Não precisamos de escancarar a nossa vida íntima

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Cláudia Morais | ©Samuel Alves

O facebook permite reatar laços com colegas de trabalho, de escola, ex-namorados e antigas paixonetas… À rede social que conta com mais de um milhão de utilizadores em Portugal e com quase 500 milhões no mundo a psicóloga clínica Cláudia Morais dedica o seu último, “O amor e o facebook”.

Como nasceu a paixão pela psicologia e, mais recentemente, pelos livros?

Caí na psicologia um bocadinho de paraquedas, ou seja um bocadinho por acaso, porque os meus planos académicos iam no sentido da Medicina. Como não tive média para entrar em Medicina, tive de repensar a minha vida em muito pouco tempo. Apaixonei-me, é verdade, pela Psicologia e estou há 11 anos a trabalhar na área de Terapia Familiar. A entrada no mundo da escrita devo-a ao meu coordenador de estágio, que já na faculdade nos incutia esta questão de escrevermos e de apostarmos em nós, nomeadamente sob a forma de artigos científicos… E depois ficou o bichinho (risos).

O amor e o Facebook

“O amor e o facebook” nasceu da atualidade do tema e dos casos clínicos que lhe iam aparecendo no consultório ou há outra explicação para a temática do livro?

Sim, foi mesmo por aí. Eu estava a começar a escrever um segundo livro, porque me parecia que o primeiro estaria desatualizado – até em função da minha própria experiência, porque o meu primeiro livro saiu tinha eu três anos de experiência, muito pouca, portanto. Entretanto, nestes últimos anos aprendi muito com os casais e estava a amadurecer a ideia de um segundo livro. Entretanto, começaram a surgir algumas queixas relacionadas com o facebook. À medida que fui contactando com essas queixas, comecei a amadurecer a ideia de juntar aqui as duas temáticas: a terapia de casal com as questões relacionadas com o facebook e aquilo de que me apercebi foi do avolumar dessas queixas, sobretudo sobre o tempo, não apenas passado em frente ao computador, mas especificamente no facebook. A par destas queixas, naturalmente surgem os ciúmes, a insegurança, os contactos com terceiros, nomeadamente com desconhecidos ou desconhecidas, o reatar laços com paixões antigas… Tudo muito à volta dessas questões.

Quando se geram equívocos virtuais em torno de uma foto ou de um comentário colocado no mural de outra pessoa, por exemplo, isto pode interferir ou mesmo acabar com uma relação real?

Quando falamos de equívocos, temos sempre de olhar para o que está para trás: ou seja, numa relação saudável em que comunicação flua convenientemente, mesmo que haja estes equívocos, de um modo geral, tudo se resolve, porque o casal não espera o pior um do outro. Quando a relação não está tão saudável, nós ficamos inseguros em relação à nossa relação e deixamos pura e simplesmente de esperar o melhor, muitas vezes cai-se no erro de esperar o pior do outro e então o que é que acontece? Basta um tal equívoco para que assumamos que o outro está a errar seriamente connosco e a partir daqui dá-se o chamado efeito bola de neve.

Há dicas para uma utilização saudável do facebook para não cair em comportamentos obsessivos de tentar controlar os amigos que a outra pessoa adiciona ou ver a que horas ela está online, por exemplo?

