O rapaz que ganha a vida com brinquedos

 

Miguel Pina Martins não tinha pais ricos, não tinha uma conta bancária recheada e não tinha uma cunha “super mágica” (como ele diz) quando abriu a sua própria empresa: a Science4You. Tinha era 22 anos, uma Licenciatura em Finanças e uma vontade muito grande de trabalhar – esforço esse que já lhe valeu vários prémios de empreendedorismo e um rentável negócio de brinquedos científicos já presente em Portugal, Espanha, Brasil, Angola e Moçambique.

Quanto à faturação…. Depois dos 600 mil euros conseguidos em 2011, a meta desta inovadora empresa portuguesa agora é o milhão de euros, como se a crise fosse uma palavra ainda por inventar nos dicionários.

Como é que uma ideia de projeto académico se transforma em empresa?

Acabei o curso de Finanças no ISCTE-IUL em 2007 e, realmente, o meu projeto final de curso foi a Science4You (S4Y), já que então o ISCTE tinha uma parceria com a Faculdade de Ciências da Universidade Lisboa (FCUL) em que a FCUL dava as ideias – Ciência, Biologia e tudo mais… E o ISCTE enquanto escola de gestão montava os planos de negócio.

É a tal história das rifas…

Foi realmente isso que aconteceu (risos), a S4Y saiu-me rifada. O professor andava com o chapéu dos papelinhos todos, com as ideias da FCUL lá dentro, até que fui tirar o meu papel e saiu o projeto da S4Y.

Ao leres o papelinho passou-te pela cabeça que daí poderia sair um bom negócio?

Nunca pensei e nem me chegou a passar pela cabeça.

Quando decidiste que querias ter a tua própria empresa?

Quando acabei o curso fui trabalhar para a Banca de Investimento durante 4 meses – de julho a outubro, e em setembro decidi que não era aquilo que queria fazer. Quando comecei e quando escolhi sabia que havia algumas coisas que não queria fazer, como acontece com quase toda a gente, mas não sabia ao certo era o que queria fazer: Auditoria? Consultoria? Eram muitas as áreas… Na altura tinha era de experimentar qualquer coisa a ver se gostava e foi o que aconteceu, fui experimentar banca de investimento e correu mal, porque não era aquilo que eu queria.

Tinha 22 anos e pensei: “não é isto que eu quero fazer para a vida e esta é a altura em que eu tenho de arriscar e de tomar uma decisão, já que não tenho casa para pagar nem carro para pagar” e foi o que aconteceu. Saí do banco onde estava, na altura havia um Centro de Empreendedorismo no ISCTE-IUL, o AUDAX, a lançar o desafio de candidatarmos a S4Y a capital de risco para abrirmos a empresa e foi o que aconteceu. Estávamos em outubro / novembro, candidatámo-nos a Capital de Risco com o apoio do AUDAX e no dia 30 janeiro foi lançada oficialmente a empresa e tudo continuou por aí adiante até hoje.

E está a correr muito bem…

Sim, em outubro de 2008 começámos a vender para a FNAC e para o El Corte Inglés e depois continuámos em 2009, 2010… Em 2009 começámos a vender para Espanha, abrimos escritório, em 2011 começámos a vender para o Brasil, Angola e Moçambique e hoje em dia estamos a vender bastante bem e não podemos falar em crise: mais do que duplicámos o retalho de 2010 e faturámos 600 mil euros, o que é um número bastante simpático, tendo em conta que tínhamos faturado 250 mil. O objetivo agora é o de chegar ao milhão de euros para este ano – vamos ver se é possível ou não, porque sabemos que vai ser ainda um ano mais difícil, no geral, do que o ano anterior, mas estaremos cá para conseguir contrariar as tendências e para conseguir vender um bocadinho mais!

Quais são as principais áreas de negócio da S4Y?

