

Como surge o vosso primeiro álbum, “Cai o Carmo e a Trindade”?

Tiago Pai Dias: Já tocámos há alguns anos, tínhamos a nossa banda de versões e tocávamos em bares. Entretanto, conseguimos criar um conceito muito nosso, com sonoridades eletrónicas, mas com canções que eram grandes temas portugueses. Também tínhamos o nosso grupinho de fãs… Mas a coisa foi evoluindo e surgiu um convite da Valentim de Carvalho, que gostou imenso do nosso trabalho, e nos desafiou para lançarmos um disco só de versões. Com a evolução da criação do disco, sentimos a necessidade de criar alguns originais e dar um bocado o nosso cunho. E pronto, surgiu um disco misto de versões e originais.

Como é que “A máquina” chegou ao genérico da novela da SIC “Rosa Fogo”?

Tiago Pais Dias: A música foi lançada e foi muito bem recebida pelas pessoas, através da rádio e TV, e esse convite para nós foi brutal – as telenovelas são um grande veículo de comunicação musical português, porque há muito poucos programas de música além do Top +. O porquê desse convite não sei… Mas deve ser porque gostam da nossa música… (risos).
Marisa Liz: E acharam que a letra também tinha a ver com a história da novela, penso eu.

Como é a vossa relação com os fãs nas redes sociais?

Ricardo Vasconcelos: Temos um grupo de pessoas que nos apoiam, acompanham e informam outras pessoas através das redes sociais sobre e isso é ótimo. Nunca tivemos assim grandes problemas, sempre falamos muito bem com toda a gente e acho que continuamos a ser as mesmas pessoas que éramos na altura dos bares. A única diferença é que são mais pessoas, mas a relação continua a ser a mesma, apenas mais próxima. Antigamente uma pessoa tinha um site e punha lá coisas e depois as pessoas iam lá ver. Agora uma pessoa faz um post e as pessoas podem apropriar-se dele. É muito mais dar e receber.

Cantam em português. Estão a pensar fazer alguma coisa em inglês?

Ricardo Vasconcelos: Não temos barreiras de criação e ainda bem que tivemos a sorte de ter pessoas que nos dão essa liberdade. Este álbum surgiu em português também por causa da história que já foi contada… E também um bocadinho pela portugalidade da voz da Marisa, que soa um bocado a fado. Desta vez surgiu em português, mas, e como já dissemos várias vezes, o próximo pode ser em chinês ou em francês.
Marisa Liz: É normal cantarmos em português, porque somos portugueses e porque eu própria sonho em português, por isso é de todo normal. Agora não há nenhuma bandeira que diga que tem que ser a nossa língua, até porque a partir do momento em que se põem limites na criatividade, isso deixa de fazer sentido. Há muitos bons músicos portugueses a fazer música em inglês e essa é a escolha deles e não é por causa disso que são menos ou mais que nós. Cada um deve ter o direito a criar com aquilo que se sente melhor, quer seja com o inglês quer seja com o facto de tocares instrumentos que nada a têm a ver com a nossa cultura e ninguém diz nada – há bandas que cantam em português mas o som deles nada tem a ver com português e ninguém diz nada. É um som rock e o rock não vem do nosso país, mas aí ninguém diz nada, porque estão a cantar em português. Somos portugueses com muito orgulho, tanto a cantar como a falar, mas se nos apetecer ter um tema em chinês, temos… Senão andávamos todos a tocar ferrinhos e adufes, porque se for para ser português é em tudo.
Rui Rechena: Ou formávamos um rancho folclórico…
Marisa Liz: Ou éramos todos os Deolinda… Que são uma banda tipicamente portuguesa e ainda bem que há. Mas por que não haver outras? A cantar inglês? São tão portugueses como nós. A música é universal.
Ricardo Vasconcelos: Nós já tivemos uma vez um exemplo engraçado, que foi uma senhora inglesa que chegou ao pé da Marisa e disse: “não percebi rigorosamente nada do que disseste mas sabia que estavas a falar de amor”. No fundo tudo gira à volta de como as coisas são ditas e de como te tocam ou não.
Marisa: Há ainda muita música instrumental que nem sequer tem letras e não é por causa disso que é menos do que a outra…. A música clássica nem sequer tinha voz. Não ter letra não quer dizer que não tenha mensagem, porque eu acredito que houve compositores que fizeram grandes sinfonias com alguma mensagem e quando se ouve aquilo hoje em dia sentem-se várias emoções ali e isso tem a ver muita coisa… Esta discussão torna-se um bocado ridícula quando todos nós no fundo estamos aqui para ser felizes.

Os Amor Electro fazem música por paixão…

Marisa Liz: Sim, nós não fazemos música para vender. Isto é a nossa vida. Estamos nisto há muitos anos e isto tem os lados bons da música – quando isso corre bem e gravamos discos e temos o prazer de tocar para muita gente. Mas há outro lado que não tem nada a ver com isso. O glamour musical só existe em Hollywood. Às vezes chateia-me um pouco é pessoas que não trabalham nada e conseguem coisas que nós demorámos anos a atingir, mas a culpa não é deles nem das pessoas, a culpa não é de ninguém. As coisas são assim. Nós fazemos aquilo que gostamos e ainda bem que o pessoal está a gostar, porque estamos muito contentes, Mesmo.

Os amor Electro vão aderir ao Novo Acordo Ortográfico?

Marisa Liz: O ‘Electro’ fica como antigamente, porque faz muito mais sentido. Mas por acaso, nem tinha pensado nisso, porque continuo a escrever com a escrita antiga (risos). Mas no nosso disco acho que as letras já estão com o novo acordo ortográfico…. Mas se não estiverem também não há problema porque ainda estamos na fase de transição. O que é certo é que o ‘c’ de ‘electro’ não vai sair.

Amor Electro no Rock in Rio
No dia 2 de maio os Amor Electro vão tocar com o artista brasileiro Paulinho Moska “que não é dos artistas brasileiros mais conhecidos em Portugal, mas nós estamos extasiados por tocar com ele. Somos super fãs! Ele tem um trabalho que merece ser ouvido por muita gente e os músicos estamos aqui para ajudar mutuamente.”

[Foto: Valentim de Carvalho]

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