É fundamental que haja regras, ou seja: esta é uma ferramenta nova e é nova para a generalidade de pessoas, por isso é natural que mesmo nas relações saudáveis nem sempre se saiba como gerir algumas questões específicas, por exemplo: as pessoas podem ter regras informais a respeito do relacionamento com o sexo oposto, mas depois essas regras podem não ser propriamente aplicáveis a questões do facebook. Assim que surge uma primeira divergência, um primeiro equívoco, é fundamental conversar abertamente sobre as coisas e criar regras. As regras que funcionam para um casal podem não funcionar para outro, ou seja, ver aquilo que funciona com a nossa amiga ou com o nosso amigo e tentar transpor as regras daquela relação para a nossa própria relação, não funciona. Depois, as questões que são aplicadas ao facebook são as mesmas que são aplicadas no fundo ao resto da vida do casal, ou seja, todos precisamos de nos sentir seguros e não precisamos de escancarar a nossa vida íntima sempre todos os dias ao nosso cônjuge, o que precisamos é de fomentar a nossa confiança através da transparência e através da honestidade e da clareza, ou seja, através da assertividade, permitindo que a pessoa que está connosco se sinta efetivamente segura. Agora cada um de nós também precisa de sentir que o outro confia em nós – questões como exigir a password do outro, exigir que o outro mostre todos os dias aquilo que anda a fazer no facebook no horário de trabalho não fará muito sentido, até porque isso fomentará talvez não a insegurança no sentido da fidelidade, mas a falta de confiança. Eu tenho de confiar na pessoa que está ao meu lado, mas também preciso que ele ou ela confie em mim, de outro modo, posso sentir-me perseguida e isso não faz parte de uma relação saudável e não pode fazer.

Já teve casos de comportamentos limite?

É muito fácil para uma pessoa comum cair em erros muito sérios. Quando a insegurança começa a crescer e a pessoa que está ao nosso lado não vem ao encontro das nossas necessidades, infelizmente cada um de nós pode assumir aquilo a que eu chamo de “comportamentos à detetive” e aqui é muito fácil entrar-se no tal circuito obsessivo compulsivo, nomeadamente algumas pessoas com quem eu já tenho trabalhado já caíram nessa rede e algumas assumem-no com uma total clareza, assumem até a vergonha e o embaraço. As pessoas desconhecem ainda é o impacto que ditos comportamentos têm na sua autoestima: “eu tenho vergonha daquilo que fiz, sei que isso até pode prejudicar a minha relação, mas foi mais forte do que eu”. Existem até pessoas que individualmente passaram por isso e que me procuram até depois da relação ter ido por água abaixo que assumem que a sua autoestima saiu fragilizada ou seja, que há que trabalhar questões individuais porque temem poder não voltar a confiar noutra pessoa – porque se nós baseamos a nossa confiança e a da pessoa de quem mais gostamos em provas concretas, vamos viver sistematicamente com o coração aos pulos e não é isso que nenhum de nós busca numa relação afetiva, muito pelo contrário.

Cláudia Morais (foto: Samuel Alves)

Quais os primeiros sintomas para percebermos que a nossa relação com o facebook não anda bem? Exige isso a procura de um especialista?

Todas as mudanças que se prolonguem no tempo e que comprometam o bem-estar neste caso conjugal ou familiar devem ter uma espécie de time out, uma paragem para pensar naquilo que está a acontece – quando temos um novo gadget ou um telemóvel novo, pode acontecer que roubemos algum do tempo que habitualmente era dedicado à família para descobrirmos aquele brinquedo. Com o facebook isso também tem acontecido, até nas camadas mais seniores da população: as pessoas de repente descobrem ali um incrível mundo novo, porque estão perante uma plataforma que lhes permite reatar laços com pessoas que não viam há 20, 30 ou 40 anos – muitas vezes em continentes diferentes. É de facto muito interessante, muito entusiasmante podermos reatar esses lados, ainda que isso roube tempo às pessoas que supostamente mais amamos e pode acontecer que durante um período limitado sintamos que a nossa relação não está segura, porque o nosso cônjuge de repente está deslumbrado com o facebook. A tendência que se espera é que as coisas se normalizem. Se, pelo contrário, as coisas não se normalizam e nos queixamos do tempo que o nosso companheiro passa no facebook e não vemos as nossas chamadas de atenção atendidas – esses apelos são ignorados ou até são respondidos com alguma agressividade, então importa com serenidade, mas sobretudo com assertividade e com firmeza, reivindicar ali mudanças sérias, sob pena de aquilo ser efetivamente o princípio do fim. Se assim for, mais cedo ou mais tarde, essas mudanças vão depender da intervenção externa, porque a tendência é para que as coisas se agudizem, é só uma questão de tempo.

[ Foto: Samuel Alves]

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