Existem três áreas de negócio distintas: a dos brinquedos científicos, que é aquela por que acabamos por ficar um bocadinho mais conhecidos; a segunda são os Campos de férias e as Festas de aniversário, que fazemos aqui na FCUL ou em casa, com crianças, o que acaba por ser um bocadinho diferente de uma festa científica ou festa de aniversário normal, pois as crianças têm oportunidade de experimentar ser cientistas por um dia ou durante uma semana (no caso do Campo de férias). A terceira área prende-se com as atividades extra curriculares nas escolas: damos aulas de Ciência e tentamos que a S4Y não seja apenas e só uma marca de brinquedos científicos, queremos muito que as crianças associem a Ciência à S4Y. Assim, as crianças compram um brinquedo e têm um bilhete para o Museu da Ciência lá dentro, chegam ao Museu de Ciência e tem lá mais brinquedos e depois vão querer fazer o Campo de Férias e depois ainda a Festa de aniversário… Gerando o bichinho da Ciência, que em países como os EUA está mais desperto do que em Portugal e nos países latinos – é muito raro termos uma escola que possua uma Feira de Ciência, por exemplo, quando nos EUA há todos os dias e até os filmes e os desenhos animados fazem várias alusões à Ciência. A S4Y tenta preencher essa falha que existe no mercado e existe em termos de formação, porque o que pretendemos é dar a perceber, não só às crianças como aos pais, a importância que a Ciência pode ter no dia-a-dia.

Para quem quer seguir o teu exemplo… Sai muito caro abrir uma empresa?

Uma coisa muito importante que é preciso as pessoas saberem é que não é preciso ter pais ricos nem muito dinheiro no banco para abrir uma empresa. A S4Y, felizmente, é um desses exemplos, porque abriu e eu posso dizer que o meu investimento pessoal na empresa, além do meu trabalho, obviamente, foram 1125 euros. E é muito importante que as pessoas saibam isto, porque muitas vezes não sabem, acham que abri uma empresa e os meus pais deviam ter dinheiro, deram-me aí uns 50 mil euros ou 100 mil euros e eu fui ali abrir uma empresa… Neste caso não é nada disso: nós candidatámo-nos a capital de risco num programa que ainda está ativo e ao qual qualquer jovem pode candidatar-se e se não fosse esse programa a S4Y nunca seria possível.

Portanto, o que eu acho é que ter uma boa ideia e ter vontade de trabalhar são dois pontos muito mais importantes do que o dinheiro – porque acho que 1000 euros uma pessoa consegue juntar, com algum esforço e dedicação, mesmo a trabalhar no McDonalds e sem um curso superior, por isso é que a S4Y pode ser um exemplo para os jovens: não é preciso ter pais ricos nem é preciso ir ao banco para abrir uma empresa. Às vezes pensa-se: “ah tive uma ideia excelente para fazer isto, isto e isto!”, mas depois pensa-se outra vez: “ah não tenho dinheiro!” e depois acabam por passar para outra e nem desenvolvem o pensamento que tinham. Eu tinha 22 anos, tinha acabado o Curso superior e não tinha nenhuma cunha super mágica – existia era um bom projeto, uma vontade muito grande de trabalhar e um apoio da capital de risco que foi fundamental para o projeto começar a andar.

Uma boa ideia também é fundamental para o negócio ter alguma lógica de mercado, certo?

A ideia da S4Y também era boa – mas nós não descobrimos a pólvora, este é um projeto obviamente diferente, mas não é um software que consegue mudar o mundo ou um equipamento médico inédito. Não temos um super brinquedo que o miúdo toca e aquilo faz uma coisa espetacular, são é brinquedos diferentes e inovadores no mercado. É importante também as pessoas saberem isso, porque por vezes há também aquele estigma: “não tenho uma ideia espetacular, não tenho nada do outro mundo, será que isto é suficiente?” Muitas vezes é. E o caso é que brinquedos científicos já existiam, não existiam era brinquedos com a certificação da FCUL, mas eram tudo coisas que já existiam por separado: Campos de férias, Festas de aniversário, Museus, Faculdades… Nós tentámos foi juntar tudo e conseguimos fazer aqui uma coisa muito interessante. Muitas vezes acho que as pessoas não vão abrir uma empresa porque isso já existe – e até pode existir, mas nós temos é que conseguir ter vantagens competitivas para colocar no produto e, a partir daí, eu penso que é uma questão de ter muita vontade, muita coragem, espírito de iniciativa e criatividade, porque a criatividade é muito importante para procurar novas oportunidades e resolver os problemas de formas diferentes.

Nome da empresa?
Science4You

Quantos funcionários lá trabalham?
14 pessoas. A equipa que integra designers, gestores, armazenistas e até cientistas que garantem a produção própria dos brinquedos é dinâmica, divertida e muito jovem – a pessoa mais velha tem 28 anos!

Onde funciona?
A sede fica em Lisboa, está representada também em Espanha e vende em Brasil, Angola e Moçambique.

Qual é a faturação anual?
Depois dos 600 mil alcançados em 2011, a nova meta é o milhão de euros para 2012.

O que a torna tão especial?
Além de aproveitar de forma original a ideia de que a brincar também se aprende, consegue ser prova de as empresas portuguesas com produtos fabricados em Portugal podem efetivamente ser bons exemplos de negócio.

Onde posso encontrar mais informações?
No site oficial www.science4you.pt

A brincar a brincar….
Se aprendem coisas muito sérias!

O que é a biodiversidade? Como entra um vulcão em erupção? Por que é que existem arco-íris quando chove? Como se construíam as pirâmides do antigo Egito? Onde fica o apêndice no corpo humano? Entre puzzles científicos, quizzes educativos e outros brinquedos, a Science4You aprofunda conhecimentos que fazem parte do nosso dia-a-dia, fazendo com os mais novos aprendam (e se divirtam) sozinhos, junto de amigos, companheiros de turma ou mesmo familiares, com temáticas que fazem parte dos conteúdos programáticos escolares de Biologia, Química, Física, Geologia, entre outros. Os grandes impulsionadores e compradores de brinquedos são os pais, mas garante Miguel Pina Martins que “o pai até pode comprar uma vez, mas se a criança não gostar não volta a comprar. Pode não ser a loucura total, mas se gostou, brincou, aprendeu, apreendeu é isso que acaba por ficar”.

Os brinquedos da S4Y contam com o selo da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa (FCUL), o que lhes dá prestígio no mercado. Dentro de cada brinquedo há ainda um vale que se traduz em bilhetes de entrada em Museus de Ciência de todo o país. A título de curiosidade, ultimamente são os brinquedos com temáticas relacionadas com energias renováveis que têm vendido mais. “O Quizz da História de Portugal vendeu muito bem este ano, juntamente com o Jogo do Vulcões, penso que porque explodem (risos). No entanto, os que mais vendem são os brinquedosdas energias renováveis, penso que mas vão todos vendendo bem, felizmente penso que por uma lógica de sensibilização. Acho que as crianças têm uma maior sensibilidade que os adultos – se calhar pensam: “isto quando eu for adulto não vai estar bom para mim, vamos lá ver…”, acredita Miguel.

O rapaz dos prémios

O jovem CEO da Science4You acabou, em 2007 e com notas brilhantes, o Curso de Finanças no ISCTE-IUL. As várias propostas de emprego e a experiência de seis meses na área da banca de Investimento não o preencehram pessoal nem profissionalmente e aos seus apenas 22 decidiu abrir o próprio negócio: a Science4You. Com apenas 25 anos, Miguel Pina Martins tinha foi nomeado pela Comissão Europeia “Empreendedor do Ano 2010″ e convidado para representar Portugal na Semana do Empreendedorismo Europeu. No passado, Miguel tinha já tinha sido distinguido com o “Prémio Empreendedor FINICIA Jovem”, em 2009, e com o primeiro lugar da “European Entreprise Awards”, na categoria “Internacionalização”, a nível nacional.

[ Foto: Samuel Alves ]

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